Mateus Gusmão
Às vésperas das eleições de outubro, o governador Cláudio Castro resolveu fazer média com vários políticos que o cercam. E permitiu, talvez para fortalecer sua campanha, que eles contratassem milhares de pessoas. Sem transparência, é bom que se diga. Os salários, inclusive, seriam pagos na boca do caixa das agências bancárias do Bradesco existentes nos 92 municípios fluminenses. Ou em caixas eletrônicos, para não chamar atenção.
O azar do governo é que o Ministério Público não gostou nadica de nada da estratégia. O portal UOL, que denunciou a trama, também não, e vem batendo doído em Cláudio Castro desde então. Resultado: a contratação dos funcionários, com salários secretos, por parte da Fundação Ceperj (Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos), foi suspensa por decisão da Justiça, conforme o aQui divulgou na noite de quarta, 10, pelas suas redes sociais.
Para quem não se lembra, segundo o MP, mais de R$ 220 milhões em espécie foram sacados em caixas eletrônicos ou nos caixas de agências bancárias do Bradesco dentro do estado, como em Volta Redonda e Barra Mansa, por pessoas contratadas pela Ceperj só em 2022. Para o MP, tantos saques em dinheiro constituem uma “nítida afronta às normas de prevenção à lavagem de dinheiro”.
De acordo com a investigação, a existência de milhares de pessoas – seriam mais de 18 mil – sendo remuneradas mês a mês (algumas desde setembro de 2021), sem qualquer informação que identificasse os beneficiários do esquema e o valor do pagamento que lhes seria devido, suscitou questionamentos acerca da existência de uma ‘folha de pagamento secreta’ com distribuição de milhares de cargos em pleno período pré-eleitoral. Diante da ação movida pelo MP, o Ceperj teve que enviar à Justiça a tal ‘lista secreta’ de beneficiários com os seus respectivos salários.
O aQui teve acesso, com exclusividade, ao documento que confirma os pagamentos feitos no período de janeiro a agosto de 2022. São mais de mil páginas com nomes, agência onde foram feitos os saques, datas e valores. A maioria, inclusive, aparece na lista de janeiro, de fevereiro e assim por diante, até o mês passado, o que levou a reportagem a fazer um filtro pelas agências do Bradesco tanto em Volta Redonda quanto em Barra Mansa para levantar os nomes das pessoas envolvidas, certamente apadrinhadas por políticos da região ou de fora dela.
A lista original, obtida pelo aQui, está disponível a todos os leitores. Para descobrir quem é de Volta Redonda ou Barra Mansa, basta acessar o link: https://jornalaqui.com/lista/. Para facilitar a busca, é necessário acessar o computador e abrir a pesquisa (ctrl + f) e buscar pelas agências 431 (do Bradesco em Volta Redonda) e 434, do mesmo banco em Barra Mansa. Dá trabalho, mas você poderá descobrir os nomes de todos que foram beneficiados pelo esquema de contratação do governo Cláudio Castro.
Alguns nomes
Entre os mais de 300 volta-redondenses que fazem parte da lista dos ‘contratados’ para o Ceperj, o que não representa que compactuam com o esquema eleitoral do governo, muitos são presidentes de Associações de Moradores de Volta Redonda. Um deles é o jovem Alan Cunha, candidato a deputado estadual pelo Republicanos, e que é presidente da Associação de Moradores do Açude. Ele aparece logo no início da lista e recebeu, de janeiro a junho, a importância de R$ 19.132,00. Alexandre Clayton, presidente da Associação de Moradores do São Cristóvão, também aparece na lista e recebeu, em seis parcelas, o total de R$ 15.174,00. Já o presidente da Associação de Moradores da Vila Mury, Charley de Paula, responsável por um dos projetos do ‘Esporte Presente’ em Volta Redonda, recebeu R$ 19.674,00.
A lista mostra ainda que Joice Nicolau, do União Brasil, candidata à Alerj, recebeu R$12.645,00. E há também nomes conhecidos da política volta-redondense, como o de Geraldo Costa Junior, o popular Júnior Granato, ex-vereador, que recebeu R$ 15.174,00. Já o coordenador da Central de Ambulâncias de Volta Redonda, Hilquias Lopes Farias, recebeu quatro parcelas que totalizaram a importância de R$ 12.645,00.
Parentes de políticos também foram nomeados para a Fundação Ceperj. Uma delas é a pastora do Projeto Vida Hosana Santos de Souza Cruz, que recebeu R$ 7.110,00 em três parcelas. Ela é esposa do ex-vereador Laydson Cruz. Daniele de Souza Portes, irmã do vereador Luciano Mineirinho, também aparece na lista, tendo recebido R$ 3.870,00 em duas parcelas.
Como o aQui revelou na edição passada, há em Volta Redonda e Barra Mansa 21 polos do ‘Esporte Presente’ e duas unidades da ‘Casa do Trabalhador’, todos ligados ao Ceperj. Isso fez com que as duas cidades ocupassem lugar de destaque no ranking de valores sacados na boca do caixa por funcionário do Ceperj: R$ 5.157.117,07 em Barra Mansa e R$ 4.113.591,74 na cidade do aço.
Utilização política
O ‘Esporte Presente’ é o programa que mais se expandiu pelo interior durante os últimos meses. E, é claro, passou a ser usado politicamente pelos aliados de Cláudio Castro. “Estamos aqui no bairro São Geraldo, onde está sendo iniciado o projeto ‘Esporte Presente’. É um projeto do governo do Estado, com indicação do deputado Gustavo Tutuca, que visa estimular a prática esportiva de crianças e adolescentes”, disse o vereador Fábio Buchecha, ao gravar um vídeo postado nas redes sociais em fevereiro. Tutuca era, na época, secretário de Turismo de Cláudio Castro.
Já o vereador Hálison Vitorino também usou suas redes sociais para divulgar o ‘Esporte Presente’. Disse que seria o aluno ‘número 1’ das aulas de vôlei que acontecem na Vila Mury. “Que tal cuidar da saúde e participar com a gente?”, postou o parlamentar, agradecendo a iniciação do projeto à publicitária Dani Cunha, candidata a deputada federal pelo UB e filha do ex-deputado Eduardo Cunha. Ambos apoiam a reeleição de Cláudio Castro.
Alan Cunha, que foi nomeado para o Ceperj como mostra a reportagem, também fez propaganda do projeto e do seu aliado. “Estive visitando o núcleo esportivo no Açude 4, como é bom ver as crianças e adolescentes participando das atividades do projeto Esporte Presente. Os nossos agradecimentos ao deputado estadual Charlles Batista por viabilizar este benefício a comunidade”, propagandeou o jovem candidato.
Em junho, o deputado estadual André Lazaroni esteve em Barra Mansa, acompanhado do vereador Pissula, visitando o Ginásio Poliesportivo da Vista Alegre, onde é realizado o ‘Esporte Presente’, com aulas de dança, vôlei, caminhada orientada e funcional. Na época, ao divulgar a informação, a prefeitura de Barra Mansa fez questão de informar que o projeto ‘Esporte Presente’ estava sendo implantado em Barra Mansa por intermédio do deputado estadual Marcelo Cabeleireiro, que teria feito o pedido ao governador Cláudio Castro.
Indicado pelo Ministério Público como o principal beneficiário do ‘Esporte Presente’, o deputado estadual Rodrigo Bacellar – ex-secretário de Governo de Castro – esteve em Volta Redonda no mês passado com os vereadores Luciano Mineirinho e Rodrigo Furtado, além do empresário Mauro Campos. Em release, Bacellar fez questão de dizer que o ‘Esporte Presente’ teria sido idealizado por ele e já era uma realidade na cidade do aço. “O objetivo é criar uma política pública que promova o desenvolvimento das crianças e adolescentes, e forneça convívio social para os adultos e idosos, através de práticas esportivas”, destacou.
Versão do Ceperj
Na quinta, 11, jornais da capital receberam a informação, veiculado pela assessoria do governo do Estado, de que o pagamento dos salários de alguns prestadores de serviço por ordem bancária, que permite a retirada dos valores em espécie, sempre foi realizado pelo governo em casos específicos (conta inativa, com erro, entre outros) com o objetivo de viabilizar a implantação e manutenção das políticas públicas. Tem mais. Garantem que a prática é legal e estaria amparada por resolução do Banco Central. Sobre o pagamento de pessoas contratadas pela Fundação Ceperj para atuar nos programas gerenciados pela instituição, o caso é outro.
De acordo com a subsecretaria de Comunicação, desde novembro de 2021, a Fundação Ceperj estaria acertando com o Bradesco – responsável pelas contas estaduais – para que fosse realizada a alteração na forma de pagamento dos colaboradores da Fundação. Tem mais. Diz que a intenção do governo do Estado era que todos os contratados pela instituição passassem a receber os salários por crédito em conta, mas por problemas com a formatação do arquivo de remessa e o contrato vigente, o banco alegou que, à época, não era adequado que tais mudanças fossem efetivadas.

