*Por Ricardo Almeida
Quando pensamos na herança deixada pelos nossos avós, quase sempre lembramos de fotografias antigas, receitas de família, histórias repetidas à mesa ou algum objeto guardado com carinho. Tudo isso tem valor, mas talvez represente apenas a superfície de um legado muito mais profundo.
Com a proximidade do Dia dos Avós, celebrado em 26 de julho, é essencial compreender que a maior herança que recebemos deles dificilmente cabe em um inventário, ela está na forma como enxergamos o mundo.
Cada geração transmite muito mais do que patrimônio, transmite maneiras de interpretar a realidade. A coragem diante da dificuldade, a forma de lidar com o dinheiro, o respeito pela palavra dada, o medo de determinados riscos, a fé, a desconfiança, a disciplina, a generosidade.
Mesmo quando acreditamos estar tomando decisões exclusivamente nossas, carregamos conosco uma longa cadeia de influências que começou muito antes do nosso nascimento. Isso não acontece apenas dentro das famílias.
Toda civilização é construída dessa maneira. Continuamos sendo influenciados por filósofos, artistas, cientistas e líderes que morreram há séculos. Suas ideias permanecem organizando nossa forma de pensar sem que, muitas vezes, sequer percebamos sua presença.
Com nossos avós ocorre o mesmo, mas de maneira ainda mais íntima. Mesmo quem pouco conviveu com eles recebeu, de forma direta ou indireta, parte de sua maneira de existir. Um avô influencia um filho, que influencia um neto. Uma escolha atravessa gerações. Um valor sobrevive ao tempo. Uma história contada inúmeras vezes transforma-se em identidade familiar.
Talvez por isso seja tão importante conhecer quem veio antes de nós. Não apenas por respeito à memória, mas porque compreender nossos ancestrais é compreender parte de nós mesmos. Muitas das respostas que buscamos sobre quem somos começam muito antes da nossa própria história.
Em uma época em que somos estimulados a acreditar que cada indivíduo se constrói sozinho, vale lembrar que ninguém nasce do zero. Somos resultado de inúmeras vidas que continuam ecoando através da nossa.
Talvez esse seja o verdadeiro significado de legado: não aquilo que alguém deixa para trás, mas aquilo que continua vivendo adiante e talvez seja essa a forma mais humana de imortalidade.
Ricardo Almeida é CEO do Clube de Autores e autor de “Testamento – A imagem e o tempo: uma travessia metafísica“

A longevidade floresce nos encontros e no amor
* Walmir Luiz Becker
No Dia dos Avós (26/07), celebramos muito mais do que um laço de parentesco. Celebramos a sabedoria que o tempo oferece, o carinho que atravessa gerações e a oportunidade de compartilhar a vida com aqueles que representam, ao mesmo tempo, nossa história e o nosso futuro.

Quando somos jovens, acreditamos que a vida se mede pelos anos que ainda temos pela frente. Com o tempo, descobrimos que ela passa a ser medida pelas lembranças que construímos e pelas pessoas que permanecem ao nosso lado. É nesse momento que os netos deixam de ser apenas uma continuação da família para se tornarem um presente que a própria vida nos oferece.
Há quem pense que envelhecer é perder. Perdem-se algumas forças, a agilidade já não é a mesma, os dias parecem correr mais depressa e o espelho insiste em nos lembrar da passagem do tempo. Mas a velhice também concede um privilégio raro: ela nos ensina a enxergar o essencial. E poucas coisas são mais essenciais do que ver um neto crescer.
Os netos têm a curiosa capacidade de devolver cor ao cotidiano. Um simples abraço deles parece diminuir o peso dos anos. Talvez isso aconteça porque os avós já não carregam a urgência que acompanha a juventude. Os pais vivem cercados por responsabilidades, horários e preocupações. Aos avós, muitas vezes, cabe o privilégio de viver o encontro. Basta estar presentes.
A longevidade não deveria ser celebrada apenas pelo número de anos alcançados. Viver muito só faz sentido quando ainda somos capazes de cultivar afeto, curiosidade e encantamento. Não é a idade que nos torna verdadeiramente velhos, mas a incapacidade de continuar aprendendo com a vida. E, curiosamente, poucas pessoas nos ensinam tanto quanto uma criança.
A vida é feita de muitos caminhos, encontros e despedidas. Há sonhos realizados e outros que ficaram pelo caminho. Há alegrias que permaneceram e dores que o tempo tratou de suavizar. Mas, se pudesse resumir aquilo que realmente permanece, diria que são os vínculos. No fim das contas, não levamos conosco os bens que acumulamos, mas o amor que conseguimos semear.
Os netos representam essa continuidade silenciosa. São a prova de que a vida segue seu curso, renovando esperanças mesmo quando já imaginávamos conhecer todas as respostas. Neles existe um pouco de nós, mas também muito do futuro que jamais veremos por inteiro. E isso basta para nos confortar.
Walmir Luiz Becker é poeta e autor dos livros “Fragmentos de Poesias – Desvivências” e “Entrelinhas”.
Redução da Idade Penal: Entre a Hipocrisia e a Necessidade
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Agora, a matéria seguirá para análise em comissão especial antes de ser votada em dois turnos no Plenário.
O tema é recorrente no Congresso e amplamente defendido pela sociedade brasileira. Segundo pesquisa da Empresa Real Time Big Data, realizada em 05.05.2026, 90% dos entrevistados apoiam a redução da maioridade penal para 16 anos.
Trata-se de uma questão polêmica que exige reflexão honesta. O argumento de que a diminuição da idade de imputabilidade não resolveria a criminalidade juvenil não se sustenta. Afinal, a prisão dos maiores de idade também não elimina a criminalidade, mas cumpre o papel de afastar da sociedade aqueles que praticam delitos, impondo punição pelas transgressões cometidas. É preciso pensar no futuro das crianças e adolescentes desde cedo, ensinando-lhes responsabilidades.
A escalada da criminalidade juvenil não pode mais ser tratada como caso isolado. O problema requer postura firme das autoridades, independentemente da resistência de defensores dos direitos humanos que, muitas vezes, ignoram a realidade. A responsabilidade penal deveria começar mais cedo, estimulando os pais a se preocuparem com a educação de seus filhos. A rejeição à redução da idade penal, na prática, favorece apenas os infratores.
Pergunta-se: se menores infratores passassem a violentar políticos e seus familiares, será que os defensores da irredutibilidade da idade penal manteriam o mesmo discurso? Atribuir a culpa exclusivamente a problemas sociais é um pretexto frágil. O jovem delinquente, independentemente da condição social, pratica crimes porque sabe que a legislação vigente é leniente e ultrapassada. A redução da idade penal é uma necessidade diante de uma sociedade de jovens mais informados e conscientes de seus atos.
Na Inglaterra, país de primeiro mundo, a responsabilidade penal começa aos 10 anos. Em diversos outros países, a regra é semelhante. Por que no Brasil deveria ser diferente? O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), contrário à redução, defende mais educação e menos cadeia, argumentando que o Brasil tem quase 700 mil presos e a violência não diminuiu. É evidente que a educação é a base do crescimento do indivíduo, mas enquanto não for prioridade dos políticos e governos, não se pode permitir que menores infratores cometam crimes sob a proteção de políticos como Chico Alencar, Talíria Petrone, Maria do Rosário, Sâmia Bomfim e outros.
Entre a liberdade da sociedade pacífica e o delinquente preso, é preferível a segregação deste último, mesmo que aumente a estatística carcerária. Afinal, para onde vai a arrecadação de impostos que não chega à educação dos menores desfavorecidos, futuros alvos da criminalidade? Essa é uma pergunta que os opositores da redução deveriam responder.
Júlio César Cardoso
Servidor federal aposentado

