Evangélicos e conservadores venceram eleição do Conselho Tutelar de VR

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Por Vinícius de Oliveira

No domingo, 1o, cerca de 30 mil conselheiros foram eleitos para os mais de 6 mil Conselhos Tutelares espalhados pelo Brasil. Em Volta Redonda, quem levou a melhor foram os candidatos de variadas denominações evangélicas, autodeclarados conservadores e defensores dos bons costumes. Para se ter uma ideia, o candidato mais votado, Thiago Brum, recebeu impressionantes 935 votos.
Em vídeo postado nas redes sociais, Thiago revelou suas intenções. “Fui o candidato mais votado não por minha honra, mas por honra de Deus. Minha campanha não tratava mais de Thiago Brum ser eleito, mas sim de valores, princípios e de pessoas que valorizam os valores bíblicos e cristãos, que acreditam na bíblia, que não distorcem valores nas cabeças das crianças”, pontuou.
O futuro conselheiro, que ficará no cargo pelos próximos quatro anos, com salário mensal de R$ 4 mil, teve apoio de gente conhecida do mundo político, como Dayse Penna, ex-secretária no governo Samuca. Outro que fez propaganda para Thiago foi Hermiton Moura, que chegou a postar um vídeo no grupo de WhatsApp ‘Vem para a Direita’ com o deputado Nikolas Ferreira (PL- MG) fazendo propaganda das eleições para conselheiros, vinculando a peça a Thiago Brum. “Temos que eleger nosso candidato conservador”, disse Hermiton na legenda.
Bianca Costa foi a segunda mais votada. Reeleita com 759 votos, seu principal cabo eleitoral foi o pastor Jessé da Assembleia de Deus Congregação Ebenézer, do Santo Agostinho. O líder religioso vestiu a camisa de Bianca. Usando terno e gravata como se fosse presidir um culto, ele ligou a câmera dentro da igreja e fez campanha para a então candidata. “Estou ao lado da irmã Bianca, que é membra na congregação Ebenezer. Está concorrendo a uma das vagas para conselheira tutelar de Volta Redonda. Quero dizer para vocês que a irmã Bianca está preparada para esse momento. É uma pessoa capacitada, idônea para assumir essa responsabilidade tão grande. E o motivo desse vídeo é para que a gente possa fazer uma mobilização. Unir as nossas forças para que a gente possa conseguir eleger a nossa irmã, tendo em vista que se trata de um cargo tão relevante para nossas crianças, para nossos filhos. Então eu conto com seu apoio e conto com seu voto”, pediu o pastor.
Embora não tenham adotado um discurso ideológico conservador pautado na religião como mote de campanha, a terceira e a quarta colocadas no pleito também são evangélicas. Márcia Assistente Social garantiu mais quatro anos de mandato após amealhar 535 votos, muitos deles dos irmãos de fé. Angélica Santos veio logo atrás, com 534 eleitores a seu favor. “Eu sou cristã desde criança e costumo dizer que cristão não se diferencia nos espaços em que ele está e vai continuar sendo cristão, pois o cristo é centro da sua vida. Porém, uma das condições de campanha era não vincular a igreja, e por isso eu tomei a decisão de não me apoiar na igreja pra me promover na campanha”, disse, consciente.
Apesar da baixa votação, o campo progressista não ficou de fora. Mas foi por pouco. Um exemplo é Bruno Nicolau, o Bruninho, que começou a carreira na Fundação Beatriz Gama. Ele confessou que tomar a decisão de não se apadrinhar de alguém foi arriscado e quase lhe custou a cadeira de conselheiro. “Primeiramente, quero deixar claro que não me considero nem de esquerda e nem de direita dentro do Conselho Tutelar. E a grande dificuldade que tive foi por ter optado em não ter apadrinhamento político, diferentemente dos primeiros colocados que tiveram, de certa forma, um apoio seja político ou religioso. Não me sinto prejudicado, porque foi uma decisão minha. Por mais que as pessoas pensassem que eu era o candidato do governo, pela ligação que sempre tive com o [prefeito] Neto, eu abri mão de tudo. Queria pagar para ver e testar meu potencial. Paguei um preço alto por isso, pois fiquei em décimo lugar”, desabafou, admitindo que muitos usam o CT como trampolim político.
Vale citar que os três mais votados, de acordo com o número de votos que obtiveram, vão atuar no Conselho II, que compreende a região do Retiro, que, segundo ex- conselheiros, é onde a demanda mais ferve. Para Isabela Marques, Assistente Social da Casa da Criança e do Adolescente de Volta Redonda, é aí que mora o perigo. Profissional especializada em atendimento às crianças em situação de violência, Isabela teme o domínio do fundamentalismo e do conservadorismo no Conselho Tutelar. “Nós tivemos no resultado da eleição alguns candidatos se autoidentificando conservadores. Isso pode impactar no atendimento e no dia a dia do conselheiro, por ele acreditar numa família tradicional onde o homem e a mulher têm papéis definidos e não podem sair deles. Mas nossa sociedade é formada por vários tipos de famílias, e com formatos diferentes. Inclusive as famílias mais vulneráveis são compostas por muitas mães-solo. Então essa visão de família tradicional pode afetar na hora do atendimento quando o caso envolver crianças cujas famílias não se encaixam no formato tradicional”, observou.
“Causa preocupação possíveis manifestações de fanatismo religioso na hora do atendimento. O CT é um espaço técnico de defesa intransigente do ECA. O estado está acima de confissões religiosas. Ali não dá para impor o que minha fé diz. Eu preciso compreender a realidade dessas pessoas que estão em situação de vulnerabilidade e garantir que se cumpra a lei”, completou, salientando que o cidadão pode denunciar os conselheiros fanáticos. “Ao identificar um conselheiro que ignora
as regras, normas e leis, a sociedade deve procurar o Ministério Público ou o Conselho Municipal Da Criança e do Adolescente”, destacou.
Quem não se saiu bem na eleição do CT foi o candidato representante do bolsonarismo, Tom do VR Facts, que acabou sendo o menos votado. Teve apenas 96 votos. Para Ruda Ricci, cientista político do Instituto Cultiva, ONG fundada em 2002, com foco na educação para a cidadania, participação social e gestão pública, essa é uma tendência nacional. “[No Brasil] o campo progressista foi bem. Por exemplo: nas grandes e médias cidades de classe
média, a vitória foi muito importante dos candidatos progressistas que, neste caso, não têm envolvimento com partidos. Já a extrema direita não fez quase nada de candidato. Eles estão tentando surfar na onda de eleição de candidatos vinculados a igrejas – algumas fundamentalistas e algumas conservadoras. A extrema direita queria muitos eleitos para transformá-los em militantes, principalmente para atuar nas eleições do ano que vem”, analisou.

Nota da redação: O Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) foi questionado acerca dos possíveis casos de abuso político e religioso envolvendo alguns candidatos ao CT de Volta Redonda. A presidente da instituição, Paloma de Lavour Lopes, disse que a Comissão Eleitoral está averiguando caso a caso e que está dentro do prazo. Disse também que todo o processo é acompanhado pelo Ministério Público. Até o fechamento desta edição, nenhuma candidatura foi impugnada.