Ricardo Maciel (ao centro), já empossado, circula entre os maçons
Por Luiz Alfredo Vieira
O advogado Ricardo Maciel, ex-vereador e ex- presidente da Câmara de Barra Mansa, assumiu a presidência da Assembleia Federal Maçônica, uma espécie de Câmara dos Deputados, com sede em Brasília e que reúne mais de 1.200 maçons de todo o Brasil, associados a cerca de 2.800 lojas maçônicas filiadas ao Grande Oriente do Brasil (GOB). “O mais importante é que ali você tem uma estrutura onde, embora seja de Parlamento, todas as pessoas estão buscando o bem comum”, diz Maciel. “Não existem cargos, não existem passagens aéreas, não existe nada disso. Então, a grande diferença é essa. Enquanto a Câmara dos Deputados passa pela crítica exatamente pela ineficiência, pela morosidade, pelas negociações nem sempre muito republicanas, na Assembleia Maçônica não existe nada disso”, compara. “É importante frisar esse tipo de coisa”, dispara, referindo-se às diferenças entre as duas Casas – a do povo e a dos maçons.
A eleição e posse de Ricardo Maciel, por aclamação, como presidente da Assembleia Federal Maçônica ocorreu no último dia 23 de junho, na sede do Grande Oriente do Brasil com a presença de 1.180 maçons de 26 estados e do Distrito Federal. Na foto, ele aparece ao lado de Arquiariano Bites Leão, logo depois de ser empossado no cargo. Em entrevista exclusiva ao aQui, Ricardo Maciel, que presta consultoria política ao vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, fala dos seus objetivos e explica, aos leitores, o papel da Maçonaria no Brasil.
aQui: O que representa ser o presidente da Assembleia Federal Maçônica? O que a difere da Câmara dos Deputados?
Ricardo Maciel: Representa ter a oportunidade de contribuir para a maior instituição do terceiro setor da América Latina. Uma instituição com 200 anos de história, com 2.800 lojas maçônicas pelo Brasil e cerca de 80 mil obreiros, maçons, que chamamos de irmãos. É participar efetivamente da maior rede privada do terceiro setor de Assistência Social, através das ‘Fraternidades Femininas Cruzeiro do Sul’, existentes em 980 lojas maçônicas, com cerca de 20 mil mulheres, que são as nossas cunhadas e sobrinhas. Eu vou cuidar da legislação interna corpórea da instituição, ou seja, cuidar da legislação que rege todo esse ordenamento. Ela é muito complexa, tem um regimento interno, um regimento geral da Federação, normas de disciplinas que são colocadas para que todos as sigam. A importância está em você participar ativamente como legislador, e, no meu caso, como presidente, para ordenar toda essa estrutura gigantesca que é o Grande Oriente do Brasil.
aQui: O que a difere da Câmara dos Deputados?
Ricardo: Em primeiro lugar, por não existir nenhum tipo de remuneração para esse trabalho. A Assembleia se reúne em Brasília. Nós temos uma organização, temos o Judiciário, que aplica as nossas leis internas, e a Câmara dos Deputados, formada por deputados maçônicos para cuidarem da legislação. Não existem as chamadas oposições violentas, onde há briga, intrigas, uma série de coisas. Existem sim as discussões, pois existem projetos de leis que são apresentados que são conflitantes. O mais importante é que todas as pessoas estão em busca do bem comum. Não existem cargos, não existem passagens aéreas, não existe nada disso. A grande diferença é essa. Enquanto a Câmara dos Deputados passa pela crítica exatamente pela ineficiência, pela morosidade, pelas negociações nem sempre muito republicanas, na Assembleia Maçônica não existe nada disso. É importante frisar esse tipo de coisa.
aQui: Quais são os seus objetivos?
Ricardo: Os nossos objetivos são de tentar fazer todas as coisas para ajudar o Grande Oriente do Brasil a crescer, a aumentar o número de obreiros, a difundir essa ampla rede que nós temos de assistência social e de fazer o bem para a comunidade. A maçonaria possui centenas de maçons que são responsáveis por vários órgãos que cuidam das pessoas. Santas Casas, hospitais de combate ao câncer, creches, orfanatos, APAEs – uma série de instituições que são dirigidas por maçons. E nosso objetivo é exatamente esse: fortalecer essas redes.
aQui: Recentemente, a maçonaria foi envolvida em vários casos políticos. Afinal, qual é o papel da maçonaria no Brasil? Ricardo: A maçonaria não é política, ela foi envolvida em alguns casos políticos por irmãos de forma isolada, mas não é política. Ela ficou dividida, como o Brasil está dividido. O Brasil continua com 50% a favor do governo Lula e 50% praticamente contra, a favor do ex-presidente Bolsonaro. E a maçonaria, através de alguns irmãos, também tem os dois lados. Há irmãos que apoiam o Lula e há os que apoiaram o Bolsonaro. Mas não houve envolvimento da instituição com a política, houve um envolvimento de irmãos com a política. A maçonaria é totalmente apartidária, um órgão que exige em primeiro lugar que os irmãos acreditem no Senhor, a quem chamamos de Deus. Sem crer em Deus, você não pode ser maçom. Além disso, você tem que ter uma vida que seja uma vida virtuosa, que as pessoas conheçam, e que você tenha um profundo carinho com a família. Esses envolvimentos foram motivados por uma política pessoal; ela não é da instituição. O Grande Oriente do Brasil é totalmente apolítico e apartidário. Só que a maçonaria participa, sim, da vida política nacional. Para se ter uma ideia, e poucas pessoas sabem disso, a maçonaria teve participação fundamental na abolição da escravatura, na Independência do Brasil e na criação da República. O papel da maçonaria no Brasil, além de participar institucionalmente da vida nacional, é procurar fazer o bem e amenizar as condições de sofrimento e necessidade de toda população brasileira indistintamente.
aQui: Cite alguns exemplos.
Ricardo: A maçonaria tem uma atuação muito firme nas questões sociais. Participa de Santas Casas que atendem pessoas, das APAEs que atendem alunos com necessidades especiais, de creches que atendem crianças que não tem condições de estudar. De orfanatos, hospitais superespecializados, como o Hospital do Câncer de Barretos, que conta com um grande apoio da maçonaria. O hospital de Sorocaba, considerado um dos melhores do mundo, é gerido pela maçonaria. O de Bauru, para crianças com lábio leporino, é gerido pela maçonaria. Esse é o papel da maçonaria. Temos a fraternidade Cruzeiro do Sul, que envolve 20 mil mulheres fazendo assistência – fazem lençóis para creches, asilos, orfanatos, hospitais, e até sapatinhos e blusinhas de bebê, além de atividades para arrecadar fundos e comprar várias coisas. Essas pessoas chamamos de cunhadas, pois são casadas com maçons que são reconhecidos como irmãos, que doam seu tempo fazendo tricô com sapatinhos de lã para levar em Hospitais públicos, enfim, é muito legal você ver esse tipo de trabalho.
aQui: Como ex-vereador e ex-presidente da Câmara de Barra Mansa, como analisa o papel da maçonaria no Sul Fluminense?
Ricardo: Eu analiso como um papel importante. Nós temos vários órgãos na região que são geridos e têm o apoio da maçonaria. Temos em Barra Mansa a Santa Casa, o SOS em Volta Redonda, a Apae, o Lar dos Velhinhos. Na região toda temos participação. É importante que o papel dela seja visto não só nessa parte de assistência, mas também exercendo um papel político apartidário. Temos muitos irmãos que já participaram de administrações públicas e muitas pessoas sequer sabem que são maçons. Então esse é o papel da maçonaria, continuar praticando a benemerência, assistência e tentar fazer com que as condições de vida de toda a população possam melhorar através de uma atuação discreta, mas bem presente na vida do Sul Fluminense.
aQui: Pretende visitar as lojas maçônicas da região como Volta Redonda e Barra Mansa? Ricardo: Sim, eu quero ter a oportunidade de visitar várias lojas como presidente da Assembleia Federal. Só que o nosso tempo fica mais difícil, pois temos que praticamente andar por todo o Brasil.

