Por Mateus Gusmão
Boa parte dos brasileiros acompanha atentamente o Big Brother Brasil, da TV Globo. Alguns perdem horas só para ver o que rola na casa, e em tempo real. Que se preparem para algo mais interessante. É que Volta Redonda está perto de estrear um verdadeiro BBB da vida real, e com personagens conhecidos. Pode ser até com familiares, como marido, mulher, filhos, todos os voltaredondenses, como o jornalista que escreve esta matéria. É que o Palácio 17 de Julho vai divulgar, através de um simples aplicativo no celular, imagens das câmeras de monitoramento da cidade do aço. Tudo para que a população acompanhe o dia a dia do trânsito local. O caso acabou gerando preocupação.
A aplicação popular da tecnologia está por detalhes, segundo garante o todo- poderoso secretário de Ordem Pública, Luiz Henrique. “Estamos finalizando e em fase de experimento deste aplicativo, onde a população terá, das 6 às 20 horas, acesso às imagens das câmeras dome, que possuem zoom óptico, se movimentam por 360 graus e podem ser controladas de forma remota, por meio de uma central de videomonitoramento; principalmente as instaladas nos grandes centros, para facilitar a mobilidade urbana. Isso vai ajudar a população a se programar melhor na hora de sair de casa”, crê o titular da pasta, queéumcoroneldaPMa serviço do governo Neto.
A pasta que ele comanda – a secretaria de Ordem Pública – e a EPD (Empresa de Processamento de Dados) estão finalizando a instalação das 700 câmeras
de monitoramento, que muitos chamam de ‘espiões tecnológicos’ tipo BBB. A previsão é de que todos comecem a operar na primeira quinzena de março.
O ‘xis’ da questão é que a novidade não caiu bem para boa parte dos voltaredondenses. Muitos questionam se a divulgação das imagens em tempo real não poderia ser, por exem- plo, usada por criminosos. A internauta Amanda Fleming não deixou por menos. “Não seria perigoso isso de expor a rotina de trajeto das pessoas?”, questionou. Robson Oliveira concordou. “Exposição total das pessoas. Fora que agora os meliantes vão conseguir escolher de longe onde tá bom para assaltar, se tem alguma pessoa sozinha no ponto de ônibus à noite, por exemplo”, completou.
Em comentário feito no Instagram da própria prefeitura de Volta Redonda, Sanny Prates levantou outro problema. “Discordo completamente (da divulgação). Os bandidos terão acesso às imagens para planejar assaltos, sequestros, assassinatos. A privacidade dos moradores dos bairros com câmeras será um erro, onde fica o direito do cidadão de bem? Essas imagens devem ficar acessíveis para os órgãos competentes de controle apenas”, justificou. Anderson Bravo concordou. “Em minhas palavras, eu acho que somente o Ciosp, Guarda Municipal e Bombeiros é que teriam que ter acesso às câmeras. Acredito que os meliantes irão amar (ver) onde irão atacar”, completou.
A repercussão, como podemos ver, não foi boa. Outros internautas continuaram fazendo questionamentos à proposta mirabolante de Luiz Henrique, oficial da PM. “Muito bacana a ideia. Porém vai dar a possibilidade das pessoas mal intencionadas saberem onde está mais fácil de assaltar, ver o caminho de determinadas pessoas. Melhor só as autoridades terem acesso”, comentou a internauta Ana Caldeira. Adriano Pires foi além. “Deve ser para a própria população fazer a investigação dos crimes por conta própria, já que essas câmeras não ajudam a solucionar nenhum crime nesta cidade”, completou.
Os questionamentos feitos pelos internautas na rede social da prefeitura de Volta Redonda ficaram sem resposta. E por isso o aQui procurou o Palácio 17 de Julho, através da secretaria de Comunicação, para saber detalhes do projeto. Entre outros, quais câmeras serão disponibilizadas, se toda a população terá acesso e até como evitar o uso das imagens por criminosos. Até o fechamento desta edição, entretanto, não houve resposta oficial.
Cidade monitorada
As câmeras de monitoramento que estão sendo instaladas na cidade do aço fazem parte do projeto ‘Cidade monitorada’, que também utiliza equipamentos fixos e de leitura OCR (que faz leitura de placas), registrando o cotidiano das ruas, praças e acessos da cidade. Essas imagens também alimentarão o Ciosp (Centro Integrado de Operações de Segurança Pública) e as bases integradas de Segurança, na Vila Santa Cecília, Retiro, Aterrado, além das novas que serão inauguradas nos bairros: Jardim Belvedere, Sessenta, Vila Rica, Rio das Flores e Roma.
Ainda de acordo com oPMdaSemop,o objetivo é chegar a instalar mil câmeras, recuperando também as já existentes. “Teremos 70 barreiras eletrônicas que farão a leitura das placas dos veículos. Isso significa que as forças de segurança de Volta Redonda terão acesso a informações do veículo e do proprietário, inscritos no banco nacional de segurança pública”, defende Luiz Henrique.
O próprio prefeito Neto já destacou os últimos investimentos feitos pelo Poder Público na área de segurança. “Investimos no ‘Segurança Presente’, no Proeis, que será expandido para outros bairros; na instalação de um Batalhão de Ações com Cães (BAC), no Roma, que em breve estará em funcionamento. Queremos fazer de Volta Redonda uma cidade referência para outras na segurança pública e estamos trabalhando muito para isto”, disse Neto.
Na teoria
O aQui andou conversando com algumas autoridades da área de segurança na cidade do aço, para ver se alguém teria bons motivos para discordar ou concordar com o BBB de Luiz Henrique. Pedindo anonimato, um deles foi taxativo. “Ideia de jerico”, disparou, dando um exemplo que, na opinião dele, joga por terra o projeto de se abrir o foco das cerca de mil câmeras aos que possuem celular em Volta Redonda e que instalem o aplicativo a ser lançado. “Se qualquer um puder ver a minha rua à noite, e se ela estiver deserta, isso será um atrativo para os bandidos”, teorizou. “Imaginem uma mulher ciumenta acompanhando, pelo aplicativo, as aventuras do marido pelas ruas do bairro. Ele pode não fazer nada de errado, mas terá sua privacidade desrespeitada com ajuda do Poder Público”, lamenta. “E quantas coisas erradas de outras pessoas não serão disponibilizadas?”, indagou.

