História de pescador

Jacarés se espalham no Rio Paraíba do Sul, em Volta Redonda

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Roberto Marinho

Os jacarés estão se espalhando pelo Rio Paraíba do Sul, no trecho entre Volta Redonda e Pinheiral. Os bichos estão tão à vontade que passam o dia curtindo um sol, deitados nas pedras no meio do rio. Parece história de pescador? Mas é! A diferença é que hoje em dia os pescadores têm fotos e vídeos para provar que estão falando a verdade. E o aQui teve acesso aos flagrantes dos répteis, registrados por um pescador que mora no bairro Três Poços. São várias fotos, que mostram os bichos sossegados, se bronzeando em ilhotas no meio do Paraíba, e um vídeo que mostra um jacaré espreitando preguiçosamente as margens, só com os olhos de fora d’água, talvez procurando por uma presa desavisada.
“Olha lá, aquilo que parece um pedacinho de madeira qualquer boiando no rio é um jacaré, que está espiando a gente. Agora ele está virando e me encarando. Tá vendo? O pessoal diz que não tem jacaré no Paraíba, mas olha ele aí”, disse o pescador que narra o vídeo enviado ao jornal. Em conversa com a reportagem, o jovem confirmou a história, mas pediu para não ser identificado, por medo de que haja represálias por parte de outros pescadores, caso algum órgão ambiental decida monitorar os animais. “Já tem gente de olho neles (jacarés), pra pegar e comer. Se souberem que eu dei informações, vão vir em cima de mim. Não quero arrumar inimizade à toa”, afirmou ele ao repórter para justificar o pedido de anonimato. Mas é preciso ressaltar que a captura ou caça de animais silvestres é crime federal, com penas previstas entre dois e cinco anos de prisão.
O pescador, que contou morar na região de Três Poços desde que nasceu, garantiu que os répteis estão proliferando em diversos pontos do rio, entre Volta Redonda e Pinheiral.
“Conheço cada canto desse rio, no trecho entre a ponte do bairro São Luiz e o Capitólio, em Pinheiral. Nunca tinha visto jacaré por aqui, mas há uns cinco anos, eu e meu cunhado víamos uns três, que pareciam uma família, e ficavam sempre aqui, em uma pedra no meio do rio, em frente ao bairro Três Poços. Mas depois de uma enchente eles sumiram, nunca mais vi. Agora, de uns seis meses para cá, vimos esse outro grupo que fica em frente ao bairro, com uns três animais. Mais para a frente, cerca de um quilômetro, tem outro grupo, com uns quatro ou cinco jacarés, e um amigo nosso, que também é pescador, viu outro grupo ainda mais pra frente. Inclusive ele disse que os bichos desse grupo são bem maiores”, disse o rapaz.
Ele também explicou o que aconteceu quando gravou o vídeo enviado ao jornal. “Nós estávamos indo olhar a roça de milho de um amigo meu, que as capivaras estavam destruindo. Nós fomos lá pra assustar elas. O sobrinho desse amigo, um menino de uns nove anos, foi comigo, e de repente me falou: “Tio, olha que estranho, parece que aquele toco de madeira tá olhando pra mim”. Eu fui olhar mais de perto, foi quando vi o jacaré e comecei a filmar”, afirmou o pescador, que não acredita na possibilidade de ataques a pessoas. “Acho que eles não atacam não. O rio está muito cheio de peixe, eles estão bem alimentados”, apontou.
Mas, por via das dúvidas, ele tomou algumas precauções: “Nós avisamos todo mundo no bairro e mostramos as fotos e vídeos. Eu, por exemplo, saía para jogar tarrafa à noite, e se a rede agarrava em alguma coisa no fundo, eu mergulhava pra soltar. Hoje em dia não faço mais isso”, confessou o pescador, precavido. Segundo eles, alguns moradores achavam que era brincadeira, até que ele mostra as fotos. “Aí eles percebem que é sério e dizem que vão tomar cuidado”.
O rapaz não tem certeza do que está fazendo os bichos se espalharem ao longo do rio no perímetro urbano, mas desconfia da fartura de peixes. Segundo ele, algumas espécies sumiram nos últimos tempos, enquanto outras, maiores, surgiram. “Os piaus, que tinha muito aqui quando eu era moleque, sumiram. Você fala até com pescadores de outras cidades da região e eles confirmam que quase não pegam mais piaus. Mas agora tem muito curimbatá – que eu já peguei de quatro a cinco quilos – e até dourado. Achamos um morto aqui, tinha morrido há pouco tempo, estava inteiro, de uns 14 quilos. Então tem muito peixe grande, o rio está muito vivo. Acho que isso pode estar atraindo os jacarés”, argumentou o pescador.
Inea desconhece
Enquanto os pescadores e moradores de Três Poços já estão alertas quanto à presença dos jacarés – até para evitar algum encontro infeliz – o Inea (Instituto Estadual do Ambiente) não sabia de nada sobre a história, até ser contatado pela reportagem do aQui para falar sobre o assunto. Em nota, o instituto informou que não recebeu até agora nenhum relato sobre jacarés em Volta Redonda, mas que eles existem em outros pontos do rio.
“Porém é de conhecimento da equipe da unidade de conservação Refúgio de Vida Silvestre (Revis) Estadual do Médio Paraíba a ocorrência da espécie de jacaré do papo amarelo (Caiman latirostris) no leito do rio Paraíba do Sul em diferente pontos, já sendo encontrado pela equipe nos municípios de Paraíba do Sul, Três Rios, Barra do Piraí e Resende. Tal fato nos leva a acreditar que o Rio Paraíba do Sul é um local de ocorrência da espécie”, disse o Inea no comunicado.
Sobre os riscos para a população, o Inea apontou que qualquer animal selvagem traz perigo, no seu ambiente natural. Quando notam a presença humana, eles podem fugir, mas também podem se tornar agressivos se estiverem defendendo os ovos, por exemplo. O instituto também destacou a força da mordida dos jacarés.
“Os jacarés possuem muita força, podendo facilmente quebrar um casco de tartaruga com seus dentes. O melhor é evitar locais de ocorrência, em especial nos tempos de seca dos leitos de rios”, afirmou a nota do Inea, que completou: “Contudo, vale ressaltar que o Inea não tem registro histórico nessa região de ataques a humanos por esta espécie”. Mas, por via das dúvidas, o instituto aconselha que se mantenha distância dos animais.
“É importante orientar todas as pessoas, em especial os usuários do rio Paraíba do Sul neste caso dos pescadores, que durante a permanência ou na margem ou em suas ilhas ou até mesmo embarcado, evitem o contato com essa espécie. Utilizar sempre os locais mais limpos e de fácil visualização para transitar”. No caso dos jacarés resolverem dar uma volta pelo asfalto, a recomendação do instituto é que se acione o mais rápido possível o Corpo de Bombeiros ou a secretaria municipal de Meio Ambiente, para que estes verifiquem a situação e façam a captura, caso seja necessário.
Na verdade, o Inea faz um alerta à população em relação a nadar no Paraíba do Sul, o que é desaconselhado pelo instituto ambiental. “O Inea reforça o alerta sobre os perigos de uso recreativo do rio Paraíba do Sul em todos seus trechos, por se tratar de um rio perigoso, com solo instável, correnteza muito forte, com muito lajeado de pedra e diversos casos de vítimas fatais”.
Ou seja, é muito mais arriscado nadar nas águas traiçoeiras do rio Paraíba do Sul, do que dar de cara com um jacaré faminto nas suas margens. Mas fica o aviso.