Ruim com ela, pior sem ela?

Retorno da feira no Conforto ressuscita polêmica se a prefeitura deve ou não mudar o formato

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Vinicius de Oliveira

Na segunda, 21, a prefeitura de Volta Redonda anunciou a retomada da Feira Livre em seu formato original no Conforto. Antes, já tinha feito o mesmo com a do Aterrado, Vila, Sessenta e Volta Grande. Para quem não se lembra, em 2020 o ex-prefeito Samuca suspendeu as atividades dos feirantes como uma das medidas contra a Covid-19. Cinco meses depois, flexibilizou a decisão, mas apenas para quem vendia gêneros alimentícios. Desde então, os feirantes passaram a tentar convencer a prefeitura a pôr fim às restrições, o que, no caso do Conforto, aconteceu ontem, sexta, 25, quando eles já puderam montar suas barracas ao longo da Rua 4.
Quem não gostou muito da novidade foram alguns moradores. Mas engana-se quem pensa que a chiadeira é despropositada. Quem convive toda semana com o vai e vem dos feirantes e clientes diz que é preciso ter paciência de Jó. Reclamam do barulho, do mau cheiro, e, principalmente, da dificuldade de sair e entrar em casa. “A feira incomoda, sim. Quatro horas da manhã já começa um barulho de caminhões descarregando barracas. O trânsito é desviado e eles só liberam a rua totalmente às 17 horas. Tem barraca de churrasquinho com música a partir das 8 horas e vendendo cerveja. Me parece que é sem licença, mas a guarda nada faz. As lonas das barracas são amarradas nas grades das casas, danificando as grades. Tem trechos de calçada que eles usam, sem contar que trancam as garagens com seus caminhões, impedindo os moradores de sair de casa”, denunciou um morador do Conforto, salientando que nem sabe quem é o presidente da Associação de Moradores do bairro para reclamar do que chama ‘abuso de poder’.
Professores que atuam nas escolas João Hassis (Eucaliptal) e Antonieta Mota (Conforto) também se sentem incomodados com a feira-livre nas redondezas. “Quem trabalha no turno da tarde tem muita dificuldade para chegar às escolas do bairro. Não encontram lugar para estacionar ou precisam dar uma volta imensa”, disse uma professora, fazendo questão de frisar que sabe dos benefícios da feira. “Mas talvez esteja na hora de fazer algumas adequações. Talvez encontrar um lugar específico, fixo”, completou.
As reclamações não são exclusivas de quem mora no Conforto. No Volta Grande acontece o mesmo. Embora não seja a favor do fim da feira-livre, a presidente da Associação de Moradores, Maria Mercedes, diz que o grande problema tem sido a falta de fiscalização. “A feira é importante, pois emprega muitas pessoas que precisam trabalhar. Moro há mais de 50 anos no Volta Grande e desde sempre a feira é lá. As pessoas aprendem a se acostumar desde que haja fiscalização e respeito dos próprios feirantes”, alertou Mercedes.
Ela disse que os mesmos problemas apontados pelo morador do Conforto citado acima são vistos no seu bairro. “É verdade. Às 17 horas ainda tem barraca na rua e trânsito parado. E o pior é que a gente não sabe quem é o presidente da Associação dos feirantes. Já tentei várias vezes procurar por ele e fazer as devidas reclamações, mas não temos acesso; isso é lamentável e depõe contra a própria feira, gerando essas reclamações”, reclamou.
De acordo com nota enviada pela prefeitura a respeito da retomada das atividades normais da feira do Conforto, o órgão garante que o prefeito Neto descarta a possibilidade de acabar com a feira-livre ou instalar os feirantes em local próprio e fixo. “Sabemos da importância econômica e social da Feira Livre em Volta Redonda”, ponderou a diretora do Departamento de Atividades Econômicas e Sociais da SMF, Elisângela Rangel, falando em nome do governo.
Quem concorda com Elisângela é o presidente do Conselho de Cultura de Volta Redonda, Leon Chaves. Para ele, a tradicionalidade da feira lhe confere status cultural e histórico que deve ser preservado. “A feira existe antes da própria cidade e já foi motor importante da economia criativa durante muito tempo em Volta Redonda. Ao longo dos anos as características foram mudando, mas ela permanecia ativa. Sofreu com a pandemia, principalmente depois do decreto que dividiu ela ao meio (num local ficavam os gêneros alimentícios e em outro, mais distante, roupas e acessórios, grifo nosso)”, defendeu.
Leon mencionou ainda a importância social para os moradores da periferia, que moram nas redondezas da feira. “A feira ainda é o local mais barato para se comprar frutas, verduras e legumes. Quando a feira está instalada no Conforto, moradores do morro do São Carlos, por exemplo, descem e vão lá comprar sua ‘mistura’ da semana. Às vezes, a única. Pode parecer pouco para quem consegue ir ao mercado sempre que precisa, mas é muito para quem não tem condições, ainda mais no pós-pandemia, em que o preço de tudo está absurdo”, lembrou Leon, comentando ainda que levar a feira para um local fixo fará com que os feirantes atuem como os paulistas têm atuado no famoso mercadão da cidade. “Praticarão preços abusivos para compensar as perdas por estarem fios num único local”, crê.