Ensino médio na rede municipal: Luta histórica da população de Volta Redonda

O O ano era 1989. O prefeito era aquele que ninguém conhecia, mas que assumiu por causa da precoce morte de Juarez Antunes. Eu tinha 12 anos, era aluno da 7ª série do então 1º grau no Colégio Getúlio Vargas. Dali a 2 anos, eu iniciaria o 2º grau, oferecido pelas escolas da FEVRE.
Em uma tarde, um grupo de alunos do noturno pediu licença à minha professora e entrou na minha sala de aula informando que a Prefeitura de Volta Redonda estava planejando acabar com o ensino médio nos colégios da Fundação. O argumento era o fato da Constituição Federal, recém-aprovada, ter delegado a responsabilidade do ensino fundamental aos municípios, ficando a esfera estadual como a principal responsável pela oferta de vagas do 2º grau.
Chamaram uma reunião para a hora do recreio, e lá fui eu. Dezenas de crianças e pré-adolescentes assustadas tentavam entender a situação. Crianças, mas que sabiam que estudavam em um bom colégio, e que Volta Redonda possuía uma insuficiente rede estadual de ensino médio. Este era dominado pela ETPC (voltada para a CSN) e pelos colégios particulares com suas altíssimas mensalidades que não tínhamos condições de pagar. Os trabalhadores da cidade, e nós, seus filhos, tínhamos muita consciência da classe social a que pertencíamos.
Nossos pais contavam com o ensino médio da FEVRE. Ouvíamos todos os dias em nossas casas que era seu sonho continuarmos os estudos. Muitos deles sequer completaram o 1º grau, outros eram até analfabetos, mas desejavam um futuro melhor para nós com os cursos de reconhecida qualidade que lá existiam (como a então promissora Informática e outros).
O país vivia uma recessão profunda. Não podíamos ficar calados. Imediatamente, alunos dos três turnos passaram a se reunir aos sábados, em turnos diferentes dos que estudavam, a fazer cartazes, conversar com os diretores, dialogar com alunos das outras unidades da FEVRE.
Organizamos passeatas. Fomos às ruas, indo pra porta da Prefeitura durante o dia, ocupando sessões da Câmara de Vereadores à noite. Muitas crianças e adolescentes, alguns adultos, juntos na defesa da possibilidade de continuarmos estudando na rede municipal.
Vencemos. A Prefeitura recuou e a Câmara não levou adiante o projeto.
32 anos se passaram. Em um país em que os índices educacionais ainda se encontram muito distantes de um patamar digno, o discurso de que o ensino médio é responsabilidade da esfera estadual continuou sendo feito. NÃO! A LDB fala que a educação pública é papel do Estado (isto é, das três esferas de governo), visando à universalização do ensino médio. Uma Prefeitura que quer proporcionar melhores condições de vida e de trabalho a seus cidadãos, não apenas não pode acabar com o ensino médio em sua rede, como deve ampliar o que já existe.
Ao tentar começar o ano de 2021 melhor do que foi a tragédia de 2020, ouço a notícia de que um dos primeiros atos do Prefeito eleito foi pôr fim ao ensino médio na FEVRE. Uma decisão tomada em meio a uma pandemia de Covid-19, em que a comunidade escolar se viu de qualquer maneira no ensino remoto por não poderem sair de casa. Joga com a dificuldade das mobilizações que poderiam denunciar tal medida. Atira no lixo a história do dedicado trabalho de gerações de professores e sonhos de um mundo melhor para crianças e jovens de hoje.
Volta Redonda vive em um déficit de empregos há anos, num país de 14 milhões de desempregados. A resposta da Prefeitura a isso? A redução da possibilidade de muitos se qualificarem nos estudos, adquirirem habilidades técnicas para uma inserção menos precária no mundo do trabalho. E deseja sorte àqueles que procuram uma vaga para 2021. Um deboche?!
Uma cidade que sempre respirou consciência de classe não pode deixar isso barato, como não deixamos nos idos de 1989 e em outros momentos de lutas. Pois vidas, sonhos e história não se destroem com um decreto que só reforça miséria e desesperança para o futuro.
Charles Toniolo é ex-aluno da FEVRE. Tem 43 anos, é filiado ao PSOL/VR, possui Doutorado em Serviço Social e hoje é Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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