Agravou

MP pressiona municípios, ameaça prender secretários de saúde, e região entra na fase roxa.

A estatística é cruel. Volta Redonda já registrou mais de 23 mil casos de Covid desde o início da pandemia. É como se a população inteira de cidades da região – Quatis, Porto Real, Rio Claro ou Rio das Flores – fosse infectada. O número de óbitos é ainda mais preocupante: até a última quarta, 6 de abril, 603 pessoas morreram vítimas do novo Coronavírus. A estatística cartorária aponta um número de mortes quase duas vezes maior – algo em torno de 1.115. Para as autoridades sanitárias, mais difícil do que enfrentar a doença é conscientizar a população quanto à gravidade do problema.
Desde o final de março – considerado o mês mais letal da pandemia no Brasil –, o Ministério Público do Estado do Rio tem intensificado os pedidos de informação aos municípios quanto às medidas de enfrentamento da doença. Ao que tudo indica, esse arrocho é resultado do mapa de risco divulgado pela secretaria de Estado de Saúde (SES), no dia 1 de abril, informando a situação epidemiológica das 92 cidades fluminense. Segundo o aQui apurou, muitos desses ofícios encaminhados pelo Ministério Público aos municípios dão prazos de até 48 horas para serem respondidos, sob pena de prisão dos titulares das secretarias de Saúde. Perguntas como número de leitos, idade dos vacinados, transparência nas ações e até distribuição de EPIs para profissionais de saúde são feitas nestes documentos.
Além dos ofícios, o Ministério Público também tem enviado representantes para participarem das reuniões realizadas pelos gabinetes de crise dos municípios. Decisões sobre lockdown, fechamento de comércio, funcionamento de serviços essenciais, dentre outras, têm sido feitas diante da presença de promotores do MP. “Nosso trabalho tem sido pensar e executar ações para o enfrentamento do coronavírus e, em meio aos trabalhos, temos que parar quase sempre para responder ao Ministério Público. São vários os questionamentos, um após outro”, reclamou uma fonte ouvida pelo jornal, que trabalha na secretaria de Saúde de Volta Redonda.
Segundo a fonte, no início de abril, a SES divulgou nota técnica atualizada e o mapa de risco da Covid por município. No documento, foram observadas 27 cidades classificadas com risco ‘muito alto’, ou fase roxa, no grau de agravamento da pandemia. Para distinguir os indicadores alto e muito alto, a SES fez uma contagem de pontos em números absolutos, levando em consideração a taxa de ocupação de leitos e o número de óbitos. O resultado é alarmante: Volta Redonda registrou 31 pontos, o que a classifica como de risco muito alto. Na região, apenas Pinheiral está à frente, com 32 pontos.
Para a fonte ouvida pelo jornal, o ranking não é tão difícil de ser compreendido. “As cidades de pequeno porte são mais impactadas nos indicadores do Estado por pequenas diferenças em números absolutos. Um único óbito pode indicar um aumento de 100%, resultando numa pontuação alta. Isto explica por que Pinheiral, que é uma cidade com uma população bem menor do que a de Volta Redonda, aparece na frente no mapa de risco da SES”, explicou. A fonte disse ainda que as taxas de ocupação de leitos utilizadas no mapa referem-se às regionais e consideram a regulação única, implantada no Estado desde a primeira semana de janeiro.
Atrás de Volta Redonda aparecem as cidades classificadas como risco alto, dentre elas Barra do Piraí (30 pontos), Barra Mansa (29 pontos), Itatiaia e Porto Real (26 pontos), Piraí (25 pontos), Quatis e Rio Claro (24 pontos). Em última posição do estado, pasmem, está Resende, com apenas 20 pontos. “Essa pontuação é calculada com base no número de casos confirmados, número de leitos, óbitos e capacidade de resposta dos municípios diante da pandemia”, explicou a fonte.
Hospital Regional
A classificação “alto risco” atribuída a Volta Redonda pode ter sido impactada pela ausência de oferta de vagas no Hospital Regional. Referência no atendimento a pacientes graves da Covid, o Regional está com sua capacidade instalada esgotada. A taxa de ocupação de leitos no final de março era de 100% e vem se mantendo neste percentual. Municípios pequenos, com pouco ou nenhum leito habilitado para Covid, estão encontrando dificuldades para transferir pacientes para o Regional. Segundo uma informação exclusiva repassada ao aQui por uma fonte, o tempo de resposta do Hospital Regional para regulação de pacientes seria de cinco dias. “Em situações graves, o paciente pode falecer pouco tempo depois de ter sido admitido no Regional”, contou uma fonte.
O que ainda não se sabe é se essa lotação do Hospital Regional é devido à implantação da Central Única de Regulação, que passou a atender todo o estado do Rio – inclusive transferindo pacientes de outras regiões do estado para o Regional –, ou se é por uma suposta redução de leitos de UTI e clínica médica dentro da unidade. “Não sabemos o que está acontecendo. O que temos hoje é um hospital fechado para regulação, porque está lotado e não tem vaga. Quando pedimos um leito, temos de esperar um tempo, que pode ser de até cinco dias. Quando surge a vaga, ou é porque um paciente morreu ou porque recebeu alta. Infelizmente, a primeira opção é a mais provável”, revelou a fonte.
O problema, entretanto, não é só no Regional. Segundo o painel indicador da SES, a região do Médio Paraíba – que compreende 12 municípios, incluindo Volta Redonda e Barra Mansa – apresenta uma taxa de ocupação de leitos de UTI acima de 80%. Em relação à enfermaria, a taxa de ocupação mostra um esgotamento acima de 70%, com leitos improvisados nas chamadas salas vermelha e até em corredores.
Ainda sobre o Hospital Regional, um levantamento feito pelo aQui na Funerária Municipal mostra que Março foi o mês com mais mortes de pacientes de Volta Redonda na unidade. Do dia 1° até 31, foram registrados 92 óbitos. Abril segue o mesmo ritmo e pode superar Março, já que na primeira semana – do dia 1° ao dia 7 – já foram registrados 29 óbitos.
Outra informação preocupante é que as equipes de saúde não estão conseguindo manter o mesmo protocolo de remédios do início da pandemia, especialmente para pacientes internados. Médicos ouvidos pela reportagem do aQui divergem quanto ao grau de letalidade da nova variante que, inclusive, já está circulando na região. Para alguns profissionais, ela é mais rápida, mais grave e mais letal. Outros acreditam que a nova cepa difere da primeira apenas na transmissibilidade e no fato de adoecer os mais jovens. Numa coisa, eles concordam: que independentemente das características da nova variante, a dificuldade está em repetir o óbvio e convencer a população da gravidade do problema. Essa é a parte mais difícil da pandemia.

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