terça-feira, abril 14, 2026
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Barrados na porta

Falsos delegados foram presos dentro da sede da prefeitura

Vinicius de Oliveira

Barra Mansa viveu na quarta, 10, um fato bastante inusitado. Dois homens, identificados como Welington Figueiredo Barbosa e Leonardo Deascânio Seabra, foram presos em flagrante por agentes da 90a DP, nas dependências da secretaria de Administração. O delegado Michel Floroschk afirma que eles seriam dois falsários, que fingiam ser delegados federais de uma entidade de São Paulo, conhecida pelo nome fantasia de Confep (Conselho Federal Parlamentar). Pelo Registro de Ocorrência ao qual o aQui teve acesso, uma funcionária do setor de licitações avisou à sua coordenadora que “policiais federais” estariam na recepção, exigindo ver processos específicos da prefeitura de Barra Mansa. Garantiam, inclusive, que haveria irregularidades neles.
O terno preto que trajavam, os distintivos que carregavam, emoldurados de vermelho, muito parecidos com o da Polícia Federal, ostentando o nome pomposo do Confep que diziam representar convenceram as funcionárias da prefeitura de Barra Mansa. E todos foram parar na sala do secretário de Administração, Gabriel Resende. “Eles chegaram portando distintivos, com inscrição de delegado e brasão da República, e solicitaram quatro processos. Nós iniciamos uma conversa e informamos que os dados que eles estavam solicitando estavam disponíveis no Portal da Transparência. Eles insistiram e pediram para fotografar os documentos e nos entregaram um pendrive para que fossem passadas a eles as informações digitalizadas. Todos podem ter acesso às ações que desempenhamos. O Portal da Transparência tem todas as informações, mas em caso de dúvidas sobre qualquer ato nós estamos disponíveis para esclarecer, não temos nada a esconder. Porém a atitude deles nos chamou a atenção”, explicou Gabriel Resende.
Os dois ‘delegados’ quase passaram a perna nos servidores municipais. Não fosse por um único detalhe: erraram por pouco o número de uma lei que trata de licitações no Poder Público. “Passamos a desconfiar quando um dos delegados citou a lei 7666 quando, na verdade, todos sabem que é 8666”, diz o relato no RO da Polícia de Barra Mansa. O deslize, observado pelo procurador-geral do município, advogado César Catapreta, foi a gota d’água para que a Polícia fosse acionada. Só que os misteriosos agentes chegaram a fotografar documentos.
No Registro de Ocorrência consta ainda que os dois falsos delegados federais, além de carregarem uma pistola (que seria um simulacro) no carro sem o lacre laranja de uso obrigatório, alegaram que possuíam tais cargos por indicações políticas e que o Confep teria uma filial em Volta Redonda. Pior, teriam ameaçado denunciar a prefeitura de Barra Mansa pelas irregularidades que encontrassem ao Ministério Público Federal. “Os supostos policiais disseram que estavam ali para fiscalizar e que se encontrassem alguma irregularidade poderiam ‘compor’ dando a entender que mediante pagamento não o fariam. E que, se não houvesse a dita composição, encaminhariam as supostas irregularidades para o Ministério Público Federal e para a Polícia”, contam os denunciantes.
O mais surpreendente na história é que o Confep realmente existe. Tem CNPJ e um site na internet. Detalhe: quase todas as suas certidões, consultadas pelo aQui, estão com prazo vencido. Inclusive, a reportagem do jornal tentou conversar com seus representantes através dos telefones divulgados no site da entidade, mas ninguém atendeu. O tal Conselho Federal Parlamentar, fundado em São Paulo, tem a pretensão de ser uma espécie malfadada de MEP à extrema direita, e conta com a benção de parlamentares do Centrão, como dos deputados estaduais Letícia Aguiar (PL) e Tenente Nascimento (Republicanos) e da deputada Federal Janaína Paschoal (ex-PSL, atual PRTB). Os parlamentares estiveram presentes em uma formatura de ‘delegados’ da Confep ocorrida na Assembleia Legislativa de São Paulo ainda este ano. Quem também já deu as caras entre os ‘delegados’ é o ex-ministro de Infraestrutura e candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Vale mencionar que não é só em Barra Mansa que o Confep tem aparecido para fiscalizar. Segundo o site do conselho, seus ‘delegados’ já visitaram outros municípios, como Campos do Jordão e Cerquilho, ambos em São Paulo. Os dois ‘delegados suspeitos’ que apareceram em Barra Mansa e tentaram engabelar a secretaria de Administração até o fechamento desta edição continuavam presos. E, se depender de Floroschk, ficarão assim por um bom tempo.

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