Atleta de e-Sports ganha projeção nacional no Honor of Kings
Kayky Eduardo Muniz, 20, tinha quatro anos quando ganhou de presente da avó, Adilene dos Santos, 69, um Playstation 2 (PS2). Começava uma febre que virou paixão e, mais do que isso, uma profissão. Afinal, o atleta de Pinheiral é um dos destaques nacionais de e-Sports. Ele é conhecido por Vento no cenário de Honor of Kings (HoK), um dos jogos mais populares do mundo do tipo ‘Multiplayer Online Battle Arena’ (MOBA) – Arena de Batalha Multijogador On-line, em tradução livre. Quando o assunto é salário, ele esconde o jogo. Mas um levantamento do aQui revela que os jogadores das principais equipes de HoK do país faturam cerca de R$ 100 mil por ano, entre salário e premiações por campeonatos, em média.
Vento é um dos cinco jogadores da LOS, uma das principais equipes brasileiras de HoK, atuando como Attack Damage Carry (ADC) – Carregador de Dano Físico, em tradução livre. Trata-se de uma função ocupada pelos heróis atiradores que focam em causar alto dano básico contínuo à distância para carregar a equipe para a vitória nas lutas em equipe. O que requer horas diárias de treinos e dedicação. “Em períodos fora de campeonato, normalmente treinamos cerca de 10 horas por dia, envolvendo treinos contra outras equipes, análise de partidas e preparação individual. Em algum momento a mente acaba cansando, então cuidar do físico também é essencial. A academia faz parte da minha rotina justamente para ajudar a manter o equilíbrio entre mente e corpo”, revela.
A dedicação de Kayky não é à toa, já que o mercado de e-Sports exige alto grau de profissionalização. No Brasil, os últimos dados do setor apontam que esse segmento movimentou R$ 1,3 bilhão no ano passado, catapultado por uma audiência de 20 milhões de espectadores. Faturamento que representou cerca de 10% dos R$ 12,7 bilhões movimentados pela indústria de games no país em 2025. “Acho importante mostrar que o e-Sports não é apenas diversão. Existe muito esforço, disciplina e dedicação por trás de um atleta profissional”, argumenta Vento. Segundo ele, atletas de alguns jogos ganham mais de R$ 20 mil por mês. “O meu paga bem menos”, brinca.
A distância de grandes centros também obriga o atleta a permanecer mais tempo on-line para treinamentos e competições. “A rotina de alguém que trabalha com e-Sports é bastante corrida. Muitas pessoas pensam que é apenas jogar, mas existe muito treinamento por trás. Sobre a família, é uma das partes mais difíceis. Para seguir uma carreira profissional, principalmente estando longe de grandes centros como São Paulo, você acaba precisando abrir mão de alguns momentos presenciais. Atualmente, não vejo minha família desde janeiro, mas entendo que algumas escolhas exigem certos sacrifícios. Faz parte da caminhada para conquistar algo maior”, explica.
Kayky acrescenta que não encontrou dificuldade no Honor of Kings, porque já conhecia o antecessor do jogo, o Arena of Valor, o que também abriu caminho para o atleta chegar ao time brasileiro. “Minha entrada no cenário competitivo aconteceu quando uma equipe precisou de um atirador e entrou em contato comigo. Mesmo sem estar focado no jogo naquele momento, eles acreditaram no meu trabalho e me deram essa oportunidade”, conta.
Caminhos do Vento
O apelido Vento nasceu do gosto de Kayky por temas relacionados a magia, ficção, elementos da natureza e superpoderes. A paixão por jogos, no entanto, pode ser considerada uma herança que remonta os antigos jogos de console. “Minha avó sempre foi fascinada por videogames, desde Atari, PS1, PS2, entre outros consoles. Quando eu tinha quatro anos, ela me deu um PS2 de presente e foi quem me ensinou a jogar diversos jogos, principalmente de puzzle, sequência de cores, números e desafios de raciocínio”, conta.
Os primórdios da paixão de Kayky remontam ao final da década de 70, quando Adilene comprou um Atari para jogar com as filhas, que não deram bola para o aparelho. “Minhas filhas nem gostavam tanto de videogame quanto eu”, lembra a técnica em enfermagem aposentada, que não largava os antigos controles (‘joysticks’) durante suas folgas. Após herdar o PS2 de dona Adilene, Kayky não parou mais.
Com o passar do tempo, ele começou a frequentar a casa de primos e amigos que tinham computador, sendo apresentado ao League of Legends quando tinha aproximadamente nove anos. “Fiquei apaixonado pelo estilo do jogo, principalmente pela estratégia e pelo formato competitivo”, lembra. Sem computador naquela época, Kayky começou a procurar jogos parecidos para celular. “Desde então, joguei praticamente todos os MOBAS mobile que apareceram, como Arena of Valor (AOV), Heroes Evolved, Paladins, Mobile Legends, Wild Rift, Onmyoji Arena, até chegar ao Honor of Kings, atualmente meu foco. Estou apaixonado pelo cenário competitivo”, destaca.
O atleta acrescenta que já buscava oportunidades para entrar em equipes e competir profissionalmente durante a pandemia, mas tinha apenas 14 anos e a maioria dos campeonatos exigia idade mínima de 16 anos. “Assim que completei 16 anos, recebi um convite para participar de uma equipe chamada Liberty e aceitei o desafio, disputando um campeonato de Wild Rift”, lembra. Após o esfriamento das competições de Wild Rift, Kayky decidiu focar nos estudos, sem perceber que já estava sendo sondado pela equipe de Honor of Kings, que precisava de um atirador. “Eles já conheciam meu trabalho desde o Wild Rift e confiaram no meu potencial. Esse foi o começo da minha trajetória no Honor of Kings”, comemora.
HoK
O Honor of Kings é um dos mais populares e mais competitivos jogos MOBA, no qual duas equipes de cinco jogadores se enfrentam para destruir a base adversária. O jogo combina estratégia, trabalho em equipe e habilidade individual, com diferentes personagens e funções dentro de cada time.
Lançado originalmente na China, o HoK chegou oficialmente ao Brasil em março de 2023, sendo o primeiro país fora da China a receber o lançamento internacional completo do jogo. Desde então, o Brasil se tornou parte importante do cenário competitivo, com jogadores profissionais e organizações disputando o ChokBR (brasileiro do HoK), principal campeonato nacional da modalidade.
No cenário internacional, Honor of Kings está entre os principais títulos dos e-Sports mobile. Em julho de 2026, ele foi apontado pela Sensor Tower como o jogo mobile de maior faturamento do mundo. O circuito reúne equipes de diversas regiões e organizações conhecidas do cenário competitivo, com ligas regionais e torneios que classificam jogadores para competições mundiais.
Entre os principais torneios está o Honor of Kings World Cup (KWC), realizado dentro da E-sports World Cup. Em 2026, a competição teve uma premiação de US$ 3 milhões e reuniu algumas das melhores equipes do mundo, mostrando a dimensão profissional e internacional que Honor of Kings alcançou dentro dos esportes eletrônicos.

