Por Vinícius de Oliveira
Certamente o leitor já deve ter ouvido falar do TEA (Transtorno do Espectro Autista). Tra- duzindo: o autismo. Não importa a nomenclatura, certo é que hoje todo mundo conhece pelo menos uma pessoa diagnosticada com o transtorno. Para se ter uma ideia, entre 2017 e 2021, o censo escolar brasileiro registrou um aumento de 280% no número de estudantes com TEA matriculados em escolas públicas e particulares do Brasil. Além disso, um levantamento feito pelo Center for Di sease Control and Prevention dos EUA, divulgado pela revista Unesp, mostrou que em 2022 uma a cada 44 crianças são portadoras de TEA. Se a proporção for adaptada para a população volta- redondense, isso resultaria em um contingente de seis mil autistas.
Nem todos estão matriculados na rede pública, é claro. Mas muitos dos que estão sofrem com a falta de atendimento que garanta uma inclusão efetiva dentro do espaço escolar. Conforme apura- do pelo jornal, alguns deles, inclusive, estão fora da escola esperando a chegada de cuidadores. Tem mais. Embora a Secretaria de Educação de Volta Redonda não oriente a dispensa desses alunos, muitos pais estariam preferindo que os filhos fiquem em casa, pois sabem que o professor, sozinho, não dará conta de cumprir o cronograma escolar e ainda atender às necessidades de uma criança neurotípica sem ajuda de um cuidador. Mas tem um detalhe: nem todas as crianças com laudo e com indicação do médico para cuidador têm direito a ele. Quem decide é a SME. “Não temos condições de atender a todos os pedidos dos médicos”, informou rapidamente uma funcionária da área, que pediu para não se identificar. “As crianças passam por uma avaliação interna e só então a escola e a família saberão se a criança terá direito a cuidador ou não”, completou.
A revolta dos familiares é tão grande que na quinta, 29, alguns pais e mães chegaram a marcar um ato de protesto para a Praça Sávio Gama, contra o que chamaram de “descaso na Educação Pública” de Volta Redonda. Compondo o bloco dos insatisfeitos estava Rafael Marques, o pai que recentemente gravou um vídeo, aos prantos, denunciando a falta de cuidador para seu filho enquanto ameaçava enforcar o secretário de Educação. Mas na hora H ninguém apareceu. Chegaram a mudar o local da manifestação, mas, mesmo assim, o público preferiu ficar em casa…
Mas, enquanto a Secretaria de Educação de Volta Redonda não consegue dar conta de atender às demandas pedagógicas de todos os alunos matriculados na rede e que dependem de esquemas específicos de inclusão, no coração do Hospital do Retiro, o projeto ‘Laço Azul’ vem transformando vidas e desafiando os limites do cuidado infantil. Sob a batuta de Márcia Cury, diretora geral da unidade, o projeto surge como um farol de esperança para centenas de famílias que enfrentam os desafios de ter em casa uma criança com Transtorno do Espectro Autista.
Desde a sua concepção, em 2022, por iniciativa do neuropediatra Bruno Inácio, o ‘Laço Azul’ tem sido uma resposta vital à crescente demanda por serviços especializados para crianças com TEA em Volta Redonda. “Oferecemos um serviço de qualidade e com um projeto terapêutico criado especificamente para cada paciente. Nosso objetivo é sempre prestar um serviço completo e humanizado, orientando e apoiando os pais e cuidadores a lidarem com todas as particularidades das crianças autistas e melhorar a qualidade de vida de toda a família”, explicou Márcia Cury.
Com uma abordarem multidisciplinar e um compromisso inabalável com o bem-estar dos pequenos, o projeto atua como um oásis de suporte e orientação em um espaço com 12 salas, entre elas, sala de integração sensorial, sala de terapia de educação e apoio emo- cional aos pais e cuidadores e salas de atendi- mento profissional especializado. “Contamos com 14 profissionais compondo a equipe: médico pediatra, neuropediatra, psiquiatra infantil, psicólogo, fonoaudiólogo, educador físico, terapeuta ocupacional, psicopedagoga, serviço social e enfermeira. Estes profissionais atuam no diagnóstico do TEA; na avaliação clínica comportamental, desenvolvimento da fala, na ajuda a introduzir manter e melhorar as habilidades das crianças, das necessidades mais básicas às mais complexas, serviços de educação física especializado, serviços de bucomaxilo e de identificar as dificuldades de aprendizagem ”, completou Márcia Cury, salientando que o projeto atende em média 300 crianças, realizando mais de 1200 procedi- mentos por mês.
Questionada se a equipe do Hospital do Re- tiro não poderia dar uma mãozinha para a Secretaria de Educação, Márcia Cury disse que já existe uma parceria entre as duas se- cretarias. “Hoje o projeto da Rede de Atenção às pessoas com deficiência no município já funciona em parceria com a Secretaria de Educação, seguindo o fluxo e formulários de investigação, definido em parceria com os técnicos das secretarias no qual o HMMR faz parte. A Escola e a Unidade Básica de Saúde ou da Família do bairro onde a criança reside têm papel preponderante neste processo. São funda- mentais para que a referência se efetive qualificada e integralmente”, garantiu

