Por Mateus Gusmão
Ontem, sexta, 8 de março, foi celebrado em todo o mundo o Dia Internacional da Mulher. A data simboliza a luta das mulheres por condições equiparadas às dos homens. Nesse dia, empresas darão chocolates para suas colaboradoras, políticos farão publicações na internet para falar da importância delas na sociedade, e lojas distribuirão flores para suas clientes. Mas, apesar da celebração, as mulheres ainda estão longe de terem igualdade com os homens. Pelo menos na política volta- redondense.
É que, dos 21 vereadores de Volta Redonda, nenhum é mulher. E olha que elas representam a maioria (53%) da população da cidade do aço. Das últimas três legislaturas (2013-2016; 2017- 2020; e 2021-2024), apenas duas mulheres fizeram parte do Poder Legislativo – América Tereza e Rosana Bergone. Pior. Para a próxima eleição, de 6 de outubro, existe uma enorme possibilidade de novamente nenhuma mulher ser eleita para o Parlamento local.
O aQui procurou
alguns vereadores para tratar do tema. Eles apontam – sob anonimato – que realmente será difícil a eleição de uma mulher em 2024. Para começar, afirmam que a lei dos 30% de candidatas nas ‘nominatas’ (chapa de candidatos de cada partido) não diz nada. Por um motivo: a maioria é candidata só para preencher a tal obrigação. “Ainda é difícil encontrar mulheres que disputem de fato a eleição para vencer. Muitas entram pra fazer número. Se em cada partido tiver uma boa de voto, talvez seja muito”, avaliou um experiente parlamentar.
Segundo a avalição dos demais ouvidos pela reportagem, as mulheres com mais chances de chegarem ao Legislativo seriam as secretárias do governo Neto: Carla Duarte (da Assistência Social) e Rose Vilela (Esporte e Lazer). Outra com chance seria a assessora parlamentar de Jari, Gisele Klinger. Disputada por partidos para ser candidata em 2024, a presidente da Associação de Moradores da Vila, Quênia Fernanda, também estaria despontando na disputa.
“A aposta é que teremos novamente pouca renovação no Legislativo na próxima eleição. Os partidos acabam sendo montados para os que já têm mandato e, principalmente, voto”, ponderou um dos vereadores ouvidos. “Vou te dar o exemplo da Carla Duarte: ela tem uma máquina na mão, que é a Assistência Social, mas nunca foi candidata. Não sabemos seu potencial de voto, pois até o momento ela não demonstra que saberá transformar a pasta que tem em votos. Acho que ainda vamos ter uma Câmara apenas masculina no próximo ano”, completou, lembrando que seu nome não deve ser citado.
“Deveria ser uma mulher”
Por não ter sequer uma parlamentar mulher na Câmara de Volta Redonda, a presidência da Comissão Permanente de Direitos da Mulher é ocupada por um homem: o jovem vereador Hálison Vitorino (PSD). Em entrevista ao aQui, o parlamentar destacou que é importante incentivar a participação feminina na política. “Minha missão como presidente da Comissão de Direitos da Mulher é investir, de fato, em campanhas pela participação feminina, com incentivo e respeito à mulher na política. A presidência dessa Comissão deveria ser ocupada por uma mulher, mas, infelizmente, nosso Legislativo Municipal não conseguiu eleger uma representante”, comparou. Vitorino destacou ser casado e pai de uma menina, o que, segundo ele, o fez aceitar o desafio de ocupar a comissão voltada aos direitos das mulheres e promover a participação feminina na política. “Estamos, inclusive, à frente do Programa ‘Empoderadas’, do governo do Estado, justamente com esse foco. Temos que derrubar as barreiras sociais e culturais na prática. Fazermos o dever de casa ensinando nossas filhas e filhos que o lugar da mulher pode e deve ser na política”,
completou.
“É uma vergonha”
O aQui procurou também a presidente da OAB-VR, Carolina Patitucci, para tratar do assunto. “É uma vergonha”, resumiu, ao analisar que na cidade do aço nenhuma mulher ocupa uma cadeira no parlamento. “É estarrecedor uma cidade em que mais de 50% dos eleitores é mulher não ter sequer uma vereadora. Isso é de impactar”, destacou a advogada, que irá criar na OAB um projeto para incentivar candidaturas femininas.
Carolina lembrou que o prédio do Senado, em Brasília, foi inaugurado em 1960, mas apenas em 2015 foi construído um banheiro feminino para atender às parlamentares. “Isso é uma simbologia do tipo: aqui não é lugar para vocês”, disse, ressaltando que a política institucional atua para manter os espaços
Carolina Patitucci: ‘Não seremos laranjas’ ocupados por homens. “Existe uma questão cultural e, ainda, preconceito. Houve avanços na legislação, as cotas de gênero (de 30%), mas não alterou a quantidade de mulheres eleitas. Descobriram que muitas candidaturas eram laranjas, apenas para cumprir a lei. O TSE tem ficado em cima disso”, comentou.
A advogada – que foi convidada a sair candidata à Câmara este ano, mas não aceitou – disse que já ouviu homens pontuarem que as mulheres não querem participar de política. “Nós queremos participar, mas quando somos chamadas para compor uma legenda, somos usadas como ‘laranja’ ou para ajudar a eleger um homem. Não existe um incentivo efetivo para as mulheres. A lei diz que o fundo eleitoral tem que destinar 30% para as candidaturas de mulheres. Até verbas recebidas por candidaturas de mulheres às vezes são desviadas para candidaturas de homens”, acrescentou.
Carolina também procura incentivar que mulheres votem em mulheres. “Não que sejamos contra homens, não é isso, mas nós mulheres não estamos sendo representadas. Em uma pauta de violência doméstica, por exemplo, uma mulher tem muito mais o que falar para debater o tema”, pontuou. “Estou em contato com a Justiça Eleitoral para ver se conseguimos uma parceria para estas eleições. Eu quero abrir um canal de denúncia de candidaturas laranja de mulheres e assédio eleitoral. Queremos ser mais uma ponte de recebimento dessas denúncias para tomar as atitudes cabíveis”, afirmou.
Ela foi além. Disse que espera abrir um espaço de debate dentro da OAB-VR, durante o período eleitoral, para que as mulheres possam apresentar suas propostas, dando lugar para essas candidatas. “Queremos incentivar as candidaturas femininas, mostrar que é importante. É algo simbólico. É uma vergonha não termos uma vereadora em Volta Redonda, essa cidade que tem uma história tão bonita de lutas”, finalizou.

