Ao mestre, sem carinho

Professores denunciam precarização de trabalho na Ferp

Pollyanna Xavier

A precarização do trabalho docente parece estar ocorrendo no Centro Universitário Geraldo Di Biase – a popular Ferp, ou o UGB. É que um grupo de 25 professores entrou com uma representação no Ministério Público do Trabalho contra a instituição, por supostas irregularidades na adesão à Medida Provisória 1045/2021, que permitiu a redução salarial e a jornada de trabalho enquanto durar a Covid-19. Apoiado pelo Sinpro (Sindicato dos Professores do Sul Fluminense), o grupo denuncia reduções de até 45% dos salários, sem a redução da carga horária. “Estamos trabalhando em dobro”, afirmou um deles, pedindo anonimato.
Ele conta que, ao longo da pandemia, o UGB adotou medidas que levaram à desvalorização do trabalho do professor, com perda salarial. “Os cortes já somam 35%, e a redução só está acontecendo nos salários. Logo, se for aplicada mais essa nova Medida Provisória, passaremos a ganhar 40% do que ganhávamos antes da pandemia”, calculou. “O UGB foi a única a adotar a redução nessa segunda fase do programa. A MP foi publicada num dia e no outro recebemos o ofício comunicando a decisão”, lamentou.
Além da redução dos salários, a instituição teria feito a junção de duas ou mais classes, reunindo até 90 alunos em uma única turma. Como o ensino está remoto desde o início da pandemia, a junção das turmas teria sido a maneira encontrada para justificar uma suposta redução da carga horária dos professores. “Ficamos 4 horas por dia diante das telas do computador e, fora delas, corrigimos 90 provas. Além disso, temos que gravar vídeos de 15 minutos, preparar slides, apostilas e outros itens obrigatórios constantes das diretrizes do plano da Pandemia. Nossa carga horária aumentou muito. Estamos exaustos”, desabafou.
Segundo o professor, o UGB teria reduzido a matriz curricular de alguns cursos com o corte de até 25% das disciplinas que eram ofertadas. Apesar da medida, as mensalidades não teriam sido reduzidas e não há transparência quanto ao número de alunos evadidos ou inadimplentes. “Eles haviam prometido um pagamento de 10 horas no mês de provas, mas não pagaram e não deram qualquer satisfação. Também pararam de pagar a orientação de trabalho de curso. Antes, recebíamos uma hora-aula por mês e por aluno, limitado a seis horas, mas cortaram tudo”, expôs.
A precarização teria atingido ainda a estrutura das aulas. “Passamos a arcar com o custo de energia elétrica, internet, equipamentos. Não tivemos qualquer apoio técnico na fase de transição. Tivemos que nos virar, não só no aprendizado das ferramentas, como também na providência dos equipamentos”, relatou, acrescentando que os profissionais estão desmotivados com a postura do UGB.
Chateado, o professor confessou que muitos continuam lecionando por necessidade financeira e respeito aos alunos. “Estamos desapontados, completamente desmotivados”, desabafou, acrescentando que, além das questões já pontuadas, o UGB tornou público os celulares dos professores, divulgando os números para todos os alunos. “Recebemos mensagem todos os dias da semana, de domingo a domingo, 24 horas por dia. Não temos sossego; em troca, tivemos a redução do nosso salário”, reclamou.
As queixas dos professores estariam tendo apoio de boa parte dos alunos. É que eles não tiveram redução das mensalidades, e quem precisou financiar parcelas em atraso não estaria conseguindo anistia ou redução de juros e multas. “A instituição não parece estar preocupada com os resultados das medidas adotadas. Notas de repúdio estão sendo publicadas pelos diretórios acadêmicos. Os alunos sabem que isso traz prejuízo a todos, sobretudo a eles. Você tem noção do que é perder 25% das disciplinas?”, questionou, explicando que a redução da grade fere o direito dos alunos no âmbito do “Direito Consumerista e Contratual”, cabendo, segundo ele, uma ação judicial contra o UGB.
O professor foi além. Reclamou da falta de informações da entidade. “Não há transparência, não são passadas informações ou números que justifiquem o que eles estão fazendo. É uma imposição e ponto final”, lamentou.
Adesão
Atualmente, 25 professores estão engajados na luta pela não precarização no UGB. O número, no entanto, nem sempre foi esse. “Começamos com oito, e agora somos 25. Fizemos um documento elencando todos os pontos que tornam as condições de trabalho precárias (…). Temos um grupo que se recusou a assinar o acordo de redução e estamos providenciando tudo, colocando nossas cabeças a prêmio. Sabemos que o UGB não aceitará essa resistência e as pessoas estão com medo de perderem o trabalho. Alguns coordenadores estão pressionando para que o acordo seja assinado”, revelou.
Ele garante que, em caso de represálias ao grupo, como afastamento, suspensão ou até demissão, o curso mais afetado será o de Direito. “Somos a maioria e fomos nós que iniciamos essa luta. Mas contamos com colegas de outros cursos também”, disse. “Estamos falando de profissionais com 5, 10, e alguns com até mais de 20 anos de profissão. É preciso respeito!”, concluiu.
O aQui entrou em contato com o UGB para que a instituição comentasse a questão e falasse sobre as irregularidades apontadas pelos professores. Por e-mail, César Pinto, gestor de marketing do UBG disse que “o entendimento é que este assunto é da esfera trabalhista e será discutido com o Sindicato dos Professores”, resumiu.

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