Na segunda, 19, exatamente às 20h07min, Edimar Miguel, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, reconheceu oficialmente a sua derrota. O ‘sim’ de 3.736 operários à proposta da CSN tinha lhe imposto o primeiro ‘não’ como dirigente do maior órgão classista da região. E o primeiro ‘não’ ninguém esquece. Aliás, o resultado não foi novidade para ninguém, nem para ele, até porque a proposta da siderúrgica, que era para ser unificada, principalmente com o Metabase Inconfidentes, sindicato dos operários da CSN Mineração, foi aprovada em todas as unidades da siderúrgica e com votação expressiva. O número alto dos votos contrários chegou a animar Edimar & Cia, que chegaram até a fazer publicidade nas rádios pregando a rejeição ou até mesmo o boicote à assembleia.
A proposta aprovada, conforme o aQui antecipou nas redes sociais na noite de segunda, 19, contemplava um reajuste progressivo de 3% a 4,5% e ainda um reajuste de 100% no cartão-alimentação, que passa de R$ 500 para R$ 1.000, com um abono extra e exclusivo em junho no valor de R$ 900; além de um abono financeiro de 1,53 salário. Os créditos no cartão- alimentação seriam pagos até cinco dias depois de assinado o acordo. Já o abono de 1,53 salário deveria ser depositado na conta do trabalhador até o próximo dia 13 de julho, sendo que o reajuste salarial deveria ser pago junto com a folha de junho, no dia 30. Todos os benefícios seriam retroativos a 1° de maio. Detalhe: as datas dependiam de Edimar assinar o acordo até o início da noite de terça, 20. Depois, até às 12 horas de quarta, 21. O sindicalista não fez nem uma coisa nem outra. Inventou de assinar um ‘meio acordo’, excluindo sua assinatura das cláusulas financeiras (ver matéria na página seguinte). Alguns detalhes chamaram atenção na noite fria de segunda, 19. “O sindicato organizou as filas de votação de uma maneira que estivessem sempre cheias e colocou carros de som ao lado. E ficou falando (mal, grifo nosso) do plano de saúde. Também ficou falando nos ouvidos dos operários que a proposta da CSN não seria a última”, contou uma fonte do aQui com trânsito no meio sindical. “Eles quase conseguiram ludibriar os trabalhadores”, afirmou.
Ela ainda lembrou que os metalúrgicos estavam sendo levados ao erro com a tática de Edimar & Cia. “Se eles rejeitassem a proposta da CSN, o caso ia ser resolvido em dissídio. E na Justiça do Trabalho, no caso do dissídio, não haveria discussão sobre cartão- alimentação e abono. A Justiça do Trabalho costuma assegurar apenas o índice do INPC para reajuste. E a proposta da CSN superava o atual índice para quem ganha até R$ 5 mil reais”, comparou.
Provocada a falar dos erros cometidos por Edimar, presidente, e Tarcísio Xavier, braço direito do líder sindicalista, a fonte entende que os dois erraram em dois pontos cruciais. Na história da pauta unificada e nos pedidos absurdos da pauta de reivindicações, como exigir 22% de aumento. “Para mim, eles erraram nas duas situações. Na pauta unificada e no pedido de 22%”, avaliou, indo além. “Na pauta unificada, erraram porque não foi uma política do Sindicato (de Volta Redonda), mas sim uma coisa direcionada contra a CSN. Tanto que não fizeram isso com a Volkswagen e nem com a Arcelor”, comparou.
‘Imagem de derrota’
Ela está certa. A prova, como ela mesma lembrou, é que na primeira oportunidade que teve, ao ser chamado para conversar com a CSN, o Metabase Inconfidentes (sindicato dos Metalúrgicos de Congonhas) aprovou o acordo oferecido. “Ele (Metabase) aprovou o acordo e deixou Volta Redonda sozinha… Assim como já tinha feito no ano passado”, lembrou, referindo-se ao acordo coletivo de 2021/2022, quando o órgão ainda era dirigido por Silvio Campos. “Os sindicatos da pauta unificada têm interesses e particularidades diferentes, de modo que a unificação não fazia sentido. Cada categoria tinha a sua realidade. A junção das pautas foi um movimento totalmente político, e não sindical”, garante, lembrando que o acordo em Congonhas foi assinado por Rafael Ávila, o Duda , com a CSN no dia 13 de junho. “Seis dias antes da assembleia em Volta Redonda”, disparou, de forma irônica.
Política também deve ter sido a pedida de 22% de reajuste, que a própria classe operária rejeitou, mostrando que a reivindicação não estava sendo levada a sério. “No pedido de 22%, eles erraram porque criaram uma expectativa muito alta no trabalhador. A CSN ofereceu o reajuste de 4,5%, ou seja, um reajuste 17,5% acima do INPC (que foi de 3,83%)”, comparou, aproveitando para deixar no ar uma frase sintomática: “O Sindicato (leia-se Edimar & Tarcísio) sai com uma imagem de derrota, porque conseguiu praticamente apenas 20% do que havia pedido. Estava fora da realidade do Brasil e não apenas da região”, disparou.
‘Deixou Volta Redonda na mão’
Tendo presenciado várias negociações ao longo da última década, todas resolvidas depois de algumas assembleias e nunca em apenas uma, como foi a de Edimar & Tarcísio, a fonte chegou a rir da participação de sindicalistas de Congonhas na noite de segunda, 19, quando os operários da CSN aceitaram a proposta de acordo oferecida pela direção da siderúrgica. E ainda na discussão do abono nos dias seguintes. “A presença do presidente do Metabase (Rafael Ávila, o Duda) em Volta Redonda só vem ratificar que não existia coerência na pauta unificada, defendida com unhas e dentes pelo Edimar, mas sim um posicionamento particularmente voltado para a CSN”, avaliou. “Não faz sentido o Metabase aprovar (proposta da CSN) com 82% dos votos e dizer que esta mesma proposta, votada em Volta Redonda, é ruim”, pondera. “Que tipo de representante sindical é esse, que não respeita nem a opinião dos seus representados?”, avaliou de forma irônica.
Para a fonte, que não quer ter seu nome revelado para não sofrer represálias por parte dos sindicalistas locais, Edimar & Tarcísio, além de aceitar a presença de Duda, do Metabase, tendo, inclusive, franqueado a palavra a ele no caminhão de som do Sindicato de Volta Redonda, só mostra a fraqueza de Edimar como líder dos operários porque o Metabase logo aprovou a proposta da CSN em Minas” “Foi primeiro, e deixou Volta Redonda de lado”, finalizou. Importante: os peões de Congonhas receberam na terça, 20, o abono de R$ 900,00 previsto no acordo salarial assinado por Duda, e que Edimar se negava a assinar.

Negociações de Edimar & Cia com a CSN foram recheadas de trapalhadas e inverdades
Peão não gostou
Por Pollyanna Xavier
Uma sucessão de erros, repletos de inverdades, marcou a semana no meio sindical, tendo o Sindicato dos Metalúrgicos à frente. O saldo foi negativo para Edimar Miguel, que foi duramente criticado nas redes sociais e fora dela. Afinal, o peão foi levado do céu ao inferno em apenas cinco dias. Isto porque o sindicalista não soube conduzir sua primeira campanha salarial com a CSN. Já começou mal, quando insistiu, por longos três meses, em defender uma pauta unificada, que levou o trabalhador à exaustão. Quando sentou-se para negociar, aceitou, sem pestanejar, levar a proposta da CSN à apreciação dos operários. Não tentou mudar nada, nenhuma vírgula.
Aí começaram as pendengas. Edimar e Tarcísio Xavier passaram a dar declarações controversas, duvidosas e algumas inverídicas. Como a de que não sabiam que o abono salarial/PLR estava incluído no ACT. Ou a de que o Ministério Público do Trabalho (MPT) poderia multar o Sindicato em R$ 60 milhões, caso o abono não fosse estendido aos trabalhadores demitidos. Edimar chegou até a falar que se o MPT autorizasse, o acordo seria assinado. Em vídeos postados até às 18 horas de quinta, 22, Edimar estava reticente. Jurava que não assinaria o acordo. Acusou a CSN de ser chantagista.
No último vídeo, gravado antes de assinar, Edimar afirmou que a CSN não teria sido transparente com o Sindicato, por ter alterado e incluído cláusulas que não existiam na proposta aprovada. E que, por este motivo, não assinaria o acordo. A fala foi repetida várias vezes em postagens, mensagens e vídeos, deixando o trabalhador ainda mais confuso. Horas depois, Edimar postou um novo vídeo, desta vez para avisar que tinha assinado o acordo que não assinaria.
O anúncio da assinatura foi confirmado pela CSN, que avisou que pausaria a preparação da folha de pagamento de todas as unidades da empresa (Minas, São Paulo, Paraná) para incluir a lista dos trabalhadores de Volta Redonda. Ou seja, os reajustes serão pagos na folha de junho, com previsão de ser liberada na próxima sexta, 30. “A folha de pagamento de todo o grupo CSN foi parada agora à noite para incluirmos os metalúrgicos de Volta Redonda”, informou a assessoria de imprensa da UPV por volta das 22 horas de quinta, 22.
Quanto às declarações dadas por Edimar e seu grupo ao longo da semana, e que confundiram os trabalhadores, o aQui foi atrás da verdade e teve acesso a documentos que comprovam que o líder sindical & cia pisaram feio na bola e induziram, várias vezes, o trabalhador ao erro. A seguir, desmentimos pelo menos três delas. Confira.
“Respeitoao resultado”
Na noite de segunda, 19, após encerrada a votação da proposta da CSN na Praça Juarez Antunes, Edimar e os diretores do Sindicato passaram a fazer a contagem dos votos. Com transmissão ao vivo pelo Instagram, Edimar declarou que “independentemente do resultado, a decisão do trabalhador seria respeitada”. Não foi. Os trabalhadores aprovaram a proposta da CSN (3736 votos, contra 2949), mas Edimar se recusou a assinar o acordo coletivo, deixando os operários com a incerteza se receberiam, ou não, os benefícios financeiros e sociais garantidos na proposta aprovada.
Acordo/PLR
Este item virou o pivô de toda a confusão criada pelo Sindicato. E ele esconde uma informação interessantíssima que Edimar e Tarcísio não falaram ao trabalhador: a de que foi o próprio Tarcísio quem denunciou ao Ministério Público do Trabalho o acordo realizado entre a CSN e a antiga direção do Sindicato (liderada por Silvio Campos), que resultou na substituição da PLR por abono. Foi por causa dessa denúncia, feita por ofício no dia 29 de junho de 2022, que o MPT ajuizou uma Ação Civil Pública contra o Sindicato e a CSN para rever essa questão. Agora, com Edimar na liderança do Sindicato, ele virou réu da própria denúncia feita por Tarcísio. A ação tramita na 1a Vara do Trabalho de forma pública (o sigilo foi quebrado recentemente), e a única decisão que existe até agora é a de que o juiz negou um pedido de liminar feito pelo MPT para suspender o acordo do Abono/PLR, por “não vislumbrar nenhuma ilegalidade” nele.
Outra questão é que as declarações de Tarcísio Xavier, de que o MPT poderia multar o Sindicato em R$ 60 milhões, caso Edimar assinasse o ACT 2023/24 com a CSN, sem que o abono contemplasse os cerca de dois mil demitidos, não eram verdadeiras. O MPT pede, sim, uma condenação dos réus (Sindicato e CSN) no valor de R$ 10 milhões (e não 60 milhões), mas o pedido ainda não foi apreciado pelo juiz. Ou seja, não há qualquer decisão neste sentido, não há valores determinados pelo magistrado, não há nada ainda. O processo nem tem sentença, e a última movimentação foi feita na quarta, 21, quando Tarcísio Xavier, representando Edimar, requereu uma liminar para que o juiz determinasse a inclusão dos demitidos no pagamento do abono/PLR no ACT, que até aquele momento estava pendente de assinatura. Até o fechamento desta edição, o pedido ainda não tinha sido julgado.
Mudança de cláusulas
Edimar Miguel gravou vários vídeos afirmando que a CSN teria alterado itens da proposta aprovada pelos trabalhadores.
Embora tenha dito isso várias vezes, Edimar nunca falou quais seriam esses itens. O aQui teve acesso à ata com a pauta do Sindicato e a proposta da CSN. Todas as páginas estão assinadas por Edimar e outros representantes do Sindicato e da CSN, inclusive a página 16, que trata do pagamento do abono/PLR. Ele sabia o tempo todo.
Deus perdoa, a internet não
O comportamento de Edimar Miguel só contribuiu para prejudicar a imagem do Sindicato dos Metalúrgicos nas redes sociais. Os internautas passaram a criticá-lo abertamente. Chegaram a sugerir a sua desfiliação e falaram em boicote entre tantas outras que depreciaram o líder sindical. Os comentários, pasmem, foram feitos nas postagens do próprio Sindicato, provando que a reação do trabalhador foi negativa. O aQui selecionou algumas para a versão impressa e o leitor pode encontrar outras mais em www.jornalaqui.com:
“Metalúrgicos, vamos todos deixa de ser sindicalizado, vamos sair do sindicato, Edimar não está nem aí para nós que está trabalhando”.
“Sindicato está fazendo reivindicações agora, pq não sentaram com a CSN tantas vezes antes da votação para ler o que eles estavam propondo?”
“Não sentaram pra negociar, porque estava ocupado com essa porcaria de unificação, que só foi perca de tempo. Deixou a classe trabalhadora exausta esperando pelos direitos. Por fim de tanto esperar, aceitaram a primeira que a CSN ofereceu”.
“Edimar só fala lorota, querendo brigar por demitidos mais esqueceu de todos nós que estamos ativa trabalhando. Várias famílias contando com o acordo, e ele faz isso. Temos que marcar uma assembleia na frente do sindicato pedindo que eles assina logo o acordo”
“Quer teimar igual teimou com história de proposta unificada. E continuarem com história que nem está na pauta! Vocês são incompententes!”
“Esses pessoal que diz que está lutando por nós e tudo mentira, esse discurso do presidente já está dando nojo de ouvir, só fala merda”.
Entrevista com Leandro Vaz, diretor jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos
Na terça, 20, quando ainda era grande a movimentação em torno da decisão do Sindicato dos Metalúrgicos de assinar ou não o acordo coletivo da CSN, o aQui enviou cinco perguntas ao diretor jurídico do órgão, Leandro Vaz. Só que até as respostas chegarem, uma reviravolta aconteceu, fazendo com que o foco da reportagem mudasse, e a matéria publicada na edição impressa exigiu um novo enfoque. Porém, em respeito ao Sindicato, o aQui publica na íntegra, nesta versão on-line, as respostas de Leandro Vaz.
Confira.
aQui – Por que o Sindicato não rejeitou a proposta da CSN ainda na mesa? Na época, algum item chegou a ser questionado e consta em ata? Qual?
Leandro Vaz – A CSN não se dispôs à negociação e a data-base é em Primeiro de Maio, a proposta tinha de ser votada pelos trabalhadores, outras bases já tinham feito a consulta. A ata registrou a Pauta de Reivindicações do Sindicato e a proposta econômica da CSN. Em relação ao Abono Salarial, não houve nenhuma discussão para exclusão dos demitidos.
aQui – Por que o Sindicato não propôs à CSN, entre março e abril, a discussão, fora da pauta do ACT, a questão do abono ou da PLR dos trabalhadores da ativa, dos aposentados e demitidos no período?
Leandro Vaz – A Pauta de Reivindicações foi entregue com antecedência já em abril, mas a CSN não sentou com o Sindicato para dialogar. Um dos pontos reivindicados é justamente a retomada da PLR, mas não houve proposta nesse sentido.
aQui – Durante a apuração dos votos, transmitida ao vivo no Instagram, Edimar disse que, independentemente do resultado, a escolha do trabalhador seria respeitada. Mas,ao se recusar a assinar o acordo, demonstrou exatamente o contrário. O que vocês têm a dizer sobre isso?
Leandro Vaz – O trabalhador votou na proposta econômica da CSN, não votou na exclusão dos demitidos. Aliás, essa questão está na Justiça do Trabalho, por conta de uma ação movida pelo Ministério Público do Trabalho contra a CSN e o Sindicato, cuja antiga direção assinou um acordo excluindo os demitidos. O Sindicato não pode renunciar direitos de trabalhadores não consultados na votação. Além disso, existe legislação garantindo o pagamento aos demitidos, essa é a posição do Tribunal Superior do Trabalho, inclusive.
aQui – Se o pagamento dos benefícios não for feito pela CSN nas datas propostas, o Sindicato vai ficar com a imagem ainda mais prejudicada. O que vocês têm a dizer sobre isso?
Leandro Vaz – O Acordo Coletivo de data-base está assinado e não tem relação com a discussão do Abono Salarial. A CSN faz chantagem com a necessidade dos trabalhadores, demonstrando seu descompromisso com o operariado. Exigimos o cumprimento do Acordo assinado e a inclusão dos demitidos no recebimento do Abono Salarial.
aQui – Vale a pena insistir no pagamento do abono para poucos demitidos em detrimento dos milhares de operários da ativa? Por quê?
Leandro Vaz – Em primeiro lugar, são centenas de demitidos que o Sindicato também representa, ou seja, centenas de famílias do Sul Fluminense atingidas pela exclusão ilegal. O Sindicato não está fazendo a defesa dos demitidos em detrimento de ninguém, muito ao contrário. Defender a solidariedade de classe é o compromisso na nova direção. Vamos seguir lutando até uma solução ampla, sem discriminação e resistindo à covarde chantagem da CSN.

