Moradores reclamam da polícia, e polícia reclama de moradores

Onda de assassinatos assusta moradores do Complexo do Santo Agostinho. Polícia reage e diz que culpa é de quem não denuncia

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PM quer que moradores utilizem mais o 156 do Disque Denúncia

Por Vinícius de Oliveira

Quem mora ou trabalha no Complexo Santo Agostinho está tendo que ter fé ou muita coragem na hora de sair de casa. Dos 11 homicídios em Volta Redonda registrados em setembro, ao menos oito aconteceram na região. Para vários moradores e para o próprio delegado da 93a DP, Luiz Jorge Rodrigues, o motivo de tanta morte estaria ligado à disputa territorial entre duas facções: Comando Vermelho e Terceiro Comando. “Posso dizer que 99,9% dessas mortes são ligadas à guerra do tráfico”, resumiu o chefe da Polícia Civil durante reunião do Conselho Comunitário de Segurança da cidade, que aconteceu na terça, 26, na sede do 28° Batalhão do Aço.
A disputa pelo tráfico não ocorre apenas no Santo Agostinho, mas também em bairros como Nova Primavera, Caieira, Fazendinha e Açude. No dia 8, por exemplo, quatro jovens foram mortos entre os morros da Conquista e Caviana. Um deles ficou desfigurado. Outra morte violenta que chocou moradores foi a do rapaz que morreu de joelhos na praça de skate do Volta Grande, no dia 19. Detalhe: adolescentes brincavam no local exatamente na hora do crime. Eles viram e ouviram tudo.
As vítimas, na maioria, são negras, com idade até 27 anos, com exceção de um homem de 45 anos que foi alvejado na segunda, dia 25, por 20 tiros na Vila Americana. Os crimes – totalmente imprevisíveis – não têm hora para acontecer. Pode ser pela madrugada ou à luz do dia. Não importa. Os criminosos apenas chegam e descarregam o tambor do revólver.
A bandidagem ameaça a vida e a rotina dos volta-redondenses. Para se ter uma ideia, em agosto, quando a guerra pelo tráfico estava concentrada na Caieiras, onde se desenrolava a disputa pelo domínio do Nova Primavera, a ação dos traficantes, que trocavam tiros entre si, chegou a interromper as aulas da Escola Municipal Mato Grosso do Sul, localizada no meio do confronto. Professores e funcionários relatam os momentos de tensão. “A escola passou a semana toda recebendo ligações dos pais, preocupados. Diziam o tempo todo que ouviam tiros ou que tinham pessoas nas redondezas andando armadas”, contou uma funcionária.
O delegado Luiz Jorge, ao ser questionado na reunião do Conselho de Segurança, não deu detalhes. Reclamou da quantidade de trabalho que a Civil tem para resolver, mas garantiu que estão investigando as mortes. “Assim como investigamos todos os casos da cidade”, disse, frisando que os próprios moradores são responsáveis pelo clima de terror que vivem. “A comunidade não se mexe. Fica igual passarinho. Ninguém liga para o disque-denúncia e, assim, não podemos agir”, reclamou. “Temos apenas 20 policiais para a cidade inteira. Além disso, a gente prende, dias depois a Justiça solta. É muito trabalho. Mas continuarei enxugando gelo, porque gosto do que faço”, pontuou.
O major Francisco Seixas, também presente na reunião, concordou com o delegado. “Se comparada a outras cidades do Rio de Janeiro, Volta Redonda é um paraíso. Não podemos deixar que essa cidade vire o Rio de Janeiro. É preciso denunciar, e os jornais precisam divulgar os números do disque- denúncia. Tempos atrás eu subia as favelas e colocava debaixo das portas folders com o disque-denúncia”, salientou Seixas.
O major Cardoso, representando o comandante do 28° Batalhão, foi pela mesma linha de raciocínio e lembrou que a corporação atua de acordo com a análise de manchas criminais que, em tese, lhes possibilita agir de maneira preventiva e ostensiva. “Nós atuamos por manchas criminais. Precisamos das denúncias para que eu possa direcionar as guarnições. Algumas localidades já estão ocupadas pela PM”, garantiu, sem revelar quais.
Em Barra Mansa, setembro também foi um mês sangrento. Seis pessoas já foram assassinadas e, assim como em Volta Redonda, suspeita-se que essas vítimas estavam envolvidas com o tráfico de drogas. Preocupado com a crescente onda de violência na cidade, o prefeito Rodrigo Drable vem tentando desde o ano passado a vinda do ‘Segurança Presente’, uma iniciativa do governo Estadual que visa aumentar o efetivo de policiais, inclusive da reserva, para atuar em locais estratégicos.
Na cidade do aço, onde há bases do ‘Segurança Presente’ funcionando há mais de um ano,o maior feito do programa foi a redução de furtos e roubos de veículos. Para a prefeitura, os números são positivos. “Assim como foi em julho e agosto do ano passado, os índices de roubos de rua e de veículos, por exemplo, ficaram zerados no mês de janeiro. Também não houve registros de homicídio, roubos de carga e furtos de celular e de veículos. A operação é uma parceria entre a prefeitura e o governo do Estado, e passou a atuar na cidade em julho de 2022”, destaca.
Mas na periferia a realidade é bem diferente. “Estamos largados. Não vemos um policiamento ostensivo, um trabalho de prevenção. Fui falar com o dono da padaria, que vive assombrado pelo tráfico, sobre a importância de denunciar, assim como o delegado nos orientou na reunião, e riram da minha cara. Disse que não adianta denunciar. Ou a polícia não aparece ou os traficantes ficam sabendo”, contou uma moradora, que pediu para não ser identificada.