Por Mateus Gusmão
Apesar do frio na noite de terça, 24, o clima na Câmara de Barra do Piraí era quente. Fervia, aliás. Tudo por conta da votação de um projeto que pretendia valorizar as religiões de matriz africana. O Projeto de Lei 191/2025 foi apresentado pelo vereador Pedrinho ADL e tinha o objetivo de incluir o ‘Dia do Zé Pilintra’ no calendário oficial da cidade. Em uma decisão que dividiu opiniões e escancarou o preconceito religioso ainda presente nas instituições públicas, o PL foi rejeitado por seis votos a cinco. Para quem não sabe, Zé Pilintra é uma entidade espiritual cultuada, principalmente, na Umbanda como um espírito de luz que atua na linha dos Malandros – arquétipo associado à esperteza, simpatia, coragem e justiça social. Ele é visto como defensor dos humildes, protetor dos bares, das ruas e dos excluídos. Apesar da aparência mundana, Zé Pilintra é respeitado por sua sabedoria, ética e espiritualidade.
A polêmica começou bem antes do dia da votação. Foi quando o pastor Matheus Oliveira, da Comunidade Evangélica Atos, usou o púlpito da congregação para atacar o projeto do Dia do Zé Pilintra e, ainda, o vereador Pedrinho ADL. Tem mais. Pressionava a Câmara a barrar o PL. “Essa entidade é demoníaca e visa levar as pessoas para o vício. E querem criar um dia para essa entidade maldita que visa destruir as famílias de Barra do Piraí”, justificou na época. Como não poderia deixar de ser, a fala do pastor acendeu o debate na cidade. Grupos a favor e contra o PL foram à Câmara de Barra do Piraí na noite de terça, 24, para acompanhar a votação. Até o deputado estadual Douglas Gomes (PL) esteve na Casa. Pedindo pela rejeição.
A sessão começou com um discurso do vereador Pedrinho ADL. “Quando se condena a religião do outro, a pessoa deixa de praticar a sua própria religião. Espero contar com o voto dos vereadores para aprovar esse projeto. Eu não fiz lobby, não procurei os vereadores, entendendo que cada um tem o direito à opinião. Mas entendo que quando um político assume um cargo público, ele precisa ser imparcial e legislar para todos. O Brasil é um país laico”, comentou. ADL foi além. Destacou que intolerância religiosa é crime. “E é um crime que já dizimou, e segue dizimando, quem professa a sua fé”, disse, ressaltando que no Rio de Janeiro já existe uma lei do mesmo teor, de 2022, dos vereadores Átila Nunes e Tarcísio Motta. “Se esse projeto não passar, seguiremos. E o Dia do Zé Pilintra será comemorado apesar da lei. E quem sabe mais para frente a gente não entra de novo com esse mesmo projeto”, comentou.
O vereador Thiago Soares se posicionou favorável à proposta. Disse que estava recebendo muitas mensagens de seus contatos sobre o projeto. “Eu sou católico, e nós aprovamos muitos projetos aqui para os evangélicos. Eu não discrimino ninguém. Por isso, não poderia de nenhuma forma deixar de votar favorável a essa proposta”, destacou. O vereador Lud, por sua vez, disse que iria se posicionar a favor por conta de seu ‘coração’. “Se eu fosse pensar apenas politicamente, iria me abster. Mas eu vou votar com meu coração. Eu não compactuo com a guerra religiosa que criaram com esse tema. O Estado é laico e não podemos permitir politicagem com esse projeto”, disse, mandando um recado a Douglas Gomes, o deputado estadual presente à sessão.
“Queremos sua presença na cidade em outros momentos”, pontuou. O único vereador a se manifestar no microfone contra o projeto foi João Paulo, que é evangélico. “Paz do senhor a todos”, iniciou sua fala, acrescentando que Cristo ensinou que as pessoas devem amar as outras como a si próprias. Apesar disso, ele votou contra o ‘Dia do Zé Pilintra’. “E eu quero que quem vote contra a esse projeto também seja respeitado. Votar contra hoje não quer dizer que somos intolerantes”, jurou, sendo vaiado pelo público presente. A votação foi apertada. Dos 11 vereadores, cinco se posicionaram a favor, seis votaram contra, enterrando assim, por ora, o projeto.
“Não é um fato isolado”
Em entrevista exclusiva ao aQui, o pai de santo Sid Soares, co-presidente da Comissão de Terreiros Mojuba (Movimento Civil Independente e sem fins lucrativos em defesa dos Povos e Comunidades Tradicionais do Sul Fluminense), disse que a decisão dos vereadores de Barra do Piraí de rejeitarem o projeto do ‘Dia do Zé Pilintra’ não é um fato isolado. “Essa decisão está enraizada em um contexto histórico e político, que está enraizado no racismo estrutural aqui no Sul Fluminense. Isso é ainda pior nas cidades com forte influência de setores religiosos e f u n d a m e n t a l i s t a s ” , comentou o pai de santo.
Sid Soares destacou que existem forças nas cidades que confundem fé com poder. “E estão pautando as Casas Legislativas com apagamento cultural e intolerância. O nosso território do Sul Fluminense carrega uma rica diversidade afro-brasileira, com várias comunidades que preservam suas tradições de matriz africana e indígena há gerações”, completou, ressaltando que o que aconteceu em Barra do Piraí foi a tentativa de silenciar essas vozes através da negação da sua existência pública. “Não se trata apenas de um nome no calendário oficial, trata-se de negar a entidade, da sabedoria da malandragem do bem. O impacto disso é profundo”, pontuou.
A reprovação da proposta, segundo o pai de santo, seria uma repetição de um enredo que vem se repetindo muitas e muitas vezes, de que a fé do outro é criminalizada e a ignorância é transformada em argumento. “Para os terreiros, essa é uma derrota simbólica, pois significa a continuidade da marginalização através do serviço público. Os nossos filhos e filhas de santo crescem ouvindo que nossa religião é errada, os nossos templos são profanados e nossas imagens destruídas, além das nossas lideranças serem perseguidas. Mas não seremos inviabilizados”, diz. Sid foi além. Diz que seria necessário que o povo de terreiro, como ele chama, se instrumentalize politicamente. “Precisamos ocupar os espaços públicos e políticos, apoiar candidaturas de quem irá apoiar nossas causas, cobrar quem elegemos… O Sul Fluminense é uma terra de fé plural, de tradição ancestral. Sempre que tentam apagar nossa história, ficamos mais fortes”, pontuou.
Para o pai de santo, Zé Pilintra seguirá vivo nas esquinas, nas encruzilhadas e no coração do povo de terreiro. “O chamado que eu faço é para uma organização, para que possamos construir coletivos, frentes parlamentares e alianças. Precisamos denunciar o racismo religioso e defender políticas públicas que garantem a nossa liberdade de culto. A nossa luta não é pela institucionalização de uma data, mas pela memória e permanência. Os filhos de terreiro precisam que nossa fé seja respeitada para viver em paz e com dignidade. E isso é um direito constitucional. É disso que se trata. Axé!”, concluiu. Axé!

