As ‘águas de março’, dizem, são as mais violentas. Elas não só fecham o verão, como cantava o poeta, mas causam destruição e outros transtornos. Mas, desta vez, foi em fevereiro que o bicho pegou de verdade em Volta Redonda. Na segunda, 7, o caos imperou: alagamento em bairros centrais e periféricos, além de pânico. Lugares que antes eram usados como eventuais pontos de socorro em tempos de chuvas intensas, como escolas, por exemplo, não são mais seguros. Para se ter uma ideia, o Colégio JB de Athayde, na Vila Americana, está funcionando em regime de revezamento, pois algumas salas foram inundadas no último temporal.
Junto com a água barrenta que invadia casas e outros estabelecimentos no fatídico dia, escorria lixo de toda ordem, como latinhas, garrafas pet e até restos de móveis velhos. Um cenário conhecido por todos há bastante tempo e que leva ao seguinte questionamento: o descarte desrespeitoso de resíduos pode estar agravando as enchentes em Volta Redonda?
O aQui resolveu conversar com dois especialistas sobre este assunto e ambos foram unânimes em dizer que a população, apesar de manter péssimos hábitos, não é a principal culpada pelos transtornos que as chuvas vem causando.
De acordo com Rodrigo Beltrão, secretário de juventude do PV de Volta Redonda, conselheiro municipal de juventude e cofundador do coletivo Democracia Verde, mesmo que os mais de 300 mil habitantes da cidade fizessem um descarte de lixo consciente, pouca coisa mudaria. “A única coisa que iria acontecer seria não vermos o lixo boiando na enchente”, disparou. “Não concordo com o argumento que culpa a população pelas enchentes! Precisamos conscientizar nosso povo sobre descarte de lixo, mas as chuvas dos últimos tempos estão totalmente desreguladas pelas mudanças climáticas e, quando falamos de Volta Redonda, vamos lembrar que a CSN faz uma ilha de calor na cidade e desregula ainda mais essas chuvas”, teorizou.
Rodrigo pondera que há uma série de equívocos cometidos pelo Poder Público cujas consequências ultrapassam os males causados pelo descarte incorreto da população. “Os sistemas de captação de águas são insuficientes, a coleta de lixo municipal não consegue atingir a população no geral e não temos uma destinação correta pro lixo que recolhemos, quando recolhemos. Investir no tratamento sustentável dos resíduos é fundamental para tentarmos resolver essa parte do problema. Agora, não adianta nada enquanto a expansão imobiliária na cidade continua destruindo riachos e lagos que dão vazão para toda essa chuva, como houve no Belvedere, por exemplo”, pontuou, referindo-se aos empreendimentos imobiliários na região, já tratados pelo aQui, inúmeras vezes, em edições anteriores.
“O terreno de Volta Redonda é pantanoso e aterram boa parte dele para expandir. O movimento de cheia do rio é natural, mas como intervieram de forma insustentável no local [riacho], nós sofremos as consequências. Aliás, a discussão do Plano Diretor sendo feita agora precisa levar muito isso em consideração para podermos replanejar Volta Redonda com a sustentabilidade de alicerce”, completou, Rodrigo.
O professor de biologia e doutor em resíduos Roberto Beltrão segue a mesma linha de raciocínio de Rodrigo Brandão. De acordo com ele, os lixos descartados pelas pessoas representam, na prática, um percentual muito baixo de responsabilidade pelas enchentes. “Não chega nem a 50%. Talvez nem 40%. O maior problema é que temos uma área impermeabilizada gigantesca com ruas, calçadas… Com isso, a água vai para o rio quando chove em grande volume. Existem estudos que apontam que quando se tem floresta, 80% da água da chuva se infiltra no solo e 20% escorre superficialmente até os rios. Agora, quando não tem floresta é o contrário, escorre 80% e 20% se infiltra. Piora a situação quando tem pavimentação. Caso de Volta Redonda. Nada se infiltra, tudo escorre para os rios e córregos”, explicou.
Outro problema apontado pelo professor Guião é o desmatamento descontrolado, que dificulta ainda mais o escoamento das águas. “Com nascentes e cabeceiras de rios desmatadas somado ao fato de vivermos em grandes áreas urbanas também desmatadas, além de impermeabilizadas com asfalto, há interferência no escoamento superficial. Este fica totalmente prejudicado, mesmo em áreas não tão impermeabilizadas, que não têm pavimentação do solo”, disse, salientando, assim como Rodrigo Brandão, que as mudanças climáticas também têm grande parcela de culpa. “É uma questão macro. A mudança climática tem feito com que as chuvas fiquem muito fortes e pontuais. Temos uma quantidade muito grande de chuva caindo num tempo muito pequeno”.
Por fim, o especialista fez questão de frisar que, embora o Poder Público seja um agente importante na resolução deste problema, é dever de todos cuidar para que os transtornos ambientais tenham fim. “É interessante ressaltar que as pessoas ficam só colocando a culpa no Poder Público, como se houvesse uma ausência de gestão. Há, sim, problemas na gestão, mas para além disso todos contribuem para o desequilíbrio climático quando desmatam matas e florestas ou simplesmente não se envolvem em questões ambientais. Não podemos apenas esperar soluções. O Poder Público pode ajudar a combater os efeitos colaterais, que são apenas os sintomas. Combater a causa do problema cabe a todos nós, inclusive o poder público”.
De quem é a culpa?
Para especialistas, o descarte irregular de lixo, por incrível que pareça, não é o grande vilão das enchentes em Volta Redonda


