Salto para o céu

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Esporte radical se despede de Adelino, expoente do rope jump na região

Walter Barros

Dizem que “a gente leva da vida a vida que a gente leva”. Essa é uma das máximas que Adelino Martins parece ter tatuado na alma. Praticante de rope jump (pêndulo humano) de Limeira (SP), tratando um câncer, Adelino faleceu no último dia 28 de julho, aos 55 anos, deixando esposa e quatro filhas. Mas o le-gado de ‘Veinho’ permanece vivo, através dos integrantes do grupo ‘A Vida nas Cordas’ e da legião de amigos que ele fez por onde passou, incluindo o Sul Fluminense, já que Barra Mansa era um dos locais de atuação do esportista.

“Quero agradecer a todo mundo que está aqui, pra gente fazer com que esse rolê seja positivo. Nossa ideia sempre foi essa, a gente tem várias pessoas que vêm aqui com medo de altura, com síndrome do pânico, com depressão. A galera sai com a vida renovada daqui”, dizia Adelino em um vídeo que antecedia um dos seus eventos. Uma realidade que ele sentiu na pele em 2017, quando começou a praticar o esporte enquanto vivia uma depressão.

Naquele ano, Elaine Deslandes viu pelo Facebook o desabafo de Adelino sobre a doença, sem imaginar que havia encontrado o amor de sua vida. “Chamei ele no Messenger e coloquei um versículo bíblico, eu não queria paquerar, nada disso. Ele morava em Limeira, trabalhava em Campo Grande (MS). Eu fui lá conhecê-lo e começamos a namorar. Depois de quatro anos, montamos ‘A Vida nas Cordas’, e ele conquistou o sonho dele”, revela Elaine.

Ela aproveita e descreve Adelino como alguém disposto a ajudar as pessoas, sem querer nada em troca, um líder amigo. “Vamos sentir muita falta dele, mas ele deixou um legado, que é a equipe dele, um sonho que teve. Ele amou o esporte e falou ‘vamos continuar, que a vida não para’”, diz Elaine, de forma bem emocionada.

Quem conviveu com o praticante de rope jump relata que os ensinamentos de Adelino não eram somente sobre cordas; suas palavras motivavam as pessoas a se atirarem para a vida, transcendendo os saltos das alturas. “O Adelino era o paizão da equipe. Apesar de ser o mais velho, era ele quem botava pilha nas brincadeiras e doideiras; era quem nos incentivava a viver mesmo e sentir adrenalina! Mas ensinava como funcionava, para sabermos o que estávamos fazendo. Sempre nos ensinando o que ele sabia, sobre cordas, sobre a vida mesmo. Uma coisa que ele dizia muito era para vivermos, porque morrer é só uma vez. Mas viver é todos os dias”, lembra Larissa Christina, 28 anos.

A guia de turismo de esende conheceu Adelino em 2022, quando fez seu primeiro salto da Ponte do Glicério, em Barra Mansa. “Agradeço muito por tudo o que ele me ensinou, pelas conversas, pelo carinho e, principalmente, pela família que ele uniu. Quando tinha evento, a parte mais legal era depois dos saltos. Quando todo mundo sentava, descansava, conversava e comia muito”, acrescenta a integrante do grupo ‘A Vida nas Cordas’.

“O que fica é a saudade e a gratidão de poder ter participado dos melhores e últimos dias da vida dele. Até no domingo, dois dias antes de sua partida, estávamos reunidos na casa dele, para comemorarmos o aniversário dele. Creio que ali ele descansou, porque viu quem estava segurando sua mão”, conta Gabriela de Lima, 33. A moradora de Indaiatuba (SP) conta que conheceu Adelino no ano passado, quando se atirou pela primeira vez da Ponte do Esqueleto, em Limeira.

O local ficou nacionalmente conhecido em junho deste ano pela morte de Maria Eduarda Rodrigues, de 21 anos, decorrente da falha de uma outra equipe, pela não ancoragem da corda à jovem. Antes de conhecer Adelino, Gabi já trocava olhares com Dreikson, o DK, instrutor do grupo ‘A Vida nas Cordas’, até começar a namorá-lo. “Conheci o Adelino sem querer, na Ponte do Esqueleto.

Tinha um grupo de amigos na ponte no dia e eu e o Dreikson passamos por lá. Falei numa brincadeira que eu iria me casar com o amigo dele. Hoje estamos noivos e, infelizmente, ele não estará presente em vida no nosso casamento”, lamenta. Gabi descreve Adelino como um pai, uma referência, um herói, “aquele que pulava na bala, Ela tem apenas 90 anos. É professora, advogada e cidadã barra-mansense, título que recebeu em 2017. Ontem, sexta, 7, Júlia Tardem lançou o livro ‘Pétalas Esparsas’ (Editora PoeArt, 2026) durante evento realizado na Biblioteca Municipal de Barra Mansa, com direito a autógrafos para os convidados, que lotaram a casa.

A obra reúne, em nove partes, reminiscências, crônicas, poesias, contos, palestras, trovas e um acervo iconográfico produzidos ao longo de mais de sete décadas – desde os primeiros textos publicados nos anos 1970 nos jornais ‘O Líder’ e ‘O Sul Fluminense’ até escritos inéditos guardados por décadas. Fundadora do Grêmio Barramansense de Letras (Grebal), Júlia teve um conto premiado entre os dez melhores de um concurso literário em 1979 e poesia publicada na 1ª Antologia Poética dos Advogados Fluminenses, em 1988. acreditava em nós, que ajudou muitos a sair da depressão, a enxergar o mundo de forma diferente”, um amigo que permanece vivo dentro de sua própria existência. “Obrigada pela oportunidade de falar sobre o Veinho. Na verdade, cada um teve um pedacinho do Adelino que merecia”, emenda.

O rope jump que fez Gabi e Dreikson se conhecerem também conferiu a Adelino o papel de ajudante de cupido. Uma história iniciada há mais de oito anos, quando outro amigo levou DK para a Ponte do Esqueleto. “Fui lá para perder o medo de altura e acabei saltando seis vezes naquele dia”, conta. No local, Dreikson conheceu Adelino, criando uma amizade que sobreviveria ao fim da equipe da qual eles faziam parte. “Ele saiu dessa equipe para montar ‘A Vida Nas Cordas’. Depois de um tempo, eu fui removido da equipe da qual fazíamos parte, eu estava desconjurado. Um sem rolê para eu colar. Ele fez um evento, me convidou e virou minha chave. A partir desse momento, minha vida mudou completamente”, acrescenta.

DK exalta Adelino como o pai que criou quatro filhas praticamente sozinho: “Ele foi um pai e uma mãe fenomenal, ensinou tudo da vida para as meninas, ele se desdobrou”, dispara. Mas Dreikson também exalta Adelino, que fez das cordas uma espécie de laço de uma grande família, que o abraçou até o salto derradeiro. Isso é o que se percebe em uma de suas últimas mensagens a Gabi: “Os remédios me destroem. Ainda bem que tenho minha família comigo, minhas filhas, Elaine e vocês. Tu não tem noção como sou grato”, escreveu. Assim, Adelino partiu, saltou para o céu, deixando saudade, ensinamentos e um pedaço dele dentro de cada um que não soltou sua mão, como as cordas que amarram e, ao mesmo tempo, libertam a vida. Vá em paz. Até um dia, Veinho.