Enferrujou

Empresários, pressionamos por greves, falta de passageiros e concorrência desleal, esperam por apoio do Poder Público

Primeiro, foram os usuários dos ônibus das linhas urbanas de Volta Redonda que ficaram sem transporte durante o final de semana passado, quando os motoristas e trocadores resolveram cruzar os braços. Motivo: só tinham recebido 60% dos seus salários. A medida atingiu cerca de 2 mil funcionários das viações Sul Fluminense, Elite, Pinheiral e Agulhas Negras. Pelo mesmo motivo, os funcionários da Triecon – consórcio formado por empresas de Barra Mansa – também iniciaram uma greve na manhã de segunda, 15, que só terminou na quinta, 18.
O movimento nas duas cidades já era esperado e pode se repetir pelos próximos meses, afinal, os empresários do setor estão à beira da falência, como alertou Paulo Afonso, presidente do Sindpass, em reportagem publicada pelo aQui na edição 1239, de 20 de fevereiro. “Se nada for feito, as empresas quebram em 90 dias”, disparou.
O alerta, segundo ele, começou a se concretizar com os protestos em Volta Redonda e a greve deflagrada em Barra Mansa, que durou quatro dias. “Foi um sinal”, confirma uma fonte do setor, lembrando que, entre ‘o cruzar dos braços’ de Volta Redonda e Barra Mansa, um novo aumento no óleo diesel foi autorizado pelo governo, da ordem de 8,55%. “Nas primeiras semanas de março, o combustível foi encontrado a R$ 4,452 o litro, um avanço de 8,55% em relação ao fechamento de fevereiro. Já o diesel S-10, cuja alta foi de 8,38%, passou a ser comercializado a R$ 4,515”, informou.
“Com aumento de óleo, aumento de salários, aumento dos pneus, entre outros, sem contar a queda na arrecadação proveniente do isolamento social em virtude da Covid, como é que os empresários podem sobreviver”, indaga. “Se os prefeitos esquecessem a política e olhassem as planilhas de custos apresentadas pelas empresas de ônibus, eles concederiam o aumento pedido para as passagens de ônibus. Mas nem querem pensar nisso”, lamenta. “Em Volta Redonda, o último aumento das passagens foi concedido em 2017. De lá para cá, tudo aumentou, o óleo diesel disparou, a passagem, não. Nem um centavo a mais pôde ser cobrado”, ponderou.
Carona ilegal
A crise no transporte de passageiros vai além das linhas municipais de Volta Redonda e Barra Mansa. Prova é que os prefeitos Neto e Rodrigo Drable são pivôs das greves provocadas pelos rodoviários das duas cidades (a de Volta Redonda durou apenas um dia; a de Barra Mansa, quatro, sendo que os motoristas da Triecon nem acataram a ordem judicial de retornar ao serviço). Não é para menos. Dos salários de fevereiro, eles receberam apenas 60% do que tinham direito e só vão receber os 40% restantes em quatro parcelas mensais de 10% a começar pelo mês de abril.
Para piorar, os prefeitos, ao mesmo tempo em que negam o reajuste pedido para as linhas municipais, permitiram que motoristas de aplicativos, legais e ilegais, passassem a atuar no circuito, concorrendo diretamente contra as empresas tradicionais de ônibus urbanos. Isso sem contar que, no caso de Volta Redonda, ainda são obrigados a aceitar o passe-livre dos estudantes. “Hoje tem passe-livre para idoso, policial, carteiro… só falta distribuir para sogras”, ironiza a fonte.
Ela vai além. Revela que as empresas de ônibus intermunicipais da região estão sendo prejudicadas financeiramente. É que o usuário, que busca meios de economizar com o transporte, não importa a que preço, anda usando alternativas nos aplicativos de carona, tipo o BlaBlaCar, já em uso, por exemplo, entre Volta Redonda e as praias de Angra dos Reis, ou Cabo Frio.
Para quem não sabe, o BlaBlaCar chegou ao Brasil em 2015 sorrateiramente, funcionando através de um sistema no qual os usuários oferecem e encontram caronas para viagens entre cidades. O app cresceu aos poucos e, vejam só, já se denomina como a maior plataforma de transporte rodoviário do país. Inclusive, vem tentando expandir seus negócios de carros para ônibus. De acordo com declarações da companhia, 2019 lhe rendeu 8 milhões de viajantes na plataforma. Ou seja: teria caído no gosto do brasileiro e do volta-redondense também.
“A minha mãe vai para Araruama por R$ 60 usando o BlaBlaCar. São seis horas de viagem. Ela se encontra com o motorista na pista e vai até o local mais próximo possível do destino por apenas esse valor”, comentou Marcelo do Carmo Alves, um verdadeiro fã do aplicativo de carona, salientando que, para ir de ônibus, sua mãe gastaria cerca de R$ 120. “E nem encontramos com facilidade uma linha direta de Volta Redonda até Araruama. Precisa ir para Cabo Frio”, justificou.
Marcelo tem razão ao apontar o benefício financeiro. Afinal, quem não gosta de economizar? O problema é que o barato pode sair caro, pois o uso desse tipo de aplicativo ainda é considerado ilegal. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) diz que a resolução 4.287 “considera serviço clandestino o transporte remunerado de usuários, realizado por pessoa física ou jurídica, sem autorização ou permissão do poder público competente”.
Tem mais. Como a própria empresa explica em seu site, ela não se responsabiliza por qualquer perda ou dano sofrido pelo usuário. “Uma viagem segura só depende de você!”, exclama a gigante do transporte ‘solidário’ em sua homepage. Com relação a viagens de ônibus, nicho em que o app tem buscado se consolidar também, a política de segurança é a mesma: nenhuma. “A BlaBlaCar funciona apenas como uma distribuidora de passagens. Dito isso, a responsabilidade pela segurança dos passageiros é da companhia de ônibus que opera a viagem”, afirma o aplicativo.
Trocando em miúdos, o passageiro está por conta própria, diferente do que acontece quando segue os meios tradicionais de viagens de longas distâncias em cujo valor da passagem está incluído, além de impostos, seguro de bagagens e de vida. Além disso, existe o risco de a viagem de carona terminar na delegacia de polícia, no hospital ou até no necrotério. É que os casos de estupro e agressão têm aumentado em várias partes do país.

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