Dados do Ideb viram discurso político, apesar de baixo crescimento
Mateus Gusmão
Recentemente, todos os brasileiros foram bombardeados com notícias sobre o crescimento — ou não — de seus municípios no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal indicador utilizado para acompanhar a qualidade da educação básica no país. O índice combina dois aspectos diferentes da educação: o desempenho dos alunos nas avaliações de Português e Matemática e a taxa de aprovação dos estudantes. Diversos governos comemoraram. Alguns com razão. Outros, nem tanto. Simplesmente exploraram dados ao léu sobre seus avanços.
Muitos dados, inclusive, foram irrisórios, sem que as informações pudessem mostrar o que realmente mudou na educação dos municípios. Para a professora Mônica Corrêa, ex-diretora-geral do Colégio Estadual Rio de Janeiro, localizado na Sessenta, em Volta Redonda, o Ideb deveria funcionar como um termômetro da educação. Segundo ela, o indicador permite avaliar, de forma conjunta, o aprendizado dos estudantes e o fluxo escolar, considerando aprovação, reprovação e abandono. “Para os governos, serviria para verificar a eficácia das políticas públicas; para as escolas, ajudaria na definição de metas”, comentou.
Na avaliação de Mônica, porém, existe uma distância entre a função prevista para o indicador e o que acontece na prática. Ela afirma que os resultados baixos e os avanços considerados pequenos acabam expondo problemas como falta de investimentos, ausência de planejamento adequado para a aplicação de recursos e ações e falta de valorização dos profissionais da educação. “A verdade é que o Ideb virou discurso político sem fundamento”, disparou.
Estado vai mal
O Governo do Estado, já na gestão do desembargador Ricardo Couto, comemorou os dados do Ideb de 2025. A rede estadual alcançou índice de 3,7 no Ensino Médio, contra 3,3 na edição anterior. Nos anos finais do Ensino Fundamental, o indicador passou de 3,8 para 4,3. Os números representam, de fato, uma evolução. O problema é o tamanho dela e, principalmente, o que representa na prática. Considerando o conjunto dos indicadores, o Rio de Janeiro continua distante de uma posição de destaque nacional, aparecendo na 15ª colocação entre os 27 estados.
Em divulgação oficial, o governo atribuiu a evolução a um conjunto de ações da Secretaria de Estado de Educação, como a ampliação da carga horária dos professores, acompanhamento pedagógico das unidades, busca ativa de estudantes com baixa frequência e iniciativas de combate à evasão escolar. A Progressão Parcial também foi citada como estratégia para recomposição das aprendizagens e redução da retenção.
Curiosamente, o próprio Governo Federal parece enxergar o Ideb de maneira diferente. O Rio de Janeiro foi escolhido para receber o projeto ‘Brasil Aprende+’, do Ministério da Educação, criado justamente para transformar os resultados do Ideb 2025 em ações de melhoria da aprendizagem. A proposta é que as redes de ensino analisem os resultados, identifiquem os principais desafios, estabeleçam prioridades e elaborem planos de ação de acordo com a realidade de cada território.
A mobilização será desenvolvida em oito etapas, que vão da análise dos resultados ao acompanhamento das ações realizadas pelas escolas. No encontro realizado no último dia 20, participaram representantes do MEC, da Secretaria de Estado de Educação, da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e de municípios fluminenses.
A diferença é importante: enquanto o resultado do Ideb é utilizado por governos para anunciar avanços, a proposta do MEC parte do princípio de que a nota é apenas o começo do trabalho. E é justamente aí que está a questão. Se o Ideb deve servir para identificar problemas e orientar políticas públicas, é preciso saber o que cada município fez — ou pretende fazer — a partir dos resultados.
Volta Redonda comemora
Em Volta Redonda, o resultado de 2025 foi apresentado pela Prefeitura como uma conquista da educação municipal. A rede alcançou nota 6,3 nos anos iniciais do Ensino Fundamental e 5,3 nos anos finais. Segundo o governo Neto, os índices colocam a cidade do aço no mesmo patamar da média nacional e 0,2 ponto acima da média do Estado do Rio nas duas etapas. O secretário de Educação, Osvaldir Denadai, entende que o resultado seria reflexo do trabalho desenvolvido diariamente nas unidades escolares da rede.
O prefeito Neto, por sua vez, disse que a cidade tem uma educação reconhecida e que o resultado confirma que o município está no caminho certo. “Parabenizo todos os profissionais da Educação, que fazem um trabalho sério e comprometido todos os dias. Nosso agradecimento também aos alunos e às famílias pela confiança. Vamos continuar investindo na educação, porque ela transforma vidas e constrói um futuro melhor para a nossa cidade”, justificou.
Em Barra do Piraí, a divulgação do resultado seguiu caminho semelhante. A Prefeitura local classificou o desempenho como “histórico”, destacando principalmente os anos iniciais do Ensino Fundamental, que alcançaram 5,5, maior nota já registrada pelo município nessa etapa. Nos anos finais, a nota passou de 4,2, em 2023, para 4,5 em 2025. O governo Kátia Miki destaca o desempenho da Escola Municipal Miguel Vasconcelos, em Vargem Grande, que alcançou 7,3, o melhor resultado entre as escolas da rede.
Para o secretário de Educação, Flávio Horta Júnior, os resultados demonstram que o trabalho desenvolvido desde o início da atual gestão já começa a gerar resultados concretos. “Recebemos a rede com nota 5,1 nos anos iniciais e, logo no primeiro ano da gestão, conseguimos elevar esse índice para 5,5, a maior nota já alcançada pelo município nessa etapa. Nos anos finais também evoluímos, passando de 4,2 para 4,5, o maior resultado da história de Barra do Piraí. Esses números mostram que estamos no caminho certo e reforçam que investir na educação transforma a aprendizagem dos nossos alunos”, comentou.
Resende também celebra
A educação municipal de Resende alcançou, segundo a Prefeitura, o melhor desempenho de sua história no Ideb. O município atingiu 6,3 nos anos iniciais do Ensino Fundamental, superando as médias estadual e nacional. O resultado representa avanço em relação a 2023, quando a cidade havia registrado 6,1. A série histórica mostra ainda uma evolução de 5,6, em 2021, para 6,1, em 2023, chegando aos 6,3 atuais. Nos anos finais, a nota alcançou 5,1, mantendo o município no maior patamar já registrado para o segmento.
Para a secretária de Educação, Rosa Frech, o resultado reflete um trabalho pedagógico baseado no acompanhamento da aprendizagem e na valorização da rede de ensino. “Esse resultado do Ideb reflete um trabalho pedagógico consistente, baseado no acompanhamento da aprendizagem, na valorização de toda a rede de ensino e no compromisso de garantir que cada um dos nossos alunos desenvolva todo o seu potencial”, afirmou.
O engraçado é que a Prefeitura de Barra Mansa, até o fechamento desta edição, não emitiu nenhuma nota a respeito dos dados do Ideb no município.

