Jogo de cena

‘Toque de recolher’ causa polêmica em Volta Redonda; prefeitos jogam para a plateia e anunciam compra de vacina que governo vai distribuir

Equipe de reportagem do aQui

A A pandemia do coronavírus não dá sinais de que está diminuindo. Pelo contrário. Os casos e as mortes estão crescendo e já se fala em ‘segunda onda’. Pior. Segundo as autoridades, o perfil de quem está sendo contaminado mudou: agora são os mais jovens – abaixo de 40 anos – que estão pegando a Covid-19. Um dos reflexos é que hospitais, particulares e públicos estão com a capacidade quase esgotada. O Hospital Regional, em Volta Redonda, que recebe pacientes de todos os cantos do território fluminense, está com 90% de seus leitos ocupados. Há quem garanta até que o percentual seja maior.
A situação em Volta Redonda é conflitante. A cidade apresenta uma taxa de mortalidade menor que a média estadual e nacional, mas é a que teve mais casos confirmados nos últimos 14 dias em todo o estado do Rio. Nesse período, as redes sociais mostraram várias cenas de aglomeração, principalmente de jovens, em bares e boates, o que levou o prefeito Samuca Silva a tomar uma medida radical: por decreto, publicado na segunda, 14, o prefeito mandou restringir o funcionamento de bares e restaurantes e a venda de bebidas alcoólicas depois das 20 horas. Fez mais. Proibiu a circulação das pessoas nas ruas entre a meia-noite e as 5 horas – batizado de ‘toque de recolher’, com algumas exceções. Para compensar, liberou o funcionamento do comércio em geral das 8 às 22 horas.
Foi o suficiente para que Samuca passasse a ser acusado – na internet – de estar retaliando a população e os empresários por ter perdido as eleições. Ele nega. “Não podemos bobear no combate ao coronavírus. Em reunião com o Ministério Público, decidimos adotar novas medidas de combate à Covid-19, visando assim evitar uma segunda onda de contaminação e salvar vidas, garantindo também a capacidade de atendimento à população na rede de saúde. O que buscamos é evitar cenas de aglomerações, pessoas sem máscaras, como vimos no último final de semana. É um momento de união e todos devem manter as medidas de proteção. Evitem aglomerações, usem máscaras e álcool 70%”, justificou Samuca, referindo-se às cenas que viralizaram nas redes socais e que não deixam dúvidas: os jovens parecem estar ‘se lixando’ para a Covid-19.
Um dos vídeos chegou a mostrar uma fila na porta de uma casa noturna no Aterrado. Cerca de 100 pessoas, enfileiradas na calçada – a maioria sem máscara, sem respeitar o distanciamento social necessário – aguardavam para entrar na boate, que em termos de tamanho não é lá grandes coisas. “Tem espaço apenas para a Covid ‘fazer a festa’”, ironizou um dos assessores de Samuca.
Um setor em especial protestou com muita força contra o decreto: os músicos, que normalmente no fim do ano veem a renda aumentar, com apresentações extras em bares e casas noturnas, além de festas particulares. Com as restrições impostas pela prefeitura, os profissionais do som viram a esperança de um Natal mais gordo passar bem longe, piorando ainda mais um ano que já foi extremamente difícil para a categoria.
Em entrevista ao Fato Popular, programa de Betinho Albertassi na rádio 88 FM, Samuca justificou as medidas restritivas apontando o aumento da contaminação entre os mais jovens e a lotação dos hospitais. E quis deixar claro que não fechou nenhum bar ou restaurante. “É importante salientar à população que nós não fizemos qualquer fechamento de estabelecimento comercial. Restringimos, sim, a locomoção de pessoas e, principalmente, a venda de bebida alcoólica. O jovem, que tem até 40 anos, está com uma taxa de contaminação maior”, revelou, garantindo que o aumento no número de casos pode sobrecarregar a rede de saúde pública e privada. “Estamos com uma alta taxa de contaminação, com um público relativamente jovem. Isso, aliado à falta de atendimento no Hospital Regional, poderá provocar o sucateamento de vagas, ou seja, não termos vagas nos leitos nas unidades de saúde de Volta Redonda. A rede privada já está no limite”, disparou.
Ele foi além. “Os profissionais de saúde já estão trabalhando no limite e o nosso medo é que isso também comece a acontecer nos hospitais públicos”, disse o prefeito, salientando que as medidas apontadas no decreto duram apenas 10 dias. “Volto a dizer, essa é uma medida para os próximos 10 dias apenas”, acentuou, lembrando que as determinações vão perdurar, por enquanto, até o dia 26 de dezembro. Um dia após o Natal.
Samuca também afirmou a Betinho Albertassi que as medidas não foram tomadas por causa da fila na porta da boate, mas sim por causa do aumento do número de casos e por uma reunião com o Ministério Público. Segundo ele, o MP exigiu que ele tomasse medidas duras. E ele tomou. “A opinião do MP era de que se fizesse uma intervenção mais forte”, reiterou, afirmando que o desrespeito ao isolamento social estaria tendo reflexo direto no aumento do número de casos da Covid-19. “A população viu o que está acontecendo na cidade, de aglomeração. As pessoas estão desrespeitando o isolamento social e isso está afetando diretamente o aumento dos casos de vírus na cidade. Repito, Volta Redonda é a cidade com mais casos da média móvel dos últimos dias e é preciso tomar decisão para diminuir a velocidade”, disse.
Em relação à reclamação dos músicos, Samuca afirmou que o município disponibilizou R$ 1 milhão para o setor, por meio da Lei Nacional de Cultura (Lei Aldir Blanc), e que as restrições são “para salvar vidas”. “Eu lembro que Volta Redonda tem mais de R$ 1 milhão; nós aderimos à Lei Nacional de Cultura para prestigiar nossos músicos. Então, o edital foi aberto. As pessoas podem se cadastrar e procurar a secretaria Municipal de Cultura. Infelizmente, agora é uma decisão de salvar vidas, de manter a capacidade de leitos e é uma medida temporária de 10 dias. Se o comportamento do vírus diminuir nesses 10 dias, com certeza farei a alteração” argumentou.
Vacina
Embora esteja às vésperas de deixar o cargo, Samuca decidiu agir rapidamente para ‘faturar politicamente’ com a cura da Covid-19. E emitiu nota dando conta que a prefeitura de Volta Redonda teria assinado na terça, 15, um ‘Memorando de Entendimento’ com o Instituto Butantan para a aquisição de “quase 70 mil vacinas” da Coronavac. “O documento é uma carta de intenção que dá prioridade de compra das vacinas por parte do município, caso o imunizante seja aprovado pela Anvisa”, destacou, sem detalhar o número certo de vacinas que estaria adquirindo para abastecer a rede de saúde municipal.
Também não disse a quem e como essas vacinas serão distribuídas, pois, segundo dados divulgados pela imprensa, a Coronavac deve ser ministrada em duas doses por pessoa. Ou seja, se comprou 70 mil doses, apenas 35 mil pessoas poderão ser vacinadas. Em Barra Mansa, onde o prefeito Rodrigo Drable espera comprar 80 mil doses, a vacina poderá atender 40 mil pessoas – mais que Volta Re-donda, que tem uma popu-lação cerca de 30% maior.
Ao anunciar que vai comprar vacinas, que serão distribuídas gratuitamente pelos governos estadual e federal, Samuca disse que Volta Redonda já estava negociando com o Instituto Butantan “há coisa de três dias” antes da assinatura do Memorando de Entendimento. “Teremos prioridade na compra para a nossa cidade. Ou seja, assim que for aprovada pela Anvisa, sairemos na frente na compra dessas vacinas. Mas destaco, somente se for aprovada pela Anvisa”, garantiu Samuca, alfinetando prefeitos de cidades vizinhas, como Barra do Piraí, que foi a primeira a tornar público que iria adquirir 40 mil vacinas. Que não dá nem para meia missa.
Com relação à vacinação, a única coisa certa, segundo Samuca, é que os idosos acima de 60 anos, os profissionais da saúde da rede pública e privada e gestantes terão prioridade. “Lembramos que isso é até o Plano Nacional de Vacinação sair. O que estamos é antecipando um plano de vacinação. A próxima gestão do município poderá decidir se compra ou não a vacina. Se decidir comprar, terá prioridade na aquisição, assim como outras cidades do estado”, ponderou, deixando evidente que a estratégia foi política. “Se o Neto tomar posse, caberá a ele comprar as vacinas que o Samuca encomendou”, alfinetou um vereador de oposição ao atual governo.
O aQui entrou em contato com o Butantan para saber mais informações sobre a formalização de interesse dos municípios fluminense na Coronavac. Segundo a assessoria de imprensa, o Instituto não está comentando sobre quantitativo, valores e cidades que têm demonstrado interesse na vacina. A assessoria informou ainda que o Butantan pretende formalizar, mais uma vez, o pedido de registro definitivo da vacina à Anvisa na próxima quarta, 23, ocasião em que vai entregar os resultados dos testes clínicos da vacina.
Números
A Prefeitura de Volta Redonda atualizou nesta sexta-feira, dia 18 de dezembro, os dados sobre o coronavírus na cidade. São 10.112 casos confirmados e 32.512 notificados como suspeitos. Foram registrados 270 óbitos (homem de 69 anos). Há 8.500 curados e 13.168 exames deram negativo. Houve um aumento de 1,77% dos casos suspeitos. A ocupação de leitos de UTI está em 14,64%.

Alerj aprova projeto liberando compra de vacinas pelo governo do Estado

A Alerj aprovou em discussão única nesta quarta, 16, um projeto de lei que autoriza o governo do Estado do Rio a comprar vacinas de eficácia comprovada, que tenham sido liberadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), além das fornecidas pelo Programa Nacional de Imunizações, do governo Federal. A iniciativa do deputado Flávio Serafini (PSol) recebeu emendas, e por isso deve ter a redação final aprovada pelo plenário.
O projeto de lei também autoriza o governo do Estado, por meio da secretaria de estado de Saúde, a participar de consórcios com outros estados, para compartilhar tecnologia e pesquisas, visando a produção local de vacinas. O objetivo é imunizar toda a população fluminense contra o coronavírus.
“Os desafios para a imunização da população, tão logo sejam concluídos um ou mais dos diversos estudos em curso sobre a eficácia de vacinas em teste, serão gigantescos, em virtude da dimensão continental do nosso país e da população que já ultrapassa mais de 210 milhões de habitantes”, justificou Serafini.

Barra Mansa prepara maior vacinação contra Covid-19 na região

Depois de sofrer praticamente todo o ano de 2020 com  o coronavírus, agora é a hora da corrida pela compra das vacinas, que estão sendo analisadas para liberação pela Anvisa. E o prefeito Rodrigo Drable tratou de dar um passo à frente, enviando na quinta, 17, por meio da secretaria municipal de Saúde, um documento para o Instituto Butantan, com a intenção de comprar 80 mil doses da vacina Coronavac. Após a aprovação da agência nacional, a cidade pode começar o ano com uma campanha de vacinação.
“A vacina ainda está em fase de teste e a liberação da Anvisa é fundamental para que o funcionamento seja garantido e eficaz. Estamos confiantes que em breve teremos a vacina contra o vírus, porém seguimos aguardando a liberação”, disse o secretário municipal de Saúde de Barra Mansa, Sérgio Gomes, afirmando ainda que as medidas para contenção do coronavírus continuarão sendo tomadas. “De antemão, afirmo que nós vamos continuar trabalhando para evitar a proliferação do vírus e para que a imunização seja uma realidade no município”.
De acordo com as informações da secretaria de Saúde, o público alvo da primeira fase da campanha de vacinação serão os profissionais da saúde; idosos acima de 60 anos; profissionais da Educação, pública e privada; além de profissionais de segurança e salvamento.

 

Críticas de Neto

Faltando 12 dias para o fim do seu governo, Samuca não se importou de tomar a medida extremamente impopular do ‘toque de recolher’, e recebeu críticas de todos os lados. Inclusive do prefeito eleito, Antônio Francisco Neto, que entende que faltou diálogo e transparência nas ações tomadas por Samuca. “Lamentamos muito que, mais uma vez, tenha faltado transparência e diálogo”, disse Neto em entrevista exclusiva ao aQui.
Para o prefeito eleito, os setores produtivos afetados com as medidas tomadas por Samuca “acabaram mais uma vez penalizados além do que deveriam”. Neto também questionou a condução do atual governo em relação à abertura de novos leitos hospitalares, inclusive o hospital de campanha, que teria sido pouco efetivo, na avaliação de Neto.
“Nos impressiona ainda que não tenham sido abertos novos leitos públicos na rede municipal do início da pandemia até agora. O hospital de campanha foi montado, gastou-se muito dinheiro, ele foi desmontado e nada”, disse ele. “Da mesma forma, lamentamos ver que o prefeito vai insistir na montagem de barreiras pouco efetivas”, completou, referindo-se à proibição da entrada em Volta Redonda de quem mora nas cidades vizinhas.
Mas, como criticar obra pronta é fácil, Neto não deixou por menos e afirmou que já tem um planejamento para combater a expansão da Covid-19 na cidade, assim que assumir a cadeira no Palácio 17 de Julho. “Entre acertos e erros vistos até agora, vamos buscar aumentar o poder de fiscalização nas ruas, nos bairros, nos centros comerciais. Já temos um planejamento para isso, e vamos executar em parceria com outros setores da sociedade”, afirmou.
A cutucada parece ter surtido efeito. Logo depois da entrevista de Neto ter sido postada nas redes sociais e ainda diante dos pedidos de uma associação de bares e restaurantes, recentemente criada, Samuca deu o braço a torcer. Liberou o funcionamento dos bares e restaurantes até às 22 horas, mesmo horário determinado em Barra Mansa, o que vai impedir que os jovens procurem a cidade vizinha para continuar bebendo e se divertindo. Quanto ao som, não houve jeito: música ao vivo só até às 20 horas. Pelo menos até o dia 26.
O ‘toque de recolher’ vai vigorar, sabe-se lá por que, só até o dia 26, quando Samuca estará a cinco dias de deixar o Palácio 17 de Julho. Se a Covid não der trégua, o decreto poderá ser prorrogado até janeiro de 2021, quando a prefeitura já terá um novo prefeito. Provisório ou em definitivo, mas terá.

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