Mateus Gusmão
Desde que ocorreu a megaoperação policial no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro – que deixou um rastro de 121 mortes –, um dos principais assuntos do país passou a ser a expansão das facções criminosas pelo Brasil e, em especial, pelo estado do Rio. Um relatório do setor de Inteligência da Polícia Militar do Rio de Janeiro revelou que o Comando Vermelho (CV) atua de forma estruturada em 70 dos 92 municípios fluminenses, o equivalente a 76% do estado. Entre as cidades, estão, claro, Volta Redonda e Barra Mansa.
De acordo com o documento, o CV controla 1.036 dos 1.648 locais mapeados (62,8%), seguido pelo Terceiro Comando Puro (TCP), com 340 comunidades (20,6%); pelas milícias, com 229 (13,9%); e pelos Amigos dos Amigos (ADA), com 43 (2,6%). Em 36 municípios, o Comando Vermelho atua sem a presença de rivais. Apenas 15 cidades do estado não têm domínio consolidado de facções.
Em Volta Redonda, o CV seria a facção com maior predominância na venda de drogas. Segundo levantamento feito pelo aQui junto ao Mapa das Facções – ferramenta do Google Maps que aponta qual facção criminosa atua em cada área do estado –, o Comando Vermelho teria presença em 17 bairros da cidade do aço.
Segundo o que consta no mapa, há bairros com atuação tanto do CV quanto do TCP. No Roma, por exemplo, a venda de drogas seria dominada pelo CV, assim como nas regiões do Belmonte, Siderlândia e Açude. Já na grande Vila Brasília, o comando seria do TCP. Há locais, porém, divididos entre as duas facções – o que explicaria as frequentes mortes violentas pela disputa de pontos de venda.
É o caso da região do Santo Agostinho, onde parte do bairro, assim como Volta Grande e Ilha Parque, estaria sob domínio do TCP. Já nos morros vizinhos – Caviana, Conquista e da Paz – o poder estaria nas mãos do Comando Vermelho.
CV também lidera em BM
Em Barra Mansa, assim como em Volta Redonda, o Mapa das Facções aponta o Comando Vermelho como grupo dominante, com atuação forte na Região Leste, especialmente na Boa Vista. O CV também teria presença em bairros grandes como Vila Coringa, Vista Alegre e Vila Ursulino. O TCP, por sua vez, controlaria áreas como Vila Orlandélia, Vila Nova e Vila Maria.
Confira as facções que atuam em cada bairro de VR e BM
Volta Redonda
Roma: CV
Vila Rica/Tiradentes: CV
Água Limpa: CV
Morro da Paz: CV
Caviana: CV
Morro da Conquista: CV
Santa Cruz: CV
Açude I, II, III e IV: CV
Belmonte: CV
Padre Josimo: CV
Siderlândia: CV
Belmonte: CV
Padre Josimo: CV
São Carlos: CV
Eucaliptal: TCP
Jardim Cidade do Aço: TCP
Vale Verde: TCP
Mariana Torres: TCP
Belo Horizonte: TCP
Coqueiros: TCP
Fazendinha: TCP
Volta Grande: TCP
Ilha Parque: TCP
Santo Agostinho: TCP
Nova Primavera: TCP
Caieira: TCP
Monte Castelo: TCP
São Geraldo: TCP
Barra Mansa
Boa Vista I e II: CV
Vila Elmira: CV
Getúlio Vargas: CV
Vila Coringa: CV
Vista Alegre: CV
Loteamento: CV
Vila Ursulino: CV
Vila Maria: TCP
Vila Nova: TCP
Bom Pastor: TCP
Roberto Silveira: TCP
São Vicente: TCP
Morro Getúlio Vargas: TCP
Vila Orlandélia: TCP
Bicinho e Naldinho já foram transferidos para presídio federal
Uma das medidas adotadas pelo Governo do Estado do Rio após a megaoperação na capital foi a transferência dos principais acusados de integrar a cúpula do Comando Vermelho, na manhã de quarta, 12. Sete presos que estavam em Bangu 1, no Complexo de Gericinó, foram levados sob forte escolta do Grupamento de Intervenção Tática (GIT) até o Galeão, onde embarcaram para presídios federais de segurança máxima em outras regiões do país.
Entre os transferidos, dois são do Sul Fluminense. Um deles, como o aQui revelou, é Fabrício de Melo de Jesus, o Bicinho (foto), apontado como chefe do tráfico nas regiões do São Luiz e Dom Bosco, em Volta Redonda. Ele faria parte da “comissão” do Comando Vermelho.
O outro é Arnaldo da Silva Dias, o Naldinho, de Resende, considerado uma espécie de administrador da “caixinha financeira” do CV, conforme acusação feita pelo Governo do Estado.
Os sete presos transferidos, que juntos somam 428 anos, 6 meses e 21 dias de condenação, foram:
- Arnaldo da Silva Dias (“Naldinho”) – 81 anos, 4 meses e 20 dias
- Carlos Vinicius Lírio da Silva (“Cabeça de Sabão”) – 60 anos, 4 meses e 4 dias
- Eliezer Miranda Joaquim (“Criam”) – 100 anos, 10 meses e 15 dias
- Fabrício de Melo de Jesus (“Bicinho”) – 65 anos, 8 meses e 26 dias
- Marco Antônio Pereira Firmino da Silva (“My Thor”) – 35 anos, 5 meses e 26 dias
- Alexander de Jesus Carlos (“Choque”) – 34 anos e 6 meses
- Roberto de Souza Brito (“Irmão Metralha”) – 50 anos, 2 meses e 20 dias

Foto dos presos: Eliane Carvalho
Polícia Civil desmonta esquema de fabricação e venda ilegal de armas
Estoque à míngua
Na quinta, 13, o Governo do Rio de Janeiro, por meio da Polícia Civil, deflagrou uma operação contra a fabricação e o comércio ilegal de armas de fogo, munições e acessórios bélicos. As diligências aconteceram simultaneamente no Rio de Janeiro e no Paraná, e tiveram o objetivo de cumprir mandados de busca e apreensão em endereços ligados à quadrilha. “O Rio está combatendo com firmeza o crime organizado e tudo que o alimenta. Essa operação mostra que não estamos apenas prendendo traficantes, mas cortando as fontes que abastecem o poder bélico das facções. Cada arma apreendida é um passo a mais para devolver a paz às comunidades”, afirmou o governador Cláudio Castro.
A investigação foi conduzida pela Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos (Desarme) e começou após a análise de dados extraídos de dispositivos eletrônicos apreendidos em fases anteriores da operação, submetidos à perícia digital. O material revelou um intenso fluxo de comunicações, vídeos e registros de transações ilegais, comprovando a existência de uma rede estruturada de fabricação e venda de armas, tanto de uso permitido quanto restrito.
Durante as apurações, os agentes identificaram relações diretas entre fabricantes, intermediários e compradores, responsáveis por produzir e comercializar pistolas, fuzis e metralhadoras artesanais, além de munições montadas manualmente. As mensagens interceptadas e os registros financeiros apontam lucros que chegavam a 150% e indicam o uso de transportadoras privadas para o envio disfarçado de armamentos, com instruções para ocultar o conteúdo e a identidade dos remetentes.
As equipes localizaram pontos de produção e armazenamento com ferramentas, peças de reposição, insumos e equipamentos usados para recarga de munições. Parte das armas produzidas ou adquiridas irregularmente era distribuída a terceiros sem qualquer controle legal ou registro.
“Essa operação é mais uma prova de que inteligência, integração e tecnologia estão no centro da nossa política de segurança. Estamos desarticulando quem fabrica, quem vende e quem financia a violência. O crime vai continuar recuando no Rio de Janeiro”, completou o governador Cláudio Castro. Vale lembrar que Castro, em entrevistas, já anunciou a disposição de deflagrar mais 10 ações como a megaoperação do Complexo da Penha.

