Cobaias de aço

Exatos 110 dias já se passaram desde que estourou a pandemia do novo coronavírus no Brasil. De lá pra cá, Volta Redonda registrou mais de 70 mortes, quase duas mil pessoas foram infectadas e mais de 7 mil casos suspeitos foram registrados. O comércio fechou e abriu duas vezes, o prefeito Samuca Silva brigou para não compartilhar leitos com o governo do Estado e agora aposta num convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para garantir que não falte Nitazoxanida no tratamento precoce de pacientes com a Covid-19.

Por  Pollyanna Xavier

Exatos 110 dias já se passaram desde que estourou a pandemia do novo coronavírus no Brasil. De lá pra cá, Volta Redonda registrou mais de 70 mortes, quase duas mil pessoas foram infectadas e mais de 7 mil casos suspeitos foram registrados. O comércio fechou e abriu duas vezes, o prefeito Samuca Silva brigou para não compartilhar leitos com o governo do Estado e agora aposta num convênio com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para garantir que não falte Nitazoxanida no tratamento precoce de pacientes com a Covid-19.

Também conhecido como Anitta, a Nitazoxanida é um remédio antiparasitário, semelhante ao Ivermectina (que já está em falta nas farmácias de Volta Redonda) e vem sendo testado em pessoas infectadas. Se ele é eficaz no tratamento contra a Covid-19, não há evidências comprovadas. O que existe é um estudo avançado que apontou uma diminuição da carga viral dos pacientes em tratamento e, com isto, um impedimento na evolução da doença para estágios mais graves.

O estudo não deixa de ser um avanço da comunidade científica do Rio de Janeiro. Mas algo chama a atenção: apenas Volta Redonda teria comprado a ideia da Anitta, que vem sendo testado por diversos estados em parceria com o Ministério da Saúde. O convênio assinado com a UFRJ, entretanto, torna a cidade do aço a primeira do país a regulamentar um protocolo para o uso do fármaco, encontrado comercialmente por cerca de R$ 30 a caixa com seis comprimidos.

O convênio foi destacado pelo próprio prefeito Samuca Silva. “Esse é um passo importante. Talvez Volta Redonda seja a única cidade do país a ter esse protocolo regulamentado”, comentou, garantindo que, em no máximo quatro dias, a prefeitura daria início ao processo de compra do remédio através de um pregão eletrônico.

A modalidade de compra não vem ao caso – embora Samuca pudesse adquirir o remédio através de uma compra direta, por se tratar de uma situação de emergência. O problema é que não é de hoje que secretários municipais e estaduais de Saúde de todo o Brasil têm reclamado com o Ministério da Saúde diante da dificuldade de se comprar remédios, equipamentos, EPIs e outros insumos importantes no enfrentamento da Covid. Um grupo de gestores, inclusive, apresentou uma lista de 21 medicamentos que integram seus protocolos e que prefeitos e governadores não estariam conseguindo comprar.

A resposta mais efetiva do Ministério da Saúde surgiu na segunda, 29: foi assinado com a Organização Pan Americana de Saúde (Opas) um acordo para importar parte dos medicamentos. Porém, o governo Federal não tem como garantir que vai conseguir suprir a demanda de remédios pelos próximos 15 dias. A preocupação é que essa dificuldade esbarre na necessidade urgente dos estados e municípios, uma vez que o Brasil já soma mais de 1,3 milhão de infectados, sendo 40% deles hospitalizados.

Convênio

A cerimônia que oficializou a parceria com a UFRJ aconteceu na segunda, 29, no Palácio 17 de Julho. Representando a UFRJ, estava o médico pediatra e doutor em doenças infecciosas Edmilson Migowski. Especialista na área, o profissional explicou que o Nitazoxanida tem se mostrado eficaz no tratamento precoce de pacientes da Covid-19, impedindo que a doença tenha uma evolução com consequências mais graves. A Anitta também seria, segundo ele, eficaz contra a Dengue, Zika e Chikungunya.

Segundo Migowski, a Nitazoxanida reduz em 94% a carga viral em uma pessoa infectada, desde que o uso do remédio aconteça imediatamente após o surgimento dos primeiros sintomas. O percentual seria suficiente até mesmo para evitar o contágio. “Ele diminui a produção de interlecina 6, que provoca a ‘tempestade’ inflamatória. E também reduz o metabolismo mitocondrial e, consequentemente, a capacidade de as células replicarem os componentes do vírus. Ao fazer o tratamento precoce, a gente consegue evitar a evolução da doença e até a ocupação de leitos”, explicou.

Já Samuca deixou claro que o tratamento com Anitta não substitui o isolamento social. E reforçou que cumprir as medidas de segurança preconizadas pelas autoridades sanitárias ainda é a solução mais eficaz para evitar o contágio da Covid. Outra questão pontuada por Samuca foi sobre o protocolo de uso do remédio. Segundo o prefeito, somente casos leves serão atendidos por força do convênio. “Na primeira fase os pacientes vão até o Centro de Triagem e, através da assinatura de um termo de aceitação, receberão o medicamento”, explicou.

Ainda de acordo com o prefeito, a próxima etapa passa por criar uma Central de Atendimento para que os pacientes solicitem a medicação. O protocolo deixa claro que a iniciativa de começar com o medicamento tem que ser do paciente e não da unidade de Saúde. Caso contrário, para que exigir a assinatura de um termo de aceitação?

Volta Redonda não é pioneira, como acredita Samuca

O protocolo que inclui o uso da Nitazoxanida no combate à Covid-19 não é exclusividade de Volta Redonda. No início de junho, a cidade paulista de São Caetano do Sul, no grande ABCD, lançou um estudo clínico em parceria com o governo Federal sobre o uso do antiparasitário. Só que lá, os envolvidos no estudo deixaram claro que a distribuição do remédio para pacientes infectados funcionaria como uma espécie de ensaio. E os pacientes seriam, na verdade, cobaias. Denominado de #500voluntáriosjá, o programa captou voluntários que estavam contaminados ou com sintomas da doença para testar doses do medicamento e permitir o acompanhamento de equipe médica sobre a eficiência do tratamento.

Outras cidades de São Paulo que aderiram ao uso da Anitta foram Sorocaba, Barueri e Bauru. Em Minas, o uso do remédio já foi aplicado em Juiz de Fora. Além destes, o Distrito Federal também testou a proficiência do medicamento. A pesquisa nestas cidades tem o apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovações e o objetivo é avaliar o efeito do fármaco nos doentes acometidos pelo vírus.

Sobre o estudo realizado pela UFRJ, o aQui apurou que a médica responsável pelo ensaio clínico, Patrícia Rocco, solicitou à secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro autorização para realizar a testagem com o fármaco nas unidades básicas de Saúde da rede pública. A aprovação foi concedida recentemente e o pontapé inicial já foi dado. Tudo indica que vem daí a adesão de Volta Redonda ao programa. Uma coisa é certa: se não for eficaz contra a Covid-19 (o que a gente realmente torce para que seja), pelo menos será contra vermes. Tem mais. No site da UFRJ, até ontem, sexta, 3, o convênio da universidade com a prefeitura de Volta Redonda ainda não mereceu nenhum espaço. Sabe-se lá porquê…

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