Drable diz que Judiciário erra ao liberar homens ‘acima de qualquer suspeita’

Rodrigo Drable entende que Judiciário erra ao liberar homens ‘acima de qualquer suspeita’

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“Não podemos confundir mocinho com bandido”

A sentença acima não foi feita por nenhuma autoridade da área de segurança fluminense. Foi feita por quem, nos últimos oito anos, esteve pessoalmente envolvido com o dia a dia da população de Barra Mansa, sendo responsável, por tabela, pela atuação das forças policiais no município – leia-se Policia Militar – que até hoje não tem um batalhão da PM para chamar de seu. Depende, é claro, da atuação do Batalhão do Aço, localizado em Volta Redonda. Trata-se do ex-prefeito Rodrigo Drable, atual subsecretário estadual de Articulação Institucional, que trabalha em uma sala bem ao lado do governador Cláudio Castro.
Se Drable já expos suas considerações a Castro, não se sabe. Mas, o ex-prefeito não as esconde de ninguém. Foi com a sentença acima que Drable encerrou uma longa entrevista concedida na manhã de segunda, 25, ao programa ‘Bom Dia Cidade’, da Rádio Cidade do Aço, comandada por Sérgio Mama, Marise Vieira e Rafael Moura.
“Alguns episódios ocorridos em Barra Mansa ganharam repercussão nacional. Um deles foi a morte do policial Felipe Santos Amaral, 32 anos, durante uma operação; e agora tivemos um caso de sequestro mesmo, com momentos de terror, na família do Flávio Bolsonaro em Resende. Juntamos esses dois fatos que ganharam repercussão nacional para falarmos de Segurança Pública”, iniciou Rafael Moura, um dos repórteres.

“São dois casos correlatos, mas que não tem uma ligação direta, né?”, retrucou o ex-prefeito. “Em Barra Mansa o episódio foi entre um bandido conhecido, chamado Oziel, que conseguiu a famosa “saidinha” da prisão, voltou às ruas, reassumiu a operação do tráfico na cidade e isso é algo que já sabíamos que aconteceria. Bandido condenado, com uma ficha corrida imensa, e a justiça o solta. Ele volta as ruas, reorganiza o seu trabalho criminoso entre aCotiara e a Vila Independência e aí houve um confronto de facções pela retomada de território”, continuou Drable, responsabilizando, claramente, o sistema judiciário. “A PM atuou e naquele confronto tivemos a perda do Amaral”, lamentou.

Rodrigo não deixou por menos. “Veja que existe uma responsabilidade nisso. É daquele que colocou o Oziel de novo nas ruas. A polícia prende e alguém solta, e a nossa pergunta é: a vida desse policial ou nossa vida é menos importante do que os direitos desse bandido? Todo mundo sabia que isso ia acontecer. Não tem que ser um gênio da lâmpada para prever o futuro. Isso ia acontecer”, desabafou. “A Polícia pode estar estruturada, com novas viaturas, pode estar com novos armamentos, mas se não houver da justiça um trabalho para manter preso aquele homem que a Polícia Militar tirou das ruas, esse trabalho se torna quase que inócuo. E aí temos perdas como tivemos a do Amaral”, voltou a lamentar.

Nesse ponto da entrevista a Mama, Marise e Rafael, Drable aproveitou para defender o governo do Estado. “As pessoas criticam o governo do Estado dizendo que ele não está fazendo nada. Isso não é verdade. O governo está fazendo sua parte sim. Mas aí você enfrenta uma DPF(Departamento de Policia Federal) que impede os policiais de invadirem comunidades para fazer a prisão de bandidos. Tinha roubo de carga na Dutra, na Avenida Brasil e a polícia não podia entrar na Cidade de Deus, não podia entrar nas favelas próximas ao local do crime pois a DPF impedia”, ponderou.

Rodrigo Drable foi além. “Temos que entender que existe hoje no Brasil um descompasso entre a ação da PM e uma interpretação do judiciário na esfera criminal que está prejudicando muito o trabalho da polícia. Não adianta nós responsabilizarmos aqueles que trabalham”, insistiu na sua visão de que o Poder Judiciário não tem colaborado com as forças de Segurança.

“Cadê o movimento dos direitos humanos do policial que morreu?”

Não satisfeito, e bem ao seu estilo de falar o que que pensa, Drable passou a comentar um assunto que mexe com aqueles que usam a polêmica questão dos direitos humanos dos bandidos. “É importante para refletirmos”, avisou. “Muita gente critica a polícia e defende os direitos humanos do bandido e eu pergunto: cadê o movimento dos direitos humanos do policial que morreu ao enfrentar o bandido e defender a nossa vida, a sociedade? Cadê esse movimento? Essa ‘mimização’, esses ‘mimizentos’ que só defendem bandidos deviam fazer uma reflexão, pois, em algum momento, eles próprios vão ser vítimas desses bandidos”, pontuou, completando logo a seguir afirmando que não se sente seguro.

‘Temos que defender a polícia’

“Temos que fazer uma reflexão profunda de valor. Estamos todos expostos. Eu vou ao Rio todos os dias, eu trabalho em Barra Mansa, no Rio, e pego a Dutra, Avenida Brasil todos os dias (apara ir trabalhar) e eu me sinto exposto todos os dias”, desabafou, aproveitando para defender os agentes de segurança. “Como é que tem gente que não respeita esse homem (policial) que se expõe? Que tem filhos, que tem pai, mãe, esposa, como nós?  Esse homem que corre o risco de sair de casa e não voltar”, pontuou.

O ex-prefeito de Barra Mansa, atualmente no governo do Estado, é realista ao falar da Policia Militar.  “Nós podemos ser vítimas eventuais de uma atividade criminosa, esses caras (PMs) todo dia botam a cara na rua, saem diariamente para nos defender e tem gente que só crítica”, dispara. “Tem policial com conduta equivocada? Tem, mas isso tem em todo seguimento na vida, só que nesses outros ninguém se expõem para defender a nossa vida. Acho que essa reflexão tem que ser feita. Temos que valorizar a polícia, o policial militar, principalmente, que está lá botando a cara para nos defender”, argumentou.

“Aí tem uma provocação política”

Bolsonaro
Depois do desabafo, Rodrigo Drable foi questionado pelos repórteres do Bom Dia Cidade, a respeito do caso policial ocorrido em Resende, envolvendo a ex-mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro.  “Foi um pouco diferente”, afirmou. “Em Resende vai ter uma investigação para aprofundar isso, mas parece que tem uma provocação política”, resumiu. “São dois idosos, pais da Rogéria Bolsonaro, ex-esposa do Jair Bolsonaro, presidente da República, pais, avós do Flávio Bolsonaro, senador da República, do Eduardo, do Carlos. Aí tem uma provocação política”, avaliou. ‘E qual seria a motivação?’, indagou Sérgio Mama, um dos repórteres.
“Os bandidos disseram para os idosos que estavam ali sabendo que eles eram da família do Bolsonaro; deixaram isso claro. Não foi uma eventualidade. Ali teve uma afronta política. Então isso vai gerar uma investigação”, comentou Drable, que passou a falar do governo Cláudio Castro.

“O Governo do Estado está fazendo um investimento aqui na Região, por todo o Estado. Aqui na Região vai dar uma melhorada boa, principalmente, na mobilização doefetivo”, disse, revelando que teria uma reunião com o Coronel Menezes, comandante da PM, para agilizar os procedimentos de instalação de um Batalhão da Polícia Militar em Barra Mansa. “Vamos deixar de ser dependente do 28° (Batalhão do Aço) e teremos uma companhia independente com efetivo próprio de gestão própria”, anunciou. “O 28° poderá ter uma ação mais contundente em Volta Redonda, Pinheiral e Rio Claro enquanto que o (batalhão) de Barra Mansa, com efetivo próprio, poderáfocar pontualmente nas suas próprias necessidades. Inclusive do ponto de vista de inteligência”, avaliou.
Segundo Drable, o futuro batalhão da PM em Barra Mansa terá cerca de 90 homens, entre efetivos, pessoal administrativo, operacional. A novidade é que o efetivo poderá, disse o ex-prefeito, ser usado pela atual CiaIndependente de Barra Mansa, até o novo batalhão entrar em operação. “Sem dúvida nenhuma será um ganho para a região. Barra Mansa será mais policiada, permitindo que Volta Redonda também seja mais policiada. Poderá gerarefeitos em Resende, por exemplo, porque essa guerra de tráfico é de uma cidade para outra. Eles não estão vindo de outro planeta. Em uma cidade tem uma facção mais forte, outra mais fraca. Fica aquela guerra entre elas”, detalhou.
Voltando ao crime que abalou Barra Mansa, Rodrigo Drable contou um episódio que presenciou na noite da morte do PM. “Eu estava na Santa Casa, por volta de uma e meia da manhã quando tive a notícia do falecimento do Amaral e disseram que estava chegando uma criança baleada. Fiquei lá esperando para ver a criança baleada chegar. Passou uma hora e chegou uma ambulância com um homem com um tiro na bunda. Tomou um tiro na bunda e o homem era a ‘criança de 15 anos’. Ele chegou algemado porque ele estava com uma arma dando tiro na polícia. Era um menino vindo do Rio. Era a criança, a vítima da sociedade, de 15 anos, que estava dando tiro em polícia”, desabafou de forma irritada.

“Temos que ter uma atenção maior ao interpretar a notícia que chega, pode ser pelo WhatsApp. Quando chega pela rádio tem credibilidade, pela TV a gente faz uma reflexão mais profunda, sabendo que a rádio hoje tem muito mais credibilidade que a TV, mas quando você recebe pela internet um áudio ou só uma mensagem de texto, a gente tem que fazer uma reflexão sobre o conteúdo que estamos recebendo. Porque quando me disseram que estava chegando uma criança, eu fiquei lá com o coração partido imaginando que fosse uma criança de 4 anos alvejada por um tiro. Mas não era nada disso, era um marginal de 15 anos”, destacou. “É assustador. A sociedade está doente, ela está doente quando não entende que o tráfico de drogas está tomando nossas crianças, transformando-as em guerrilheiros”, interpretou.

Antes de encerrar, Drable contou outro episódio, dos tempos em que mandava em Barra Mansa como prefeito. “Foi em 2017, quando 4 adolescentes foram mortos. Apartir daí eu coloquei horário integral nas escolas nas áreasmais perigosas da cidade. Tentamos tirar todas as crianças da rua naqueles locais e Barra Mansa se tornou a cidade do Rio com maior percentual de horário integral do Estado”, disse, para completar:

“Mas, lá em 2017, eu ouvi da polícia, da inteligência da polícia, que as crianças não são cooptadas porque elas não vão presas, mas porque, em geral, quem vende não se vicia, e quanto mais jovem menos consome. Eles acabamescolhendo as crianças não só pelo fato de serem inimputáveis, mas porque vão consumir menos drogas, olha o nível da coisa. Eles vão pegar seu filho, vão colocá-lo para trabalhar e querem seu filho pequeno pois vai cheirar menos. Essa é a realidade que nunca tinha me passado pela cabeça. Então temos que fazer uma diferença grande entre o que é bandido, o que é polícia, mocinho. Não podemos confundir mocinho com bandido”, finalizou.