domingo, novembro 8, 2026
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Evitar distorções

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boneco do samuca

Vinícius de Oliveira

A ideia de Samuca Silva é, conforme pregou na campanha eleitoral, valorizar os funcionários públicos, começando por implantar e pagar o complicado Plano de Cargos, Carreiras e Salários. Conseguiu até selar uma paz entre os sindicatos que representam os servidores e professores. Mas tudo pode estar indo por água abaixo. É que, até prova em contrário, o governo Samuca decidiu mexer em um dos poucos pontos fracos que causam revolta na categoria: no bolso. E isso passa por aprovar uma suposta minuta de emenda à Lei Municipal 1931 que rege a ajuda financeira concedida aos servidores que cursam alguma faculdade privada.

 

Em pouco tempo, fotos da tal minuta vazaram do Palácio 17 de Julho, viralizaram nas redes sociais, principalmente no WhatsApp e, em questão de segundos, todo o funcionalismo público já estava a par das intenções de Samuca antes mesmo de serem apreciadas pelos próprios vereadores de Volta Redonda, que vão analisar o documento e votar pela sua aprovação ou não.

 

Segundo o texto que vazou, a ajuda financeira deve corresponder a “uma quota mensal de até 40% do salário mínimo vigente ou o valor da parcela mensal efetivamente paga pelo curso, o que for menor”. Detalhe, se não usar todo o valor disponível o servidor terá de devolver, após comprovação dos gastos, o que sobrou. Atualmente os professores recebem 40% do salário em forma de ajuda financeira, independentemente do valor do curso pago e não precisam identificar quanto se gasta exatamente, basta apenas apresentar uma declaração da matrícula correspondente ao curso que faz.

Vale lembrar que não é a primeira vez que um prefeito resolve modificar a lei da ajuda financeira dos servidores. O ex-prefeito Neto, já no final de sua gestão, também o fez, mas em forma de decreto, restringindo o abono apenas àqueles que cursavam faculdades privadas. Ou seja, os funcionários que faziam Cederj, por exemplo, perderam o direito à ajuda, já que não pagavam pelo curso. A medida causou descontentamento, mas, até o momento, o decreto permanece em vigor.

 

Em nota, o Sindicato dos Profissionais da Educação (Sepe) se posicionou contra a proposta de emenda do prefeito, demonstrando seu desacordo. “A direção colegiada do Sepe/VR e seu departamento jurídico estão analisando as medidas políticas e/ou jurídicas a serem tomadas para barrar este retrocesso nos direitos dos profissionais de educação municipais. O departamento jurídico possui ações para manutenção da ajuda àqueles servidores e dependentes cuja instituição de ensino é pública, em decorrência do ataque já efetuado pelo ex-prefeito Neto em 2015/6. Não admitiremos nenhuma investida às garantias historicamente conquistadas pelos servidores em Volta Redonda”.

 

Tão logo soube das intenções de Samuca, a direção colegiada do Sepe convocou os professores para fazerem vigília na Câmara a fim de pressionar os vereadores para que estes não votem com o prefeito pela mudança. Chegou, inclusive, a declarar um ‘cessar fogo’ com o Sindicato do Funcionalismo Público e, embora o presidente do SFPVR, Ataíde de Oliveira, não tenha engrossado o coro, servidores de todas as áreas se mobilizaram.

 

“Estamos atentos a qualquer mudança que pretendam, mas não podemos fazer as coisas de qualquer jeito”, justificou Ataíde, ao ser questionado se aprovava a convocação do Sepe feita aos professores. Ainda de acordo com o presidente do SFPVR, as mudanças propostas por Samuca não são justas. “O que querem é extrapolar a lei. Não acho justo. Precisam arrumar outro critério”, resumiu.

 

Ao ser perguntado sobre o caso, o prefeito Samuca Silva garantiu que nenhum servidor terá seus direitos retirados. “Não há emenda na lei. Isso é um boato gerado por conta de um documento não oficial. A administração municipal deve zelar e organizar esse tema. Nenhum benefício será cortado dos servidores”, afirmou, salientando, porém que vai, sim, regulamentar a ajuda financeira. “É preciso que cada funcionário que receba esse benefício comprove o seu destino. Já identificamos um caso, por exemplo, de um funcionário que faz um curso à distância, no valor de R$ 80,00, e recebe R$ 300 de auxílio. É obrigação do o governo zelar pelos recursos públicos e corrigir essas distorções”, disse.

 

Ainda de acordo com Samuca, a intenção ao propor a regulamentação não é economizar, mas, sim, cuidar do bem público. “O objetivo não é economizar. Nossa intenção é normatizar e organizar o pagamento dos benefícios. Não vejo que estamos tendo resistência. Até porque os servidores que comprovarem o destino dos recursos não irão perder nenhum benefício. O que há são boatos e desconhecimento sobre o tema”, frisou, garantindo ainda que o governo vai analisar caso a caso antes de tomar qualquer decisão. “Como disse, quem comprovar os gastos não terá o benefício cortado. O que queremos é corrigir distorções. Nenhum servidor será prejudicado. A atual gestão é reconhecida pelo diálogo. Mas volto a frisar: nenhum servidor que comprove os gastos terá seus benefícios cortados”, reforçou.

 

Enquanto o destino da ajuda financeira não é decidido, tem funcionário que já está desesperado. “Eu recebo a ajuda financeira em torno de R$ 300. Meu curso de pós-graduação é R$ 150. O que sobra eu pago a passagem para os dias de aula presencial, pago a impressão das apostilas e ainda complemento na conta de internet para as aulas à distância. Não acho justo limitar o valor da ajuda de forma a apenas pagar o curso”, reclamou um professor.

 

Ainda de acordo com o servidor, o mais revoltante é a facilidade do governo em retirar direitos ao passo que não garante nenhum. “Plano de carreira virou um suplício. A prefeitura encontra mil e uma manobras para não disponibilizar o dinheiro. E isso não é tudo. Na Educação, por exemplo, o prefeito não paga o piso salarial aos professores, não garante o tempo de planejamento previsto em lei. Mas quando quer tirar o que é nosso, tal como fez com a cesta básica, faz em dois tempos”, opinou.

 

Nos corredores da Câmara, a impressão que se dá é que os vereadores não pretendem ficar contra o servidor e devem, no mínimo, propor ressalvas. De acordo com Carlinhos Santana, é uma mensagem delicada e precisa ser analisada com cautela. “Quero saber os motivos e os parâmetros para essa mudança que o prefeito pretende fazer. Acho que são direitos adquiridos”, opinou. “Custeio para formação é algo amplo. Servidores chegaram até mim dizendo que usam para pagar passagem, internet e até para se alimentar durante as aulas. Acho justo o funcionário ter que comprovar os gastos para que use o dinheiro da forma correta, mas querer que devolva R$ 50 que for é fazer questão de muito pouco em cima de quem já ganha muito mal”.

 

Além dessa matéria, os vereadores deverão se deparar com outra tão polêmica quanto e não deve demorar. Trata-se do reajuste salarial da equipe de governo. Até o fechamento desta edição, os vereadores, pelo menos os mais articulados politicamente, davam ciência de que o prefeito Samuca Silva enviaria em breve à Casa uma mensagem pedindo autorização para aumentar o salário do secretariado.  

Mulheres no poder: termômetro da democracia

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Em ano eleitoral, nunca é demais relembrar a baixa representatividade das mulheres nas estruturas de poder.

Nossa memória é um laboratório onde se dá a nossa revelia combinações arbitrárias e inesperadas. Guardamos arquivos. Diferente do computador, não acessamos por palavras-chaves, mas, especialmente, por afetos, sentimentos e emoções.
Os leitores e leitoras destas mal traçadas tiveram sua formação inicial, na grande maioria, pelas mãos e olhar de uma mulher. Este texto nasce desta lembrança.
Vale frisar que o desperdício de talento feminino, debilita a economia, empobrece os debates, o abuso das mulheres corrompe a sociedade e sua seletiva marginalização enfraquece o sistema político. A presente desigualdade na representação é ruim para todo o tecido social, sobretudo em cidades de pequeno e médio porte.

Pensemos dois exemplos: por qual razão apenas uma única mulher ocupou o Ministério da Educação ou por outro ângulo, contudo, de semelhante incidência – por que nenhuma mulher assumiu até hoje a presidência da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), em âmbito nacional?

Como ilustração, veja o que ocorre nas Prefeituras de algumas metrópoles, todas a contar do ano de 1900. São Paulo terá seu 53º prefeito em 2020. Apenas duas mulheres.
Rio de Janeiro elegerá o 52º nenhuma mulher, o Pará elegerá o 52º zero de mulheres; o Rio Grande do Norte, 03 mulheres, em 40 escolhas ou indicações.

Mato Grosso, em 26 oportunidades também apenas 03 mulheres e fechando as cinco regiões : no sul, em Porto Alegre, teremos o 33º prefeito – e a presença feminina ainda não foi registrada na prefeitura.

Sabemos que os dias que correm nos cobram estranhar conformidades, desafiar lugares comuns e sobretudo mudar o discurso. Ousar mudar. Em última instância, cada professor é guardião do bem comum, ou deveria ser.
Em uma conhecida passagem do livro dos livros está registrado: Ide e ensinai o Evangelho a toda criatura.

Vejam: o verbo é ensinar. Nasce aí a profissão mais antiga do mundo: o professor. Em nossa sociedade o correto seria dizer a professora, pois em São Paulo, dos 204.166 professores estaduais, 74,5% são mulheres, dados do Governo do Estado de São Paulo, referentes ao ano de 2016.

Se quisermos aprender a resolver determinados problemas, teremos que começar por aprender a pensá-los de outra forma, especialmente na saúde, na educação e na segurança pública. Considero um tipo de violência a falta de mulheres em pontos e postos-chaves do sistema educacional. Vale o mesmo para o sistema financeiro e político.

Sigo na busca permanente de um humanismo sempre mais generoso, certo de que a educação não é outra coisa senão o esforço que humanos fazem, estando ou não perto uns dos outros, para responder a uma mesma pergunta: como nos tornar cada vez mais humanos? Uma representatividade mais equilibrada pode ser um bom caminho. Simples assim!

Ronilson de Souza Luiz, pós-doutor em educação pela PUC-SP ([email protected])

Dia Internacional da Mulher – Uma longínqua busca pela igualdade

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Dia 8 de março é comemorado como o dia Internacional da Mulher. A data lembra 08/03/1857, quando 129 mulheres operárias em uma tecelagem de Nova York, entraram em greve e exigiram melhores condições de trabalho e a redução da jornada de 16 horas diárias para 10. Elas não conseguiram nada com suas reivindicações. Uma guerra, em geral, se vence a longo prazo e não apenas com uma batalha. Principalmente tendo com causa a mudança de uma cultura milenar, onde a mulher era vista “apenas” como uma “máquina” reprodutora da espécie e cuidadora de suas crias.

 

Com a Revolução Industrial, a mulher passa a ter um valor econômico, ou seja, mão de obra barata para as fábricas em expansão. Agora, além de ser reprodutora, cuidar da casa e das crias, era explorada pelo novo sistema econômico. Para se ter uma ideia da força e da perseverança das mulheres pela sua causa, apenas em 1910 em um congresso feminista na Dinamarca o dia 08/03 foi escolhido como o Dia Internacional da Mulher e somente em 1975 a data foi oficializada pela ONU. Neste período, milhares de mulheres pelo mundo, pagaram com suas vidas na luta pela melhoria de condições de trabalho, pela igualdade social, pela adoção de creches, entre outras reivindicações sociais que hoje são leis em muitos países

 

No Brasil, as mulheres também lutaram pelos seus direitos sociais. Apenas em 1932 foi aceito o voto feminino. Apenas em 1962 a mulher casada deixou de ser considerada incapaz pelo Código Civil Brasileiro. Antes disso precisava da autorização expressa do marido para alienar seus próprios bens e exercer determinadas profissões. Em 2006, foi promulgada a lei Maria da Penha que defende a mulher contra a violência doméstica. Mas ainda existe uma enorme desigualdade entre homens e mulheres: a renda média das mulheres é menor que a dos homens, em praticamente todas as atividade econômicas. Elas representam 52% de nossa população, cada vez mais mulheres alcançam graus de graduação e pós-graduação universitária, já são admitidas na enorme maioria das profissões, são empreendedoras e criativas, mas ainda assim, são raras as vezes que atingem os mais altos níveis da administração privada ou pública. A plena igualdade de oportunidades ainda é uma utopia.

 

A sociedade seria muito mais humana, justa e solidária, se o ser humano, homem ou mulher, fosse “empoderado”, de acordo com sua capacidade cognitiva, física, emocional, comportamental e pudesse exercer a atividade que lhe cabe de forma digna e respeitosa com todos os demais e com o planeta onde vivemos. Desde o início até o fim de qualquer atividade, sempre existirá uma pessoa humana. Ela deveria ser a razão final de nosso viver.

Celso Luiz Tracco é economista e escritor, autor do livro Às Margens do Ipiranga – a esperança em sobreviver numa sociedade desigual.

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