Por Pollyanna Xavier
O Cine 9 de Abril – o primeiro imóvel tombado pelo Patrimônio Histórico-Cultural de Volta Redonda – pode não ser reformado ou restaurado tão cedo. A cobrança por uma obra no cinema veio de grupos ligados à cultura depois que o aQui divulgou que a CSN está
restaurando a Fazenda Santa Cecília – outro bem tombado da cidade do aço. O problema é que o 9 de Abril precisa de um certificado do Pronac – Projeto Cultural de Apoio à Cultura –, sem o qual não é possível captar recursos da Lei Rouanet. E, ao contrário da Fazenda da CSN, o cinema ainda não tem esse documento.
Gerido pelo Clube dos Funcionários, o Cine 9 de Abril foi fundado em fevereiro de 1959 e tombado 26 anos depois, em 1985. Desde a sua fundação, é considerado a maior sala de cinema em funcionamento no Brasil, com 1.505 assentos, distribuídos em dois andares que abrangem um total de 1.650 metros quadrados de área construída. Ultimamente, tem sido mais usado como casa de espetáculo do que de exibição de filmes. Com 66 anos, o Cine 9 de Abril nunca passou por grandes reformas. Em 2015, foi elaborado um plano de restauração, envolvendo estudos de acústica, viabilidade e modernização, mas que não chegou a sair do papel.
E é acerca desse plano de restauração que o presidente do Grande Conselho do Clube dos Funcionários, Evandro Ruy de Castro Lima, falou com o aQui. Segundo Evandro, na época, o clube chegou a captar recursos dos sócios-proprietários para custear a elaboração do plano. “Gastamos algo em torno de R$ 250 mil com um projeto completo que atendesse os critérios do tombamento”, contou, acrescentando que o documento chegou a ser levado a apreciação do Conselho Municipal de Cultura, que só o aprovou tempos depois, quando o Iphan atestou a viabilidade do projeto.
O problema é que, mesmo com a aprovação do Conselho e do Iphan, o projeto não decolou, porque o Ministério da Cultura suspendeu, na época, todos os processos de captação da Lei Rouanet, devido à descoberta de um esquema de fraudes envolvendo a lei. Empresas e produtores culturais usavam o dispositivo para desviar recursos públicos e, por conta desta investigação, todos os projetos foram suspensos. Dentre eles, o do Cine 9 de Abril. “Estava tudo certinho com o nosso projeto, tudo dentro da legalidade, masacabou suspenso, como todos os outros projetos culturais no país”, contou Evandro.
Segundo ele, na época, o Ministério da Cultura chegou a analisar os projetos que não estavam sob investigação e, ao verificar o do Cine 9 de Abril, alegou que o Clube dos Funcionários não tinha expertise para tocar o plano de revitalização apresentado. “Chegamos a empreender uma parte do Pronac, nós sabíamos que, se conseguíssemos o registro, seria mais fácil a captação de recursos pela lei, mas não conseguimos concluir este processo”, revelou, demonstrando interesse em retomar o esforço para conseguir o registro.
Por outro lado, Evandro disse que é possível obter recursos para custear o plano de revitalização do cinema por meio da Confederação Brasileira de Clubes (CBC), à qual o Clube dos Funcionários é filiado. “Num universo de 22 mil clubes brasileiros, o Clube dos Funcionários está entre os 100 melhores. Não é um ranking qualquer. Então, temos grandes chances de captar recursos através da CBC”, acredita. Segundo ele, a Confederação tem um fundo que recebe recursos da loteria esportiva, destinado a financiar projetos esportivos e culturais. “Temos essa opção e vamos buscar o que for melhor para o Cine 9 de Abril”, prometeu.
Quanto ao espaço do Cine, Evandro reconhece que o plano de revitalização precisa de alguns ajustes – até porque ele foi elaborado há mais de 10 anos. “Como cinema, não é mais viável, mas como uma grande casa de espetáculos, sim. Temos as máquinas, projetores para exibição de filmes que podemos aproveitar e vamos aproveitar. Acho que precisamos olhar para o Cine com carinho. Nós o salvamos de virar uma igreja ou um supermercado, por isso mesmo vamos buscar sua revitalização e o resgate da sua história”, concluiu.

