Fazendo o bem…

Há uma máxima que diz que o brasileiro é um povo solidário. Verdade ou não, as estatísticas mostram que uma boa parcela da população (29%) costuma fazer doações mensais. Os doadores são, em sua maioria, jovens e idosos que desembolsam mais de R$ 100 todos os meses para dar a quem precisa: crianças (44%), animais domésticos (32%), causas humanitárias (27%), fome (26%) e até situações de doença (23%). Os dados fazem parte do mapeamento inédito conduzido pela Noz Pesquisa e Inteligência em parceria com a Trackmob e Pitanga.Mob e apresentados no Festival de Captação da Associação Brasileira de Captadores de Recursos, realizado, recentemente, em São Paulo.

 

O festival é considerado o principal evento brasileiro de mobilização e captação de recursos para doações. Este ano, o evento reuniu mais de 720 participantes para debater, aprender e compartilhar sobre sustentabilidade financeira das organizações da sociedade civil e suas causas. Foram mais de 80 sessões, incluindo palestras, plenárias, masterclasses, rodas de conversa, etc. O objetivo foi o de discutir o perfil do doador brasileiro e o potencial de doação no segmento maturidade – sim, os idosos são as pessoas que mais fazem doações a quem precisa.

 

Os dados apresentados no Festival foram coletados entre 17 de março e 25 de maio de 2019, com 1.212 entrevistados – sendo 789 pessoas com mais de 50 anos (65%). Em percentuais, os números indicam que 5% dos entrevistados têm mais de 70 anos; 15% entre 60 e 69 anos; 45% entre 50 e 59 anos; 13% entre 30 e 39 anos; 12% entre 40 e 49 anos, e apenas 10% têm menos de 30 anos. A pesquisa ouviu moradores do estado de São Paulo, tanto da capital quanto do interior, e levou em consideração a situação profissional de cada um. O resultado mostrou que 28% dos entrevistados têm vínculo empregatício; 22% são consultores, autônomos ou freelancer e 18% são empreendedores.

 

A pesquisa quantitativa online contou com questionário de autopreenchimento voluntário, sem incentivo. E o resultado surpreendeu porque mostrou que os avanços na expectativa de vida e a queda na taxa de fecundidade mostraram que as faixas etárias de brasileiros com mais de 50 anos são as que mais crescem no país. Por isto mesmo, esta categoria de brasileiros é a que mais faz doações. Pra se ter uma ideia, em 2019, o país conta com 24,21% de brasileiros sêniores; em 2030 o índice será de 31,18%, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

Outro dado interessante revelado pela pesquisa é sobre o acesso das pessoas à internet. Um quarto da população com mais de 60 anos está conectado à rede mundial de computadores, o que justifica o grande número de idosos com perfil de doadores: o acesso às informações diversas, especialmente sobre catástrofes e população necessitada, abre novas possibilidades para doações. Dentre as causas abraçadas pelos doadores com mais de 50 doadores estão as humanitárias (25%); crianças e jovens (44%); animais domésticos (32%); fome (26%); saúde (23%); educação (19%); conservação e proteção ambiental (18%); paz e não violência (11%) e direitos humanos (mulheres, LGBT, equidade racial – 9%).

 

É interessante notar que os entrevistados com menos de 50 anos disseram se interessar mais por causas de direitos humanos do que os acima de 50 anos, que vivenciaram, em sua grande maioria, processos como o de redemocratização do país e luta por direitos diversos. “O interesse das pessoas com menos de 50 a causas ligadas aos direitos humanos me parece reflexo dos tempos atuais, porém, me intriga o apoio menor entre os acima de 50”, comentou Marcelo Jambeiro, executivo da Trackmob.

Formas de apoio

 A percepção de apoio efetivo às causas é feita por 68% dos entrevistados via doação de objetos, roupas e alimentos; 45% doam dinheiro; 41% realizam trabalhos voluntários; 38% participam de bazares ou compras produtos de organizações; 32% participam de rifas/bingos; 10% criam projetos; e 7% nunca ajudaram ou não lembram a forma de apoio. Quando perguntados sobre como divulgam as causas, 76% dos entrevistados com mais de 50 anos declararam que conversam com amigos, familiares ou pessoas próximas; 75% compartilham informações nos grupos de WhatsApp; 74% no Facebook; 36% por e-mail; 31% por Instagram; e 16% em outras redes sociais.

 

A indicação de amigos ou conhecidos é para 53% dos entrevistados acima de 60 anos a principal forma de tomar conhecimento sobre a causa; 43% apontam as redes sociais; 28% contatos telefônicos; 23% pela televisão; 14% em anúncios de jornais; 14% em WhatsApp; 13% em sites; e 13% são abordados nas ruas. Na análise da coordenadora da pesquisa, esse é um ponto relevante. “Entre os entrevistados com menos de 60 anos, a abordagem nas ruas é efetiva para 23%, contra 13% dos maiores de 60 anos. Isso pode indicar que faltam captadores para conversar com esse potencial doador de igual para igual”, analisa Flavia Lang, da Pitanga.Mob.

 

Informação importante apontada pela pesquisa diz respeito à frequência das doações. Os dados mostraram que entre os entrevistados com mais de 50 anos, 12% fizeram doações mensais; 19% fazem mensais e pontuais; 28% já fizeram doações mensais e hoje somente pontuais; 29% nunca fizeram doações mensais; 12% não fazem nenhum tipo de doação financeira há mais de três anos. Já dentre os principais motivos apontados para não fazer doação em dinheiro estão a falta de condições financeiras (28%); a preferência por doar alimentos no lugar do dinheiro (34%); o fato de não confiar em organizações que pedem doação em dinheiro (10%).

 

Dentre os doadores pontuais e mensais, a pesquisa destacou que encontram-se diferenças nos principais motivos apontados para doar. Um trabalho tangível e clareza na utilização do dinheiro é para 27% dos doadores mensais o principal motivo; entre os doadores pontuais, o índice é de 20%. Estar alinhado ao propósito pessoal é o motivo para 19% dos doadores mensais e 23% dos pontuais; a boa reputação da organização é motivo para 18% dos doadores mensais e 14% dos pontuais.

 

Por fim, um destaque relevante no perfil do doador brasileiro são as modalidades preferidas por eles: 52% dos doadores acima de 60 anos optam por dinheiro; 32% por boleto bancário; 25% transferência bancária, TED ou DOC; 12% cartão de crédito; 11% débito em conta. Entre os doadores mensais, 78% realizaram doações nos últimos 12 meses; o valor médio pontual foi de R$ 475 no período. “A pesquisa aponta que o potencial de doação dos mais idosos não está condicionada diretamente à renda, mas ao engajamento e aderência às causas”, avaliou a coordenadora da pesquisa.

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