Mil vezes luto

Volta Redonda atinge triste marca de mais de mil mortes pela Covid-19

Mateus Gusmão

“Pessoal, infelizmente a dona Ângela não resistiu e acabou de falecer”. Foi assim, com essa mensagem pelo WhatsApp, que recebi a notícia do falecimento de minha tia, Ângela Cardoso Ferreira. Foi uma das 1.001 pessoas que morreram pela Covid-19 em Volta Redonda, conforme dados registrados até quarta, 16. Irmã de meu pai, ela – de 78 anos – morreu ao ser extubada. Três semanas depois, seu marido, Djalma Cardoso, 84 anos, também foi vítima da Covid-19. Em menos de um mês (o de abril), meus primos Dênis, Djalma e Dival enterraram seus pais em decorrência do vírus.
A dor de perder um ente querido por conta da Covid-19 já foi sentida por mais de mil famílias na cidade do aço. Outro dado assustador: 31.553 casos da doença foram registrados desde março de 2020. Nos últimos dias, enquanto a vida parece ser normal, enquanto as lojas permanecem abertas (sem clientes), enquanto os shoppings funcionam até às 22 horas, e as pessoas se aglomeram em bares e restaurantes, cerca de 8 volta-redondenses morrem por dia. Morreram 8, na segunda, 8 na terça, 8 na quarta…
O ex-conselheiro tutelar Rodnei Oliveira perdeu sua mãe e seu padrasto para a Covid-19. Eladir Gomes, 79, o padrasto, morreu no dia 17 de abril e sua mãe, Aparecida de Souza Oliveira, 56, no dia 25 de abril. “Meu mundo desabou”, disparou, aproveitando para revelar que Eladir chegou a tomar a primeira dose da vacina, mas tinha diversas comorbidades. Ficou internado 15 dias, até falecer.
Sua mãe, dona Aparecida, não chegou a tomar a primeira dose (para a sua idade, a vacinação só começou essa semana). “Minha mãe foi internada em 2 de abril, mas já havia sido atendida em pronto-socorro em outros dias. Quando a médica me disse que ela estava com 80% dos pulmões comprometidos, bateu um desespero enorme”, contou, emocionado, ressaltando que quando ela foi encaminhada para a UTI, disse à mãe que “daqui a pouquinho” iria buscá-la. “Não imaginava que ali começariam os piores dias da minha vida”, completou.
Segundo Rodnei, sua mãe ficou 10 dias entubada e conseguiu sair do tubo. Só que, no dia do falecimento do seu esposo, mesmo sem ser informada, ela teve uma piora. “Ela não sabia que meu padrasto estava internado, e no dia em que ele faleceu, ela teve uma regressão e foi entubada novamente. Parece que ela sentiu que ele havia falecido”, contou. “No dia 23 de abril, o médico me disse que estaria entrando com a última medicação possível, e que as próximas 72 horas seriam primordiais. Mas ela não reagia mais”, disse.
Dois dias depois, em 25 de abril, Rodnei foi chamado pelo Hospital Santa Cecília, onde ela estava internada. “Eu já sabia do que se tratava. Meu mundo desabou. Foram os piores dias da minha vida, um sentimento de impotência”, disparou. “Minha revolta é maior em saber que ela poderia ter tido a oportunidade de ter tomado a vacina. Ela não teve essa chance porque a vacina não chegou a tempo”, completou, de forma decepcionada.
Rodnei aproveitou para mandar um recado para quem ainda não acredita na pandemia, que vive como se nada estivesse acontecendo. Como se Volta Redonda não tivesse perdido 1001 pessoas na guerra contra a Covid. “A pessoa só acredita quando chega na sua família. Não vale a pena pagar para ver. E olha que minha família tomava todos os cuidados. Sinceramente, o povo está pagando para ver”, disse, referindo-se às aglomerações que acontecem na cidade. “Infelizmente, minha família está fazendo parte da história triste e de terror em que estamos vivendo. Não deixe que a sua família também faça parte”, implorou Rodnei.
Mensagem
No dia em que a cidade do aço chegou a 1.001 mortes, o prefeito Neto fez um post nas redes sociais prestando solidariedade aos amigos e parentes das vítimas da Covid-19. “Estamos trabalhando para vencer a pandemia. Já aplicamos mais de 140 mil doses de vacina e estamos em busca de cada vez mais novas doses. Somos a segunda cidade do estado que mais vacina. As internações estão caindo e o índice de contágio também, mas sabemos que precisamos todos continuar fazendo nossas partes”, justificou, aproveitando para pedir que as pessoas continuem adotando medidas de prevenção. “Em memória de todas as vítimas, peço muito que usem máscara, evitem aglomerações, higienizem as mãos com álcool em gel. Estamos em busca de mais vacinas, pois com a ciência ao nosso lado e seguindo as regras vamos vencer a pandemia”, destacou.
Em outro momento, em releases, Neto anunciou que Volta Redonda teria ultrapassado a marca de 140 mil doses aplicadas da vacina: 103 mil de primeiras doses e 37 mil da segunda dose. E, aproveitando modelos de outros municípios, divulgou que a secretaria de Saúde iria adotar um calendário de vacinação da primeira dose por faixa etária. Ao contrário do que foi feito por cidades como o Rio de Janeiro, o calendário não seria diário. É mensal.
Segundo a pasta, que passou os últimos meses sob intenso tiroteio em virtude da demora em aplicar as vacinas e nas confusões que criou com a vacinação em si, até o final de junho serão vacinadas as pessoas de 55 a 59 anos. Em julho, pretende vacinar todos os adultos de 45 a 54, mais os trabalhadores da limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos. Em agosto, crê vacinar todas as pessoas de 335 a 44 anos; até setembro, de 25 a 34 anos. Outubro, se Deus quiser, será a vez de vacinar a população de 18 a 24 anos.
Mas, antes que todos comemorem, fica o alerta: “A prefeitura de Volta Redonda esclarece que o calendário unificado previsto acima poderá sofrer alterações dependendo do contexto pandêmico e/ou da quantidade de remessas recebidas”, divulgou a secretaria de Saúde, eximindo-se caso aconteça algum atraso na programação ou na gestão da pasta, que levou quase cinco meses para descobrir, por exemplo, que a Ilha São João é o melhor posto de vacinação em Volta Redonda.
O avanço da vacinação contra a Covid-19 foi comemorado, afinal estaria havendo uma significativa redução nos índices de internação em decorrência da doença, tanto na ocupação de UTI quanto de clínica médica, na rede pública municipal. A queda também teria sido constatada na rede privada. Só que, como a própria prefeitura anunciou, uma boa parcela dos idosos não recebeu a segunda dose, tanto que oficialmente várias secretarias estão desenvolvendo ou retomando programas da Terceira Idade com uma regra bem clara: só podem participar aqueles que apresentarem a carteira de vacinação, com o registro das duas doses da vacina contra a Covid-19.
“Mesmo com os índices em queda, as medidas de prevenção precisam ser mantidas entre a população, como o uso de máscara, mesmo nas pessoas já vacinadas, a higienização constante das mãos com álcool 70% (líquido ou gel) e com água e sabão, evitando também as aglomerações”, destaca o coordenador da Vigilância em Saúde de Volta Redonda, médico sanitarista Carlos Vasconcellos.

‘desaglomeravr’

Em muitos momentos, principalmente nos finais de semana, cenas de aglomerações são flagradas em Volta Redonda. O aQui, por exemplo, já cansou de publicar que a Praça da Colina voltou a ser invadida pelos isoporzinhos. Para piorar, bares e boates estariam descumprindo as regras determinadas de combate à Covid-19. Por isso, um perfil foi criado no Instagram, justamente para denunciar tais aglomerações. O perfil é o ‘desaglomeravr’.
No domingo, 13, o perfil não deixou por menos e postou um vídeo do ‘Black Jack’. Com pessoas em frente ao palco, em pé, confraternizando e – óbvio – ninguém usava máscara. Entre as várias denúncias feitas pelo perfil, estão a Moods Ginkeria, Resenharia PUB, Oficina Beer e Garden Bar, entre outros. Nos posts são marcados os perfis da prefeitura e do prefeito Neto para alertar.
A prefeitura, entretanto, segue divulgando a atuação da força-tarefa. No último final de semana, por exemplo, os agentes percorreram 18 bairros e fiscalizaram cerca de 60 comércios entre sexta, 11, e domingo, 14. Passaram pela Candelária, Retiro, São Luís, Três Poços, Voldac, Belmonte, Santa Cruz, Centro, Colina, Vila Santa Cecília, Monte Castelo, Jardim Amália, Morada da Colina, Santo Agostinho e São Geraldo. Aparentemente, tudo estava em ordem…
Na Colina, que voltou a ser ponto de encontro de jovens a realizarem ‘isoporzinho’ e ‘rolezinhos’, parece que estava. Depois de muitos apelos, a Guarda Municipal mandou cercar a praça para impedir o acesso dos carros no período noturno nos finais de semana. Uma equipe da GM fica, inclusive, baseada no local. “Conseguimos controlar o público da praça e dispersar a partir do horário definido em decreto”, afirmou o comandante da GM, João Batista. Resta saber até quando a corporação terá a mesma postura
Confira, por mês, o número de mortes por Covid-19 em Volta Redonda:

Mês Por mês Total
Mar/20 1 1
Abr/20 10 11
Mai/20 25 36
Jun/20 21 57
Jul/20 61 118
Ago/20 70 188
Set/20 24 212
Out/20 28 240
Nov/20 17 257
Dez/20 41 298
Jan/21 113 411
Fev/21 64 475
Mar/21 92 567
Abr/21 220 787
Mai/21 134 920
Jun/21 85 1.005

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