Quem anda por Volta Redonda não consegue deixar de perceber: o município está cheio de farmácias. Resultado: fica a impressão de que os volta-redondenses vivem doentes. Na Avenida Lucas Evangelista, no Aterrado, existem 10. Na Avenida Amaral Peixoto, mais nove, sendo que duas são novas – uma já funcionando e outra em fase final de implantação, da mesma rede. É tanta farmácia que deixa os consumidores com uma ‘pulga atrás da orelha’, já que são estabelecimentos localizados quase à frente um do outro, ou ao lado. A mesma rede chega a ter duas filiais separadas por poucos metros.
Assim, dentro em breve, a cidade do aço pode vir a ser chamada de a ‘cidade das farmácias’. Para o farmacêutico Mário Vitor de Souza Lacerda, que atua no ramo desde 2007 tanto em Volta Redonda quanto em outras cidades fluminenses, um dos
motivos pode ser o fato de que o brasileiro consome muito medicamento por conta própria. Tudo sem indicação médica. “A abertura de tantas farmácias – e isso não acontece só em Volta Redonda –, acredito, tem alguns motivos. O Brasil, de acordo com um dado do Ministério da Saúde, tem 89% da população fazendo automedicação. A pessoa toma medicamentos sem orientação de um especialista. É muito pela automedicação”, destacou.
Segundo Mário Vitor, nos últimos anos – principalmente pós- Covid-19 – também aconteceu um aumento no consumo de medicamentos popularmente chamados de ‘tarja preta e vermelha’. “Isso a gente percebeu muito ‘no balcão’ das farmácias. Desde 2020, quando começou a pandemia, os remédios controlados, os psicotrópicos (medicamentos de ansiedade, antidepressivos, grifo nosso), aumentaram muito a venda. Isso eu obser vei trabalhando em farmácia, vende muito”, destacou.
A diversificação dos produtos que são vendidos nos estabelecimentos, avalia, também colaborou para o aumento da procura e consequentemente das farmácias. “Hoje, essas lojas não vendem só remédios, vendem também itens de perfumaria, cosméticos, estética. Isso tudo ajuda no crescimento de tantas farmácias. A pessoa vai procurar um remédio e compra um desodorante, shampoo, creme hidratante, entre outros. Então, hoje em dia, a far mácia vende muito mais do que só remédio”, completou.
Para o presidente da Associação Comercial de Volta Redonda, Maycon Abrantes, há tanta farmácia na cidade porque existe demanda. “Há alguns fatores para isso: temos uma população idosa muito grande, que consome muitos medicamentos. Há a questão da poluição atmosférica, que ajuda em questões de desenvolvimento de doenças respiratórias. Além disso, é bom lembrar que temos uma grande rede de saúde, com clínicas, consultórios e hospitais na cidade. Todo mundo que é consultado acaba saindo com uma receita de medicamento”, pontuou o empresário.
Ao ser questionado o motivo de se ter uma farmácia uma ao lado da outra – às vezes da própria rede –, Maycon salientou que seria uma espécie de defesa. “Um empresário vê uma loja vazia perto da sua farmácia, ele acaba abrindo outra farmácia no local para evitar que uma concorrente abra. Normalmente essas grandes redes têm os medicamentos em estoque, então não sai caro abrir outra filial, tendo em vista que a operação é barata: o medicamento ele já tem, precisa de gôndolas e mão de obra. É uma tentativa de se evitar que uma concorrente tome conta do mercado”, opinou.
Nova rede
A Farmácia Cumani, que acaba de se instalar em Volta Redonda com duas lojas na Avenida Amaral Peixoto, uma quase em frente à outra, virou assunto, em 2020, da grande imprensa, que registrou uma operação da Polícia Civil em alguns estabelecimentos da rede. Motivo: as lojas poderiam estar sendo usadas para lavagem de dinheiro da milícia, que seria chefiada por Wellington da Silva Braga, o Ecko, morto em 2021.
Segundo as investigações, as farmácias seriam usadas como uma das fontes de renda e de lavagem de dinheiro da milícia ‘Liga da Justiça’. Na época, a Polícia Civil teria encontrado medicamentos de uso controlado e anabolizantes de comercialização proibida. Os produtos apreendidos foram levados para a Cidade da Polícia, no Jacarezinho, e durante a operação, sete pessoas chegaram a ser presas e oito lojas foram fechadas em bairros da zona norte do Rio de Janeiro e em cidades da Baixada Fluminense.

