NEGOCIAÇÕES: Sindicato quer turno de 12 horas que já existe na Galvasud também na UPV
Pollyanna Xavier
O oitavo item da pauta de reivindicações da campanha salarial da CSN promete agitar as negociações – não pela mudança em si, mas pelos efeitos que pode provocar. O pedido é simples: implantar o turno de 12 horas em algumas áreas da UPV, a exemplo da jornada já praticada na Galvasud, em Porto Real. O problema é saber se a empresa vai aceitar a proposta. É que o turno de 12 horas não seria implantado em toda a usina, mas só em setores específicos, o que pode gerar questionamentos por falta de paridade. E ainda porque a CSN até agora não abriu agenda para negociar com o Sindicato do Metalúrgicos. Nem existe previsão para isso acontecer. O atraso pode empurrar a discussão do turno e até fazer com que o tema fique para a campanha de 2027, como aconteceu com a PPR, em 2025.
O aQui conversou com o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Odair Mariano, para entender melhor esse item da pauta. “A oposição está dizendo que o Sindicato está impondo essa jornada, mas não é verdade. Nós consultamos os trabalhadores antes, fizemos uma pesquisa, e muitos preferem esse turno”, afirmou, explicando que o modelo funciona com quatro letras distintas, em que os metalúrgicos trabalham das 7 às 19 horas por quatro dias consecutivos e folgam nos quatro dias seguintes. “O pessoal da Galvasud gosta muito desse turno. No passado tentaram mudar, mas os trabalhadores não aceitaram”, completou.
Segundo Odair, a proposta do turno de 12 horas contemplaria apenas alguns setores da UPV, por uma questão de segurança. Áreas com maior grau de periculosidade não devem ser incluídas, justamente para evitar a exposição prolongada dos trabalhadores a riscos. “A sala de corrida do alto-forno, por exemplo, não comporta um turno assim. Imagina expor o trabalhador desse setor ao calor por 12 horas seguidas? Não tem como. Mas há áreas que permitem, e é nesses setores que vamos propor a mudança”, explicou.
Ao aQui, Odair afirmou que, dentro da UPV, algumas áreas já adotam a jornada de 12 horas e que a mudança foi recente. Entre elas, estão setores de logística, fiscalização, guarda patrimonial e corpo de bombeiros. “Os trabalhadores dessas áreas procuraram o Sindicato pedindo apoio para a mudança da jornada. Nós formalizamos o pedido por meio de um ofício e dialogamos com a CSN. Num primeiro momento, a empresa resistiu, pediu um prazo para se adequar, mas acabou autorizando a mudança”, revelou o sindicalista.
Para Odair, estudos técnicos podem ajudar a identificar outros setores onde a implantação do turno de 12 horas seria segura. Tem mais. Na entrevista, Odair destacou os itens da pauta voltados à proteção das mulheres metalúrgicas, tema que já foi abordado pelo aQui, como a valorização do gênero. “É preciso ter esse olhar para as mulheres metalúrgicas. Nos últimos anos, a CSN adotou uma política de valorização, ampliando a contratação de mulheres para os seus quadros. Não temos o percentual exato, mas o número de trabalhadoras na UPV vem crescendo. O Sindicato precisava acompanhar esse movimento, apresentando propostas voltadas a esse público”, afirmou Odair.
Negociação
Até o momento da entrevista, no fim da manhã de ontem, sexta, 24, a CSN ainda não havia chamado o Sindicato para iniciar as negociações do acordo coletivo 2026. Odair, no entanto, demonstrava otimismo. “Entendo que isso não depende do RH da UPV, mas do corporativo, em São Paulo. É de lá que precisa partir a autorização para o início das tratativas. Estamos aguardando e, sempre que possível, cobrando esse começo”, comentou, aproveitando para informar que na Galvasud, em Porto Real, as negociações ficarão a cargo do SindiReal, sindicato recém-criado, com sede no município, que representa os trabalhadores locais. “Eles têm legitimidade para conduzir o acordo da Galvasud”, concluiu.
Sindicato negocia com a Volks
Enquanto aguarda o início das negociações com a CSN, a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos esticou o passo e foi até Resende para se reunir com a direção da Volkswagen Caminhões e Ônibus. Na pauta, os impactos do cenário econômico sobre o setor e, principalmente, sobre os trabalhadores. A preocupação não é à toa. O cenário internacional segue instável, e a própria empresa está atenta aos elevados custos que têm puxado os juros para patamares mais altos. “Essa combinação trava o crédito e dificulta o financiamento de caminhões, afetando diretamente a produção. A empresa se queixou disso”, comentou Odair.
Segundo o sindicalista, no encontro, o discurso foi de cautela. O Sindicato defende a manutenção do diálogo e a preservação dos empregos, enquanto a marca acompanha um cenário ainda incerto. A partir da próxima semana, os diretores do Sindicato pretendem iniciar conversas com as empresas do Consórcio Modular (terceirizadas), numa tentativa de evitar impactos mais duros na base. A estratégia é válida: ganhar tempo, manter as portas abertas e tentar atravessar um período que, pelo visto, ainda promete turbulências. A conferir.

