Pollyanna Xavier
A bucólica Rio Claro, a 128 km da capital, entrou no radar de um empresário carioca do ramo de gráficas. Samuel Alves tem investido pesado para transformar uma propriedade particular de 51 hectares em Passa Três, no alto da Serra do Piloto, numa estância turística com ares europeus. O investimento – cujo valor total não foi divulgado – contempla a construção de um restaurante, chalés, uma cachaçaria e uma refinaria para extração de óleo do abacate para fabricação de azeite. A empreitada não para por aí. A propriedade disporá, pasmem, de um aeroporto para pousos e decolagens de aviões de pequeno porte ou de peso pequeno, com o aval da Anac e o licenciamento obrigatório dos órgãos ambientais. A previsão de inauguração é até dezembro deste ano.
De todas as construções, os chalés e o aeroporto estão mais avançados. Este último estava praticamente pronto, mas precisou passar por uma nova vistoria da Anac, que exigiu alterações nas medições do solo e da cabeceira. A obra terá uma pista de 500 a 600 metros por 18 metros de largura e poderá receber aeronaves de até quatro lugares. Além desta pista, a estância terá um heliporto para pousos e decolagens de helicópteros. O investimento, sem dúvida, está na vanguarda de muitas cidades da região, inclusive Volta Redonda, que há anos não consegue decolar com seu aeroporto que tem até nome, o de Luiz Albertassi, patriarca da família Albertassi, mas não tem teto.
Em entrevista exclusiva ao aQui, Samuel Alves detalhou os planos para Passa Três, distrito de Rio Claro. Disse que pretende inaugurar a estância o mais breve possível. O local vai oferecer um tour pelas plantações de morango e uva (de mesa), com direito a degustação. “No final do ano passado nós já fizemos a primeira colheita do morango. Quanto às uvas, temos 1.200 pés plantados e acredito que entre dezembro deste ano e março de 2026 vamos dar início à colheita. A ideia é que o visitante participe desta colheita como parte das atividades que vamos oferecer”, contou.
Outra novidade é que o local, além de um restaurante, terá também uma pizzaria, uma fábrica de chocolate, uma rampa para voo livre e ainda um viveiro gigante para criação de aves exóticas. O processo de licenciamento para criação destas aves já foi iniciado junto aos órgãos ambientais estadual e federal. “Vamos fazer de Passa Três um corredor cultural e turístico. O clima é agradável e favorável à agricultura e ao voo livre, além de ser uma excelente opção de descanso e lazer para quem sai do Rio em busca de sossego no interior. Hoje, as pessoas vão para Penedo, mas é longe da capital. Nossa opção será mais perto e bastante atrativa”, prometeu.
Segundo o empresário, a prefeitura de Rio Claro abraçou o projeto e tem atuado na desburocratização do investimento, contribuindo para que ele saia do papel com segurança e agilidade. “O prefeito Babton abraçou nossa ideia e está bastante empolgado. Como compensação ambiental, já assinamos os termos e vamos reflorestar alguns pontos de Rio Claro. Quanto à estância, vamos inaugurar aos poucos. A pista para pousos e decolagens, por exemplo, vamos tentar concluir em maio, assim como o restaurante e os chalés. As demais obras vão acontecendo aos poucos. Sou um sonhador e pretendo realizar tudo o que planejei”, concluiu.

Aeroporto de Volta Redonda pode nunca sair do papel
Enquanto Rio Claro está muito perto de ter um aeroporto (ainda que particular), Volta Redonda – cuja população é cem vezes maior – está muito aquém disto. O projeto da cidade do aço está agarrado no Fórum de Piraí, por conta de uma ação de desapropriação. Em 2011, a União liberou R$ 8,6 milhões para que o então governador Sérgio Cabral desapropriasse o terreno e desse início a empreitada. Mas, passados quase 16 anos, o projeto não decolou.
O aeroporto regional do Sul Fluminense (este é apenas o nome genérico, porque o local chegou a ser batizado pela Alerj de Aeroporto Luiz Albertassi, avô do ex-deputado Edson Albertassi) ocuparia uma área de 1,6 milhão de metros quadrados no bairro Roma, na divisa entre Volta Redonda e Piraí. Nela, seriam construídas duas pistas de pouso e decolagem, um pátio de aeronaves com cerca de 20 mil metros quadrados, além de uma pista de taxiway (faixa em que a aeronave pode taxiar para outro local, como um hangar, saindo da pista de pouso e decolagem em velocidade elevada). Além de uma pista principal com 2,2 mil metros por 30 metros de largura (faixa com 8 linhas), com área de giro nas duas cabeceiras, para grandes manobras.
As dimensões, acredite, são suficientes para receber aviões de médio porte com capacidade de 120 a 150 passageiros. Em 2009, a obra chegou a ser incluída na atualização do Plano Aeroviário do Estado do Rio de Janeiro, com validade até 2022. Em 2010, o governo do Estado assumiu o projeto. Na época, Sérgio Cabral publicou o decreto de desapropriação e buscou regularizar o aeroporto junto à Anac. Não conseguiu por dois motivos: o primeiro é que a Anac só homologa obras prontas (e ninguém parecia saber disso), e o segundo é que o dono do terreno entrou na Justiça contestando a desapropriação. A questão segue emperrada no Fórum de Piraí.
Só para efeito de comparação, em 2014, quando Moreira Franco (ex-governador do Rio) era ministro da Secretaria de Aviação Civil, foi apresentado o projeto dos aeroportos de Cabo Frio, Angra dos Reis e Volta Redonda, com a expectativa de que as obras fossem iniciadas no final daquele ano. Na mesma apresentação, foram mostrados os projetos técnicos dos aeroportos de Paraty, Nova Friburgo, Resende, Macaé, Campos e Itaperuna. Destes, apenas Macaé e Cabo Frio foram concluídos e estão em plena operação. O restante não conseguiu alçar voo. Na verdade, sequer atingiram velocidade para decolar.
Enquanto isso, projetos muito mais novos estão saindo do papel, como esse de Passa Três, encabeçado pelo empresário carioca Samuel Alves, que quer transformar o pequeno distrito de Rio Claro em uma rota importante para o turismo fluminense. “Eu sou um piloto que tenho um sonho (…) nosso aeroporto será modesto, mas contará com todas as medidas exigidas pela Anac para pousos de emergência até de grandes aeronaves. Estamos fazendo tudo o que manda a legislação, e nossa intenção é inaugurar boa parte do nosso projeto até o final do ano”, destacou Samuel.

