terça-feira, maio 24, 2022
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Efeitos colaterais

Internados com Covid-19 recebem alta hospitalar sem condições para dirigir, revela estudo da Unirio

Há muito tempo ninguém quer mais ouvir falar de Covid-19, certo? Certo, mas não devia ser assim. O número de mortes, por exemplo, voltou a subir em doses homeopáticas e os óbitos nem estão sendo divulgados pelos jornais diários. O que mais chama atenção é que uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio) mostra que pacientes internados com Covid-19 podem não ter condições para dirigir após receber alta hospitalar, devido ao prejuízo cognitivo provocado pela doença.
A constatação foi feita por pesquisadores da Unirio em estudo publicado no periódico Journal of Psychiatric Research. Para a pesquisa, foram selecio-nados 30 pacientes inter-nados no Hospital Univer-sitário Gaffrée e Guinle (HUGG), de 19 a 66 anos, que manifestaram quadros moderados da doença, sem necessidade de intubação, e não apresentavam patologias neurológicas ou psiquiátricas. No dia da alta, cada paciente foi submetido ao Teste Computadorizado de Atenção Visual (TCAV), desenvolvido na década de 1980 e utilizado em avaliações neuropsicológicas para medir a capacidade de atenção.
O teste tem duração de um minuto e meio. Durante esse tempo, a cada segundo, é mostrada a ilustração de um losango ou de uma estrela na tela do computador, sendo a estrela o ‘alvo’ a ser indicado. Quando esse alvo aparece, a pessoa deve pressionar a ‘barra de espaço’ no teclado. O método permite medir variáveis como tempo de reação a estímulos e taxa de omissão (quando a tecla não é pressionada, mas deveria ser) e comissão (quando a tecla é erroneamente pressionada).
A análise dos dados revelou prejuízo cognitivo, em diferentes graus, em 93% dos indivíduos. Em um grupo um pouco menor, correspondente a 76% do total, as perdas eram graves a ponto de impossibilitar a prática da direção segura. “As alterações ocorreram, principalmente, no tempo de reação e na variabilidade desse tempo ao longo do teste”, revela o médico intensivista Aureo do Carmo Filho, principal autor do estudo.
Grupo de controle
Para avaliar os resultados, os pesquisadores utilizaram um grupo-controle formado por 211 motoristas saudáveis habilitados pelo Departamento de Trânsito do Estado do Rio de Janeiro (Detran-RJ), que haviam se submetido ao mesmo teste antes da emergência do novo Coronavírus. Nesse grupo, apenas 16,6% dos participantes apresentaram alterações em uma ou mais variáveis mensuradas pelo teste, em contraste com os resultados encontrados no grupo dos pacientes avaliados.
Segundo o professor Aureo do Carmo, a explicação para o déficit cognitivo acarretado pela Covid-19 reside na ação direta do vírus em áreas cerebrais. “O Sars-CoV-2 tem a capacidade de provocar inflamação neuronal e de formar tromboses, ocasionando ‘microinfartos’ no cérebro”, aponta. Como conse-quência, ocorre o chamado brain fog (névoa mental), estado de confusão mental e dificuldade de concentração relatado por muitas pessoas após a recuperação da doença. “A maioria dos pacientes fazia queixas como: ‘Doutor, estou me sentindo mais lento’, ou ‘Estou com problemas de memória’”, revela o médico.
O estudo contribui para a compreensão das consequências a longo prazo da Covid-19, especialmente no que diz respeito às sequelas neurológicas da infecção. Os pesquisadores, membros do Programa de Pós-Graduação em Neurologia (PPGNeuro) da Unirio, pretendem analisar dados sobre acidentes de trânsito durante a pandemia, relacionando-os ao prejuízo atencional desencadeado pela doença. Será feita, também, a análise das imagens cerebrais dos pacientes, para a verificação da ocorrência de sequelas radiologicamente identificáveis.

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