A voz dos incautos

O prefeito Rodrigo Drable, um grande usuário das redes sociais, sentiu na pele os efeitos da democratização da informação. Em um desabafo pelo Facebook, reclamou de ter sido acionado por um internauta – já de madrugada – denunciando que o frasco de álcool em gel da UPA 24 horas, no Centro, estaria vazio. “A gente fica de olho o tempo todo, até durante o pipi da madrugada! Mandaram mensagem pra mim reclamando que estava sem álcool nos dispensers da UPA 24 horas. Imediatamente a equipe fez a conferência! Boa noite a todos!”, escreveu, postando ainda um vídeo onde funcionários da UPA demonstravam ao vivo que o aparelho estava com álcool.
Muitos dos seguidores de Drable acharam ousadia da parte do internauta que fez a denúncia, por não ter respeitado nem a hora do sono do prefeito da cidade. “Caraca, por que não reclamaram então com os funcionários da UPA? Até pra isso tem que mandar mensagem pro prefeito?”, indagou Flávio Almeida, que foi respondido por Drable: “O que mais tem é gente querendo aparecer usando de internet. Outro dia eu li uma reflexão: “Você não deveria seguir pessoas que têm opinião sobre tudo na internet, se você jamais lhe daria atenção em qualquer outro ambiente”, pontuou.
Outros internautas, entretanto, desconfiaram da boa vontade dos funcionários da UPA e colocaram em dúvida o vídeo do dispenser com álcool. Foi o caso de Cláudia Pereira. “Que bom que colocaram álcool gel depois da reclamação. Valeu a pena reclamar. Juntos vamos ajudar a todos se prevenir contra esse vírus”, pontuou a moça, seguida Celina Felipe: “Devem ter colocado na hora que a pessoa reclamou. Em cima tem mais comentários de pessoas que foram lá….e não tinha…por isso que ando sempre com o meu…porque tá tudo se afrouxando ..entrava no comércio tinha medidor de temperatura.. agora mal um álcool…tem q colocar terror só assim o povo se conscientiza”, escreveu.
Coube ao próprio prefeito responder os comentários acima. De acordo com Drable, até as filmagens das câmeras da UPA seriam verificadas para constatar se tinha mesmo ou não álcool. “Não colocaram. Apenas conferiram. Mas eu pedi pra ver as filmagens… assim amanhã eu confiro! Boa noite”, disse o prefeito, que ainda não voltou ao assunto nas redes sociais. Vale citar, no entanto, que até o fechamento desta reportagem, a postagem do prefeito contava com 430 curtidas, 57 comentários e 11 compartilhamentos. Tantas reações levaram o jornal a questionar se essa abertura sem limites para a população realmente fortalece os laços que mantêm a democracia funcionando ou se seriam prejudiciais.
Quem também procurou entender as consequências desse fenômeno foi Juliana Lúcia Escobar, mestranda em Comunicação pela Uerj, Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). “Tendo em vista o conceito de democracia apresentado por Noberto Bobbio em sua obra ‘O Futuro da Democracia – uma defesa das regras do jogo’, várias outras questões se colocam: se a Internet contribui para a democratização da informação, como o faz? Que mecanismos possui que permitem esta democratização? Tais mecanismos de fato vêm sendo utilizados? De forma adequada? E – a pergunta crucial, uma vez que democratizar significa dar acesso, numa situação ideal, a todos – quem está tendo acesso a tais mecanismos, quem de fato os está utilizando e para que fins?”, indaga a estudiosa em seu artigo ‘A Internet e a Democratização da Informação – proposta para um estudo de caso’.
Quem também aborda o assunto é o pesquisador e jornalista inglês Jamie Bartlett. Em entrevista à revista Exame, em 2019, ele revela algumas respostas aos questionamentos de Juliana. Alega que o surgimento da internet, e depois das redes sociais, veio com a expectativa de uma maior democratização da informação e do debate público. Contudo, ao longo do tempo, a ideia desapareceu. “A primeira coisa que precisamos entender é por que fomos tão ingênuos no início. Havia uma ampla visão de que o simples fato de tornar a informação mais disponível e permitir que todos pudessem criar e compartilhar informação transformaria o nosso ambiente em mais informado, politizado e racional. As pessoas assumiram que a internet e as redes sociais seriam extremamente livres e que não haveria controle sobre as informações que estariam ali. Ninguém pensou nas consequências”, lamentou.
É importante dizer que não é apenas o meio político que está às voltas com enxurradas de opiniões e manifestações exageradas. Qualquer indivíduo que tenha um perfil nas redes sociais corre o risco de ser atacado, inclusive em sua dignidade. Um caso emblemático aconteceu com Lucas Santos, 16, filho da cantora Walkyria Santos. Ele foi encontrado morto no último dia 3, em sua casa. A mãe, devastada, disse nas redes sociais que o rapaz se suicidou após receber ataques homofóbicos por conta de um vídeo publicado por ele no Tik Tok, onde simulava dar um beijo em outro menino. Mesmo insistindo que não era gay e que o vídeo era apenas uma brincadeira, Lucas foi aterrorizado pelos chamados ‘haters’ (odiadores, em tradução livre). “A internet está doente”, resumiu Walkyra.
Quem concorda com ela é o PhD, neurocientista, psicanalista e biólogo Fabiano de Abreu, que, inclusive, já havia previsto desde 2018 que casos do tipo aconteceriam inevitavelmente. “Naquela época, publiquei um artigo científico que detalha o funcionamento do cérebro e como a internet afeta a região da inteligência, da lógica e coerência. Da região que orquestra todas as demais regiões, que alerta às consequências e que controla a emoção. Em 2019, eu já havia avisado a minha filha e demais crianças sobre o Tik Tok e que ele é mais perigoso que o Instagram”, ressaltou em artigo enviado ao aQui.
Segundo Fabiano, “o que acontece no cérebro é essa intercepção, uma falta de controle emocional que desencadeia disfunções que acarretam atitudes impulsivas”. E a situação pode piorar ainda mais, revela. “A rede social vai matar mais pessoas. Empresas como Facebook e Tik Tok sabem disso e continuam investindo em neurociência inadequadamente, para que as pessoas libertem cada vez mais dopamina, que é viciante, segurando assim o usuário”, afirmou.
Jamie Bartlett, na mesma entrevista à Exame, também fez considerações sobre violência em ambiente virtual. De acordo com o pesquisador, extremistas são os que mais abusam das liberdades oferecidas pelas redes sociais. “Na maioria das novas tecnologias, são as pessoas mais radicais, marginais e até criminosos que primeiro aprendem suas possibilidades. Eles têm essa vantagem, pois, na maioria das vezes, os mais autoritários se consideram excluídos, então dedicam boa parte de sua vida a novas técnicas e tecnologias. O que eu descobri foi que, se você observar grupos de extrema direita, e até alguns grupos radicais de esquerda, na maioria das democracias, são eles os primeiros usuários de novas tecnologias. Neonazistas, por exemplo, encontraram maneiras de usar as redes sociais para espalhar suas mensagens, porque eles são determinados e não tinham outra forma de fazer isso. Se você os tira da mídia tradicional, é natural que eles procurem outros meios”, apontou.
“Adicione a isso o fato de que, em troca da gratuidade das redes sociais, nós damos a elas [as empresas de tecnologia] nossos dados. Assim elas tornam essas plataformas ambientes viciantes, para que fiquemos mais tempo lá, fornecendo ainda mais dados. E nossa tendência é clicar naquilo que for mais extremo, radical, inacreditável, pessoal. Com isso, todos nós nos tornamos mais radicais – não exatamente extremistas, mas somos exponencialmente expostos a conteúdos radicais e apelativos. Não temos a intenção de falar dessas temáticas, mas elas nos são apresentadas. Assim, quando entramos nessas plataformas, gritamos uns com os outros, discutimos sobre coisas pequenas, discordamos sem ao menos escutar o outro lado. Pulamos de um assunto para outro e somos apresentados a mais e mais conteúdos apelativos e sensacionalistas para manter nosso vício nas redes. E o resultado é que nos tornamos mais extremos”, completou Jamie.

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