segunda-feira, maio 4, 2026
Casa Blog Página 2837

Gregos e Troianos

0

14705746_901153969984668_2322769077679163543_n

Roberto Marinho

O Projeto de Lei 5.335 (milhar da cobra) do vereador Rodrigo Furtado foi aprovado pela Câmara de Volta Redonda. Até aí, nada demais. Só que já nasceu gerando polêmicas e foi parar em Barra Mansa, com direito a nota de repúdio por parte da OAB local. É que pela nova lei, sancionada pelo presidente da Casa, Sidney Dinho, a partir de agora as empresas de prestação de serviços que operam na cidade do aço têm que contratar até 70% dos seus trabalhadores – com direito a uma cota de 15% só para mulheres – entre os voltarredondenses. Ou seja, não há vaga para barramansenses, resendenses etc. Nordestinos, nem pensar.

 

A lei, que não foi promulgada pelo prefeito Samuca Silva (ele a devolveu à Câmara), além de gerar a nota de repúdio da OAB-BM, foi parar na ‘Caminhada pelo turno de 6 horas’, promovida pela Igreja Católica (ver página 15). Coube ao padre Juarez Sampaio se posicionar contra. “Eu espero não ter ouvido direito sobre a aprovação dessa lei. Vai contra a história de Volta Redonda, que foi construída por pessoas de todos os lugares do Brasil”, disse o religioso na manifestação católica contra a CSN.

 

Em entrevista ao aQui, Furtado rebate a fala do padre. “Quando se fala que Volta Redonda foi construída por gente de todos os lugares, é porque a cidade não tinha habitantes. Esses trabalhadores de fora viraram cidadãos voltarredondenses”, pontuou. Tem mais. Como advogado, garante a constitucionalidade da sua lei, questionada por alguns, afirmando que a Câmara não poderia legislar em matérias sobre o direito do trabalho.

 

“A nossa lei não cria artigo de lei da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), ela cria possibilidade para que a empresa que venha atuar em Volta Redonda contrate pessoal da nossa cidade. Isso não fere o principio da livre iniciativa, leis parecidas já funcionam em outros municípios, onde já teve esse tipo de briga (sobre a constitucionalidade, grifo nosso) e prevaleceu a lei do município”, alega.

 

Furtado diz contar com o apoio – mesmo que não explícito – do prefeito Samuca, e ainda divide a bola da constitucionalidade com o chefe do Executivo. “O prefeito teve a oportunidade de vetar a lei, mas ele entendeu o fim a que ela se destina e o alcance social. E se fosse inconstitucional, com certeza ele vetaria. Como relator da Câmara, vejo várias leis vetadas por algum vício de constitucionalidade”, argumenta, garantindo que a lei não discrimina moradores de outras cidades. “A lei coloca dois princípios em rota de colisão: se as pessoas falam que têm a liberdade de contratar, eu coloco a função social do trabalho, os direitos sociais das pessoas, e os interesses econômicos do município”, destaca.

 

Sobre a polêmica com a OAB de Barra Mansa, Furtado diz que não conhece pessoalmente o presidente da entidade – Noé Garcez, que assina a nota de repúdio – e que os possíveis candidatos de Barra Mansa não preencheriam todas as vagas destinadas aos “forasteiros”. “A lei destina 30% das novas contratações para moradores de outras cidades, e Barra Mansa, por exemplo, não preencheria nem 5% dessa cota. O empresário vai preferir sempre contratar o trabalhador que gera menos despesa, trabalha mais perto”, cita, para depois fazer um meio campo, ao mesmo tempo em que dá uma canelada nos empreiteiros. “Volta Redonda está de braços abertos para receber os munícipes qualificados de todos os municípios vizinhos. Essa lei não atinge o trabalhador, mas quem faz canteiro de obras aqui na cidade por três, quatro meses, coloca containers, aluga apartamentos e ainda sai devendo a pensão onde o peão comeu”, crê.   

 

A CSN também entra na conta da lei contra trabalhadores “forasteiros”. De acordo com Furtado, a experiência dele como auditor fiscal da empresa durante três anos permitiu notar uma alta rotatividade de trabalhadores de outros estados nas prestadoras de serviço para a siderúrgica e isso seria um dos fatores que o motivaram a criar a proposta. “São centenas de trabalhadores, e não são de Pinheiral, Piraí ou Barra Mansa, mas de Minas Gerais, Bahia, outros estados, que pegam obras de três, quatro meses. São pedreiros, encanadores, soldadores, cargos que Volta Redonda poderia suprir”, afirma.

 

Segundo Furtado, a prática usada pelas terceirizadas tira direitos sociais dos trabalhadores, o que a nova legislação evitaria. “O único interesse para trazer alguém de fora seria esse, já que o direito trabalhista é territorial, a empresa só pode ser acionada onde está atuando. Por isso, um trabalhador da Bahia que tenha sido lesado em Volta Redonda teria que voltar aqui para abrir o processo, acompanhar as audiências. É inviável”, aponta.

 

Também sobrou para o ex-prefeito Neto e a construção do shopping Park Sul. De acordo com Furtado, em anos anteriores houve um pico de contratações para a obra do novo empreendimento, e as empreiteiras trouxeram muitos trabalhadores de fora – “Se o padre Juarez tivesse prestado atenção, talvez tivesse visto”, espeta – o que na avaliação dele não teria acontecido com a nova lei. “Houve até manifestação dos trabalhadores de Volta Redonda na Câmara pedindo a intervenção do Poder Público, mas a prefeitura se quedou inerte”, alfineta, acrescentando que os trabalhadores temporários utilizam as estruturas da cidade, como a Saúde, por exemplo, mas destinam o salário para suas famílias, em outros estados. “Isso não é justo com a cidade”, alega.

 

E se depender de Furtado, as empresas podem tremer: o vereador afirmou que vai ser implacável na fiscalização do cumprimento da medida. “As empresas que não querem deixar um legado para Volta Redonda vão ter que se enquadrar. Peço aos empresários que vierem para cá que procurem cumprir a lei, porque se não cumprir eu vou atuar para direcionar a fiscalização e infelizmente vai tomar as sanções que a lei prevê”. 

Aqui jaz

0

Paolla Gilson

Todo ano é a mesma coisa. Às vésperas do feriado de 2 de novembro, os cemitérios da maioria das cidades brasileiras passam por um verdadeiro “banho de loja” para receber as famílias na triste data. Em Volta Redonda não é diferente. Ou melhor, é, pois o Cemitério do Retiro vem recebendo tratamento especial já há duas semanas, sem contar que em janeiro passou por um pente-fino, durante operação feita pela prefeitura com cerca de 130 homens da secretaria de Obras. De lá pra cá, poucos problemas surgiram e assim mesmo deverão ser resolvidos até o próximo dia 1º de novembro, véspera do Dia de Finados.

 

A manutenção é importante, claro. Entretanto, é necessário que as autoridades também se preocupem com a contratação de mais trabalhadores para o Cemitério do Retiro, principalmente coveiros, para que não ocorra o problema que, às vezes, acontece: não é possível, por exemplo, realizar dois ou mais enterros ao mesmo tempo porque o cemitério só conta com cinco coveiros de segunda a sexta e apenas três nos finais de semana. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, atualmente são feitos cerca de sete sepultamentos por dia (isso mesmo, por dia). “Quando isso ocorre, enterra quem chegar primeiro. O segundo fica à espera debaixo de sol ou chuva”, contou um ex-funcionário do Palácio 17 de Julho ao enterrar uma prima no início do mês.

 

Outro pequeno problema, além da escassez de coveiros, é que o cemitério do Retiro fica abandonado à própria sorte durante as noites, o que facilita as invasões, vandalismo, furtos e até mesmo desova de corpos assassinados por traficantes da região. De acordo com um servidor da unidade, a recepção do cemitério municipal já foi ‘assaltada’ muitas vezes. “Outro dia mesmo um computador foi levado”, contou, pedindo para que seu nome não fosse revelado. 

 

Uma fonte do aQui garante que os dois problemas citados – falta de coveiros e vigilância à noite – serão resolvidos. O primeiro de forma imediata. “Vamos estudar um meio de remanejar alguns ajudantes de outras áreas”, diz ela, garantindo que a ordem teria sido dada pelo secretário de Saúde, Alfredo Peixoto. “Não existe previsão de fazer concurso público para essa função (coveiros, grifo nosso). A alternativa será paliativa”, frisou.

Abandono

 Apesar de estar sendo feita uma “faxina” no local para o Dia de Finados, é possível ainda se deparar com lixo descartado ao longo do caminho (que inclui desde caixas de brinquedo até eletrodomésticos e mobília), jazigos abertos e  quebrados, o que mostra que nem todos se preocupam com a limpeza do local. “As pessoas são insensíveis. O que leva alguém a trazer um armário velho até o cemitério para jogar no meio do mato?”, desabafa um dos servidores. “Tem até TV velha, inútil, jogada por aí”, completa. “E depois jogam a culpa na prefeitura”, ironiza.

Contrassenso

0

capa123

Pollyanna Xavier 

Nem sempre a interferência da Igreja Católica nas questões que envolvem a CSN e os seus trabalhadores foi positiva. A Marcha pelo Emprego e pela Vida, promovida pela Pastoral Operária na segunda, 16, dia de ‘meio feriado’ na cidade do aço (dia do comerciário), para defender a permanência do turno de seis horas na UPV, é uma prova disto. O ato não reuniu nem 400 pessoas, dentre fiéis das paróquias e pastorais de Volta Redonda, representantes da sociedade, sindicalistas, alguns vereadores e donas de casa. Só não atraiu os trabalhadores da CSN. E a explicação para a ausência dos metalúrgicos é bastante simples: eles querem negociar com a empresa a volta do turno de oito horas. As negociações, inclusive, devem começar nos próximos dias, com a participação do Sindicato, cujo presidente também é católico.   

 

A marcha foi encabeçada pelo bispo Dom Francisco Biasin, que conduziu os manifestantes por uma caminhada que começou em frente à Igreja Santa Cecília, onde está enterrado o corpo de D. Waldyr Calheiros, o bispo vermelho, um líder carismático por natureza. Os fiéis passaram ainda por toda a extensão da Rua 33, até chegar à Praça Juarez Antunes, local onde ergueram uma estátua de D. Waldyr.

 

Coube a D. Biasin falar algumas palavras: “(…) Salvemos o turno de seis horas. A minha alegria hoje é que apesar das diferenças, das dificuldades, apesar dos embates que se criaram nestes últimos anos, conseguimos aqui nesta praça reunir, fazer unidade, no respeito em cada expressão, sobretudo daqueles que defendem a vida, o trabalho, a honra e a dignidade dos operários da CSN”, pontuou.

 

Em conversa com jornalistas, o religioso fez questão de frisar que o ato ali não era político, e que a ideia da ‘Marcha’ era mesmo só defender os trabalhadores da CSN contra possíveis demissões que, dizem os políticos presentes ao ato, poderão surgir caso o turno de oito horas seja implantado na Usina. “A Marcha é apartidária!”, disse, acrescentando que estava ali como pastor dos menos favorecidos. “O que Deus em quem eu acredito olha para cada pessoa não como um número, nem como uma ficha. Mas como uma obra prima de amor e de luta pela vida. Eu não poderia deixar e fazer aquilo que Dom Waldyr sempre sonhou e dizia que na ponta da nossa ação pastoral, deve estar o pobre, o mais pobre dos pobres. Estes são os nossos preferidos”, comungou.

Turno

 Até o fechamento desta edição, ontem, sexta, 20, a CSN e o Sindicato dos Metalúrgicos ainda não tinham iniciado as negociações para a volta do turno de 8 horas na UPV. No dia 11 de outubro, os trabalhadores do turno participaram de uma votação secreta na Praça Juarez Antunes., E sob olhares atentos da estátua de D. Waldyr, os peões aprovaram a abertura de uma negociação com a CSN para discutir a retomada da jornada de 8 horas na UPV. Ao final da apuração dos votos, o Sindicato comunicou o resultado à direção da empresa, por meio de ofício. Desde então, o Sindicato aguarda o chamado da CSN para o início da negociação.

 

Na sexta, 13, à CSN comunicou, formalmente, aos seus trabalhadores, a decisão de suspender as medidas para a implantação do turno fixo de oito horas, que deveria entrar em vigor na segunda, 16 de outubro. A empresa informou que a decisão atende ao pedido feito pelo Sindicato imediatamente ao resultado da votação do dia 11, na Praça Juarez Antunes. Na ocasião, 68,6% dos votantes decidiram ouvir a proposta da CSN como alternativa ao turno fixo.

 

Em entrevista à imprensa, Silvio Campos disse que espera da direção da CSN na reunião marcada para quinta, 26, uma proposta que “preveja uma tabela justa, com a garantia de emprego aos trabalhadores do turno, além do intervalo de 1 hora de refeição, e ainda o pagamento de uma compensação financeira em forma de abono, caso o turno de oito horas seja retomado”. A empresa ainda não se manifestou a respeito. 

Seja bem vindo!
Enviar via WhatsApp