Antes eu…

Grupos não prioritários recorrem a políticos para furar a fila da vacinação e atrasam plano de imunização

Mateus Gusmão

O velho ditado já diz: ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’. E o dito popular, muito antigo, está mais atual do que nunca em Volta Redonda e na maioria das cidades do Brasil. Isso porque políticos e grupos organizados buscam cada vez mais achar caminhos para encaixar as pessoas na fila prioritária de vacinação contra a Covid-10. E enquanto o Ministério da Saúde e a secretaria Estadual de Saúde tentam uniformizar as imunizações, esses grupos tentam furar as filas.
Com a vacinação ainda patinando por falta de doses, em especial da CoronaVac, em Volta Redonda, onde 80 mil doses já teriam sido aplicadas, grupos tentam espaços para conseguir a imunização. É o caso, por exemplo, dos conselheiros tutelares da cidade. Em visita ao vereador Buchecha, eles fizeram a solicitação para conseguirem ser imunizados. Resultado: o parlamentar fez um requerimento, aprovado pelos demais colegas, pedindo que a reivindicação fosse acatada pelo prefeito Neto.
“Me foi pedido isso e estou fazendo o requerimento. Sabemos da falta de doses, mas são apenas 10 conselheiros”, disse Buchecha, justificando o pedido. “Os conselheiros não pararam durante a pandemia e, muitas vezes, precisam visitar até hospitais para atender denúncias que chegam ao conselho”, acrescentou. Até o momento, ele não foi atendido pelo Palácio 17 de Julho.
Outro grupo que aguarda vacinação é o dos profissionais da educação. O vereador Rodrigo Furtado (PSC) bem que tentou dar um empurrãozinho, apresentando um requerimento ao prefeito Neto. Não foi atendido. “Nós queremos vacinar os professores, mas hoje não temos vacina. Está faltando vacina”, disse Neto em entrevista ao programa Dário de Paula.
Quem conseguiu que seu pedido fosse atendido foi o vereador Paulinho AP, marinheiro de primeira viagem. O jovem fez uma justa solicitação, através de Projeto de Lei, para que fossem vacinados em regime prioritário pessoas com síndrome de down, autistas ou com alguma deficiência intelectual. E foi atendido por Neto.
Com cada cidade podendo decidir quais grupos irá vacinar e quais seriam prioritários, há uma dissonância entre diversos municípios. Em Volta Redonda, por determinação da secretária de Saúde, Conceição Souza, diversos segmentos foram incluídos no plano municipal de imunização. Entre eles, profissionais da Saúde que não são da linha de frente; setores administrativos de unidades de saúde; recepcionistas de consultórios médicos; veterinários; funcionários de farmácia (inclusive do setor administrativo) e profissionais de educação física. Detalhe: todos de qualquer idade.
Além disso, fugindo das prioridades do Plano Nacional de Imunização, em Volta Redonda durante mais de um mês não foi cobrado comprovante de residência. Fato que gerou denúncias de que um ônibus, com mais de 30 profissionais de educação física de Angra dos Reis, teria vindo à cidade do aço para que a turma da praia fosse imunizada. O prefeito Neto pediu desculpas. “Vemos pessoas de outras cidades vindo para Volta Redonda. Isso tudo está sendo revisto”, disparou Neto, via Facebook, quando soube do ocorrido. Após a postagem, Conceição mandou a secretaria de Saúde passar a cobrar a apresentação do comprovante de residência de quem procurasse os postos de vacinação da cidade do aço.
Não é só em Volta Redonda que grupos não prioritários tentam furar filas. Na última semana, o tesoureiro do Conselho Federal de Farmácia (CFF), Samuel Meira, e os integrantes do Grupo de Trabalho pela Imunização dos Farmacêuticos, estiveram no Ministério da Saúde para tratar da dificuldade na imunização da categoria contra a Covid-19. Os conselheiros se reuniram com o secretário de Vigilância em Saúde, o farmacêutico Arnaldo Correia Medeiros, na sede do órgão, em Brasília, e cobraram soluções.
Na Assembleia Legislativa do Rio, deputados também buscam ampliar o grupo para vacinação. A Lei 9.040/20, por exemplo, concede prioridade para trabalhadores da Saúde, Segurança Pública, Assistência Social, Educação, indígenas e quilombolas, pacientes imunodeprimidos, trabalhadores do setor alimentício e da agricultura, funcionários de farmácias e de petshops, pessoas em privação de liberdade e exercentes de atividades religiosas. Agora, pais, mães e tutores de pessoas com deficiências intelectuais poderão ser incluídos entre as prioridades de vacinação contra Covid-19. É o que determina a Lei 9.264/21, aprovada na Alerj e sancionada pelo governador Cláudio Castro, e publicada no Diário Oficial de segunda, 3.
O atual Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse em entrevista coletiva que a inclusão de grupos não prioritários atrasa o Plano Nacional de Imunização. “Se nós respeitássemos o Programa Nacional de Imunizações conforme pactuado, ele seria melhor”, disse, ao citar o ritmo de vacinação. “Ocorre que, às vezes, muda-se a orientação nos estados e municípios para incluir um grupo ou outro, e isso termina por alterar a harmonia do nosso programa e atrapalha o processo de vacinação. Então é até um apelo que eu faço. Nós sabemos que, no afã de contribuir com a vacinação, às vezes se pressiona para botar um grupo prioritário ou outro. Todos têm razão em querer ter a vacinação o mais rápido possível, mas, às vezes, isso atrapalha o nosso PNI”, afirmou.
DP exige ordem de vacinação
Na semana passada, a Defensoria Pública do Estado enviou ofício às 92 prefeituras do estado do Rio recomendando que seja cumprida a ordem prioritária da vacinação contra a Covid-19. Isso, seguindo uma decisão do Supremo Tribunal Federal. A decisão do ministro Ricardo Lewandowski na segunda, 3, visou suspender a determinação da Presidência do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) que considerou válido decreto estadual que autorizou a vacinação de todos os profissionais de segurança, salvamento, Forças Armadas e educação, em desacordo com o Plano Nacional de Imunização.
Assinado pela Coordenadoria de Saúde de Tutela Coletiva, o documento solicita às prefeituras a suspensão imediata da imunização local das pessoas que não pertencem aos grupos prioritários a fim de priorizar – diante do cenário de escassez de vacinas, inclusive com a suspensão da aplicação da segunda dose – os grupos mais vulneráveis ao vírus. São eles: idosos, gestantes, puérperas e pessoas com comorbidades e deficiência.
No ofício, a Coordenadoria de Saúde de Tutela Coletiva da Defensoria Pública também pede às prefeituras que informem, em prazo de até 48 horas, o percentual de cobertura de vacinação local dos grupos prioritários que já deveriam ter sido integralmente vacinados. São eles: pessoas com mais de 60 anos e deficiência institucionalizada, trabalhadores de saúde, povos indígenas, pessoas com mais de 69 anos, povos e comunidades tradicionais quilombolas e ribeirinhos.
No ofício, a Defensoria Pública esclarece que os profissionais de segurança, salvamento e forças armadas são prioritários, no entanto, o Ministério da Saúde só permitiu a antecipação da imunização daqueles que estão trabalhando nas linhas de frente das ações de combate à pandemia. Quanto aos profissionais de educação, também essenciais, eles devem ser vacinados após idosos, pessoas com comorbidades e deficiência e gestantes/puérperas.

Fazendo água

Na noite de terça, 11, mais um vereador tentou mudar a ordem da vacinação – que está desorganizada desde que foi iniciada. Foi o petista Walmir Vítor, que apresentou requerimento para incluir os funcionários do Saae-VR no grupo para a vacinação da Covid-19. Segundo ele, os funcionários da autarquia que trabalham na manutenção das redes de água e esgoto, construção de elevatórias, estação de tratamento e limpeza de redes e caixas de esgoto externo merecem ser vacinados com prioridade.
No requerimento ao prefeito Neto, Walmir Vítor (na foto) se justificou dizendo que “esses profissionais estão expostos a contaminação diariamente”. Para quem não sabe, o parlamentar já buscou incluir os profissionais da educação no grupo prioritário da vacinação, mesmo sem o retorno das aulas presenciais na cidade do aço. Os dois pedidos, entretanto, ainda não foram aceitos pelo prefeito Neto e nem pela secretaria de Saúde.
No pedido para acrescentar os profissionais de educação, Walmir diz que os funcionários da rede municipal, estadual e privada deveriam ser incluídos no grupo prioritário em caráter de urgência. “Nosso objetivo é colaborar para promover a proteção dos profissionais de educação, professores e servidores que estão em contato com as crianças da rede básica de ensino, que por sua vez têm as famílias para serem preservadas”, disse, esquecendo-se que, por enquanto, as aulas presenciais em Volta Redonda só estão liberadas para as escolas da rede privada.
Dependendo de uma série de fatores, como o aQui mostrou na edição passada, as aulas nas escolas da rede municipal poderão começar em agosto. “Va depender da Covid-19”, anunciou Tetê Gonçalves, ao falar do tema.

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