Pacientes levam até 3 horas para serem atendidos em VR

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Aplicado pela primeira vez no Brasil em 2008, em um hospital de Minas Gerais, o Protocolo Manchester prometia um atendimento rápido, capaz de esvaziar as recepções das unidades de saúde em pouco tempo. Na prática, não é o que ocorre. Pelo menos foi o que aconteceu no domingo, 14, em dois hospitais de Volta Redonda: o ICC (antigo Vita) e o da Unimed, com uma mulher que, no primeiro, desistiu de ficar esperando ser chamada logo ao entrar na unidade. Estava superlotada. No segundo, ela teve de esperar duas horas e meia para que seu filho – um bebê de um ano – fosse atendido na pediatria, pois estava com febre alta. Detalhe: o quadro do bebê piorou enquanto esperava a sua vez.
A mulher, que não terá o nome divulgado, é médica e procurou os dois prontos-socorros porque seu filho estava com uma tosse persistente e apresentou febre durante todo o dia. Depois de desistir do ICC, “que estava superlotado”, ela recorreu à Unimed, onde esperava ser mais bem atendida. Ledo engano. Ao chegar, ela foi encaminhada para a triagem com uma enfermeira, e a criança recebeu uma pulseirinha verde – que no Protocolo Manchester indica pouco urgente. “Meu filho estava com 38o de febre, mas a recepção não estava cheia, não havia muitas crianças. Imaginei que seríamos atendidos rapidamente, mas percebi que eles chamaram até crianças que chegaram depois da gente e que também estavam com a pulseirinha verde”, lembrou.
Com o passar do tempo, a médica ficou preocupada, porque o quadro febril do bebê piorava e ele não era chamado. O marido chegou a perguntar na recepção quantas crianças estariam na frente e foi informado que apenas duas. Porém, outras seis crianças foram atendidas, com pulseiras verdes e amarelas (risco médio). Já irritada com o Hospital Unimed, a mãe retornou à triagem, verificou novamente a temperatura da criança – passava dos 39o, o que levou à troca da pulseira verde pela amarela. Mesmo assim, o atendimento ainda demorou mais de meia hora. Foi preciso que o pai do bebê recorresse à enfermagem da unidade, relatasse o problema e o tempo de espera, para que a criança fosse finalmente atendida.

O Protocolo Manchester é um sistema de classificação de risco que avalia o grau de urgência do paciente no atendimento médico. É comum o seu uso nos hospitais particulares e até no SUS, como nos hospitais de Volta Redonda, com a diferença de que não há distribuição de pulseiras. Mas a condição de saúde do paciente é registrada no sistema, após a triagem, e ele é chamado aos consultórios médicos conforme a gravidade do quadro. No Manchester, a escala de risco é representada por cinco cores diferentes, onde o azul é a condição menos urgente e o vermelho é a mais urgente, com risco de morte, caso o paciente não seja atendido imediatamente. As demais cores são: verde (pouco urgente), amarelo (risco médio) e laranja (urgente).
O aQui entrou em contato com o Hospital da Unimed Volta Redonda para saber a razão da demora no atendimento do pronto-socorro e se a unidade está com carência de pediatras. Em resposta, a Unimed confirmou que “utiliza o sistema de classificação de prioridade baseado no uso do Protocolo Manchester e que os pacientes passam pela triagem de um enfermeiro classificador”. Garantiu que o profissional é treinado pelo Grupo Brasileiro de Classificação de Risco e que, além dele, “a equipe do hospital também participa, constantemente, de capacitações internas”.
Questionado se o protocolo é auditado e quem o fiscaliza, a Unimed informou que isso é feito pelo próprio Grupo Brasileiro de Classificação de Risco, que, além de treinar, também audita o sistema e avalia “a assistência prestada”. Justificou ainda que “o tempo de espera no pronto- socorro está elevado por conta do alto número de casos de dengue no município”, e que, em função disso, “ampliou o pronto-atendimento pediátrico, criou um espaço provisório e exclusivo para atendimento de casos de dengue em adultos, reativou um andar com 29 leitos e contratou mais médicos”.
Quanto ao caso específico da médica e do bebê que levou horas para ser atendido, a Unimed pediu que o jornal a identificasse para que o “Escritório de Experiência do Cliente” pudesse entrar em contato com ela para acompanhar o caso. “Estamos à disposição dos familiares”, avisou. A identidade do paciente e da mãe, porém, não será revelada. A questão não é essa. E, sim, uma falha num protocolo que foi criado e implantado para dar agilidade no atendimento prioritário. Afinal, ninguém procura um hospital quando está saudável.