Tá de brincadeira!

Roberto Marinho

Na programação oficial da festa dos 65 anos de Volta Redonda – comemorados na quarta, 17 de julho – estava a abertura do 30° Salão do Humor, considerado um dos mais tradicionais do tipo no Brasil. Só que o que deveria ser uma boa notícia para os artistas ávidos em mostrar seus trabalhos gerou um mal estar entre alguns deles. Motivo: os prêmios oferecidos foram reduzidos e os jurados da edição anterior – a 29a, realizada em 2017 – ainda não receberam seus cachês.   

 

A história mal contada entre a secretaria de Cultura e os jurados começou basicamente na 29a edição, a de 2017, quando o Salão de Humor de Volta Redonda virou internacional, atraindo artistas de várias partes do mundo. E os sete jurados, que analisaram mais de 1,2 mil desenhos, não receberam um centavo dos R$ 1 mil a que teriam direito.

 

Em março passado, conforme o aQui mostrou, a secretaria de Cultura chegou a confirmar o calote aos jurados. A justificativa oficial foi que a Procuradoria Geral do Município (PGM) teria analisado e interpretado “a inconsistência no conjunto da documentação apresentada pelos jurados”, tendo emitido parecer no sentido de que não se fizesse o pagamento. Ou seja, botou a culpa nos jurados, que não teriam apresentado os documentos exigidos. A secretaria de Cultura também confirmou ter tido problemas para pagar o prêmio dos artistas estrangeiros. Os desgastes teriam provocado a queda da então secretária de Cultura, Márcia Fernandes. 

 

Só que a saída de Márcia não pôs fim aos problemas do Salão do Humor de Volta Redonda. Sua sucessora, Aline Ribeiro, ex-chefe de gabinete de Márcia, não conseguiu resolver a questão do pagamento dos jurados e dos artistas estrangeiros, que até hoje esperam pela boa vontade – e dinheiro – da pasta.

 

Um dos artistas, que não quer se identificar, entende que a prefeitura de Volta Redonda também deu um tiro no pé ao pôr fim ao projeto de internacionalizar o Salão do Humor. Para ele, ao justificar a decisão dizendo que queria “valorizar o artista regional” como está estabelecido no edital, é pura ‘conversa pra boi dormir’. “Tudo no salão anterior foi uma confusão só. E o desse ano vai pagar menos – a premiação total caiu de R$ 28 mil para R$ 13,5 mil, desabafou. “Justificam, mas não mostram uma tabela de uma associação da categoria. Também alegam que os valores praticados em eventos do mesmo tipo e tamanho são menores. Porém, no próprio edital eles dizem que o Salão de Humor de Volta Redonda é ‘um dos maiores do país’. Ou seja, é um dos maiores e quer pagar a média? Cadê a coerência?”, compara, indo além. Diz que a secretaria de Cultura deveria procurar saber qual a premiação do Salão do Humor de Piracicaba, considerado o maior do país, para constatar que os valores de Volta Redonda estão bem abaixo do padrão. 

 

Outro artista, que também prefere não se identificar, relata que o edital liberado pela secretaria de Cultura estaria “burocratizado”, e seria de difícil leitura, além de estar incompleto. “Não cita os nomes dos componentes da Comissão de Seleção e não apresenta data exata de pagamento, por exemplo. Isso não combina com o discurso de uma gestão cultural preocupada com a democratização de acesso e com a transparência dos processos”, julga.

 

A lista de documentos a serem entregues pelos artistas serve, segundo ele, como prova da ‘burrocracia’: formulário de inscrição devidamente preenchido; cópia de RG; cópia do CPF; comprovante de residência; declaração de direitos autorais; certidão negativa conjunta de débitos da União; certidão negativa conjunta de débitos do município; certidão negativa conjunta de débitos trabalhista; termos de autorização dos pais para menores. “Tudo impresso, preenchido, assinado, anexado se for por e-mail, etiquetado como no modelo do edital, se for por via postal”, comentou o artista, que citou uma frase do edital como outro exemplo do tom burocrático: “‘Eventuais sanções de caráter pecuniário não adimplidas voluntariamente serão inscritas em dívida ativa para posterior execução fiscal’. Difícil para alguém leigo no assunto, não é?”.

 

Apesar dos pesares, o artista apresenta boas coisas que o Salão do Humor de Volta Redonda pode gerar, como a formação de artistas mais jovens; programação diversificada e no nível dos eventos culturais da prefeitura; e a qualidade na montagem da exposição. “O Espaço de Artes Zélia Arbex é um espaço adequado, climatizado, sem goteiras ou vandalismo”, pontua, aproveitando para dizer que espera que o governo Samuca leia as críticas como se estivesse vendo um bom desenho de humor. “O Salão de Humor é um evento popular, e assim deveria permanecer”, afirma.

Nota da redação: a secretaria de Cultura foi procurada pelo jornal para se posicionar sobre as queixas dos artistas e sobre o fato de ainda estar devendo os prêmios do Salão de 2017, e explicar por que até hoje, um ano depois, ainda não quitou as dívidas com os jurados que trabalharam no ano passado.

 

Inscrições abertas

Em release enviado aos jornais, a PMVR informou que as inscrições para a 30ª edição do Salão de Humor de Volta Redonda, com ou sem polêmica, poderão ser feitas até o dia 20 de agosto pelo link  www.voltaredonda.rj.gov.br. E garante que haverá premiação para trabalhos artísticos de caricatura, cartum, charge, HQ e categorias do humor gráfico. Neste ano, diz a nota, o concurso terá uma novidade: a categoria ‘Junior’, direcionada para alunos de 15 a 18 anos da rede pública de ensino.

 

Paralelo ao concurso, a secretaria de cultura dá conta que irá promover oficinas de desenho nas escolas da cidade do aço com um artista consagrado nesse segmento cultural. E na quarta, 17, na festa dos 65 anos de Volta Redonda, promoveu a abertura de uma exposição sobre o Salão do Humor no Espaço das Artes Zélia Arbex, na Vila.  

 

“Temos um orgulho imenso de realizar um dos mais importantes salões de humor do país e que possui uma riqueza imensurável, principalmente as pessoas que fizeram parte dessa história. Quando falamos em caricatura, charge, cartum, inúmeros são os fatores sociais, culturais e históricos que contribuíram para o surgimento dessa forma de expressão. Uma simples definição não é o suficiente para passar a limpo a grandeza de informações que os desenhos de humor, como linguagem gráfica, trazem consigo”, justificou a secretária de Cultura, Aline Ribeiro. Sem abordar a questão dos pagamentos atrasados, é claro.

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