Mateus Gusmão
As notícias de abuso sexual que teriam sido realizados pelo anestesista Giovanni Quintella Bezerra, 32, seguem assustando e gerando revolta. Principalmente em Volta Redonda, onde o acusado se formou, em 2017, no curso de medicina do UniFOA, tendo atuado como estagiário no Hospital do Retiro, como revelou o aQui com exclusividade na edição passada. Tem mais. O médico também fez o internato – estágio obrigatório – no Hospital São João Batista, a maior unidade pública do Sul Fluminense.
Giovanni segue preso de forma preventiva no presídio de Bangu 8, no Rio. Vale lembrar que ele foi detido em flagrante por estupro de vulnerável após ser filmado abusando de uma paciente na hora da cesariana. Ele, que foi o anestesista da cirurgia, aumentou a dosagem do sedativo e introduziu o pênis na boca da vítima. O crime ocorreu no Hospital da Mulher de São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
A Polícia Civil analisou a filmagem do parto – feita pela equipe de enfermagem do hospital –, que tinha mais de uma hora e 30 minutos. O médico teria feito sete aplicações de sedação na vítima. Pior. Após o pediatra e o marido da vítima terem deixado a sala de parto, Giovanni levou apenas 50 segundos para iniciar o abuso sexual, que durou nove minutos e cinco segundos. Detalhe: a Deam de São João de Meriti apura outros cinco supostos casos de abuso envolvendo o anestesista.
Apesar de ter se graduado em Volta Redonda e feito estágio nos dois principais hospitais do município, não há confirmação se Giovanni chegou a trabalhar como médico formado em alguma unidade da região. Morador da Barra da Tijuca, Giovanni era sócio do pai em uma clínica de ginecologia em Vila Isabel, no Rio. Ele também atuava – além do Hospital da Mulher de São João de Meriti – no Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, zona norte do Rio; na Maternidade e Clínica da Mulher, em Mesquita, e no Hospital Municipal Adão Pereira Nunes, ambos localizados na Baixada Fluminense.
Enquanto segue preso, Giovanni teve a suspensão provisória do seu direito de trabalhar como médico pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj). O processo de suspensão permanente deve durar até 180 dias.
Erro médico
Giovanni Quintella também responde na Justiça por suspeita de erro médico. Ele é réu, junto com outros três profissionais, em um caso ocorrido no Hospital Mario Lioni, em Duque de Caxias. No processo, o médico é apontado como um dos profissionais que erraram no diagnóstico de uma mulher que acabou perdendo o dedão do pé e chegou a passar 23 dias em coma. O curioso é que Giovanni nunca apresentou defesa nos autos do processo. A paciente também pede indenização por danos morais.
O caso aconteceu em julho de 2018, quando a paciente procurou atendimento com sintomas de falta de ar, tosse, tontura, delírios, calafrios e dificuldade na respiração. O primeiro diagnóstico de uma médica plantonista foi de infecção urinária. Como não melhorou, a paciente acabou retornando ao hospital onde foi atendida justamente por Giovanni. Segundo o processo, o anestesista reafirmou o diagnóstico de infecção e disse que a paciente estava bem, e que ela estaria com ansiedade.
Com a piora do quadro, a mulher passou a sentir dores fortes de cabeça, nas costas e a tossir com sangue, tendo se consultado com um terceiro profissional do hospital, que a encaminhou para o Hospital de Irajá, na zona norte do Rio, onde foi descoberto que ela estava com H1N1 (gripe suína), com uma pneumonia severa, e apenas 25% dos seus pulmões estavam em funcionamento. Ela ficou em coma por 23 dias. Acabou perdendo o polegar do pé direito em decorrência das complicações, teve o nervo do joelho direito afetado e o tendão de Aquiles precisou ser reconstruído. Além de perda de cabelo, distrofia muscular e perda de memória antiga.
Réu por estupro
O Ministério Público denunciou o médico anestesista à Justiça por estupro de vulnerável, o que pode gerar de 8 a 12 anos de prisão. A denúncia foi aceita pelo juiz Luís Gustavo Vasques, da 2ª Vara Criminal de São João de Meriti. Na denúncia, os promotores apontaram que “o crime foi cometido contra mulher grávida e com violação do dever inerente à profissão”. O MP pediu ainda que fosse decretado sigilo no processo, para preservar e resguardar a imagem da vítima.
Tem mais. O MP destaca que Giovanni agiu de forma livre e consciente. “Com vontade de satisfazer a sua lascívia, praticou atos libidinosos diversos da conjunção carnal com a vítima, parturiente impossibilitada de oferecer resistência em razão da sedação anestésica ministrada”, apontaram. Sustentaram ainda que o denunciado “abusou da relação de confiança que a vítima mantinha com ele, posto que, se valendo da condição de médico anestesista, aproveitou-se da autoridade/poder que exercia sobre ela, ao aplicar-lhe substância de efeito sedativo”

