É cor de rosa-choque

O que pensam as candidatas mulheres que disputam a eleição para a prefeitura de Volta Redonda.

Elas representam 28% de quem almeja subir a rampa do Palácio 17 de Julho. Em triunfo, é claro. São mães, donas de casa, professoras, médicas, administradoras, negra, branca, cristã, cultuam religiões de matriz africana; são militantes e defensoras dos direitos humanos. O perfil das candidatas à prefeitura de Volta Redonda é variado, mas todas têm algo em comum: são mulheres e buscam aumentar a representatividade feminina na política. Cida Diogo (PT), Dayse Penna (Pros), professora Mônica (PSTU) e Juliana Carvalho (Psol) estão nas ruas mostrando que 2020 é o ano da equidade de gênero nas urnas. As quatro puxam uma fila onde estão outras 200 mulheres que também buscam um lugar na política – só que no legislativo municipal.

A presença feminina nas eleições 2020 tem tudo para apagar a experiência de fracasso no pleito de 2018. Na época, descobriu-se muitas candidaturas laranjas, de mulheres que só serviram para completar a cota mínima exigida, e, em muitos casos, para desviar recursos públicos eleitorais. Milhares de candidatas sequer tiveram um voto. Nem o delas mesmo, provando que muitas nem sabiam que eram candidatas a um cargo eletivo. Esse ano, o cenário parece ser diferente.

Em Volta Redonda, por exemplo, das quatro candidatas a prefeita nenhuma foi lançada pelo marido. Todas possuem uma candidatura autônoma e estão mostrando – seja nas ruas ou nas redes sociais – uma militância em favor de políticas públicas não apenas voltadas para elas (direitos das mulheres), como também para outros setores que também merecem total atenção: educação, trabalho e renda, idosos etc.

Nesta reportagem, o aQui ouviu três das quatro candidatas a prefeita de Volta Redonda: Cida Diogo, Dayse Penna e Juliana Carvalho. Confira agora o que elas responderam. Nota da redação: a candidata do PSTU, professora Mônica, também foi procurada, mas acabou ficando de fora por ter exigido que o original da matéria lhe fosse enviado para aprovação.

aQui– Por que a representatividade feminina na política é tão pequena?
Cida Diogo – Infelizmente, isto é reflexo da cultura machista. Ainda hoje há um cenário preconceituoso quanto à participação das mulheres no meio político. A desigualdade de oportunidade entre homens e mulheres, tão nítida no mercado de trabalho, também se aplica nessa questão. Muitas mulheres, que são mães e responsáveis pelas tarefas domésticas, não conseguem ter tempo para se dedicar a outra atividade. Muitas não consegue sequer trabalhar ou estudar, menos ainda se envolver com política.

Dayse Penna – A representatividade é pequena porque culturalmente nós não somos estimuladas para essa participação. A mulher tem muitas atividades e essa sobrecarga como, cuidado com a casa, filhos e família toma o tempo de fazer outras participações sociais. Ela acaba não sendo direcionada no pensamento político, porém partidário, já que em política de essência a mulher é a que mais participa.

Juliana Teixeira – Tradicionalmente a mulher é encarada como incapaz, frágil demais para assumir determinados cargos. Se a mulher branca é encarada dessa forma, imagina a negra. Por décadas, a pecha de que o lugar da mulher é na cozinha inviabilizou a nossa participação na política. Os movimentos feministas vêm quebrando essa resistência e os espaços de poder têm sido abertos, mesmo que à força, para que nós os ocupemos.

aQui– Por que Volta Redonda nunca teve uma prefeita?
Cida – Atribuo à cultura machista que perpetuou em todos os lugares. No debate da Band (terceiro bloco), só escolhiam outros candidatos para fazer as perguntas, excluindo as mulheres. Enquanto a maioria não tem propostas, nossa chapa apresenta muitas com consistência e embasamento.

Dayse – Eu considero que os políticos de Volta Redonda nessa disputa de poder não fortaleceram as lideranças femininas, que se tornou simbolicamente muito frágil. Mas agora é o momento da gente demonstrar que há possibilidades de novas mentalidades, inclusive estimulando as mulheres nessa participação.

Juliana – É importante salientar que a ex-vereadora América Tereza esteve no cargo por alguns poucos dias, mas já faz parte dos anais da prefeitura. Ela não foi eleita e só chegou por circunstâncias políticas da época. Nunca uma mulher chegou sequer ao segundo turno aqui. Acredito que isso se dê justamente pela pouca representatividade (…) Outra questão é que parte considerável da nossa população (…) acabou descambando para o extremismo bolsonarista. 64,13% dos voltarredondenses votaram em Bolsonaro e isso significa silenciar as minorias e, entre elas, as mulheres, sobretudo as negras. Felizmente, mesmo diante de uma realidade bélica contra nós, não nos calamos.

aQui -Qual a sua opinião sobre as mulheres que ingressam na política não por vontade própria, mas por estratégias conjugais?
Cida – O envolvimento com a política precisa ser uma vontade individual, de acordo com os objetivos para atuação pública, com as bandeiras e representatividades que cada pessoa apresenta. Pelo cenário que temos no PT, todas são muito engajadas e se candidataram porque veem a necessidade de serem representantes das mulheres na Câmara Municipal.

Dayse – Nós não podemos generalizar. Existem mulheres que como esposas de políticos acabam se envolvendo tanto que sentem-se à vontade para ingressar na política partidária. Sobre aquelas que entram apenas para emprestar o nome para a composição necessária do partido, são subjugadas a essa dinâmica partidária, mas eu acredito que à medida que as mulheres forem entendendo a necessidade da representatividade elas não irão abrir mão de sua participação.

aQui -Se for eleita, como pretende compor a sua equipe de governo? Mais mulheres ou mais homens?
Cida – A minha chapa é a única de Volta Redonda formada somente por mulheres, com a Nena Düppré (PV) como candidata a vice-prefeita, que é engenheira, ambientalista e com profundo conhecimento em meio ambiente, sustentabilidade e mobilidade urbana. Um governo trabalha para pessoas e eu vou compor uma equipe para todos e todas (…) Não faço distinção sobre quais secretarias confiar a uma mulher ou a um homem, precisamos analisar a competência para gerir com eficiência cada pasta.

Dayse– A composição da equipe de governo vai se dar com base em avaliação de conhecimento e experiência. A participação feminina não será sexista, mas sim valorizando mulheres que têm conhecimento e podem agregar. Não é reduzir a contratação de mulheres ao gênero. Isso, por si só, já seria muito frágil.

Outras perguntas feitas à cada candidata de forma específica:

Dayse Penna:


aQui – A senhora foi secretária no governo Samuca. Qual foi o maior problema que enfrentou?
Deyse – Aprendi a me desenvolver com relação aos processos da administração pública. Reconheci a importância das políticas públicas para as minorias em todos os aspectos. Percebi que apesar de tantas leis, ainda existe muita resistência à mudança de mentalidade e postura com relação à inclusão. O maior problema foi o descaso da administração pública com a pasta, o que culminou na falta de recursos para a promoção de políticas de prevenção e enfrentamento da violência.

aQui – A senhora disse que, enquanto secretária, ampliou em 300% o atendimento às mulheres. Como conseguiu isto?
Deyse – Conseguimos esses resultados através de uma boa gestão de pessoal porque a equipe foi motivada a trabalhar otimizando o tempo, melhorando o acolhimento e fazendo a divulgação do serviço tanto na delegacia quanto em todas as áreas de possíveis denúncias negligenciadas. O atendimento era realizado por uma equipe multidisciplinar com o objetivo de enfrentamento à violência contra a mulher

Cida Diogo:


aQui -Em termos de políticas públicas para as mulheres, o que falta à cidade e qual a sua proposta?
Cida – Uma grande necessidade é um Hospital Materno-Infantil Público, que entrará na reestruturação que vou fazer na Rede Pública Hospitalar, se eleita. Farei também a criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, visando a implantação do Plano de Políticas para as Mulheres. Também vou instalar a Casa da Mulher, para apoio às que buscam qualificação profissional e apoio contra violência doméstica. Vamos instituir a patrulha Maria da Penha, para fortalecer o combate à violência contra a mulher.

aQui– Como deputada estadual e federal, quais projetos apresentou que beneficiasse as mulheres?
Cida – Dinamizei o Centro Especializado de Atendimento à Mulher na Casa da Mulher Bertha Lutz, trouxe a Casa Abrigo, articulei a implantação da DEAM, revigorei o Programa de Saúde da Mulher, criei o Programa de Fertilização para mulheres da periferia com dificuldade em engravidar, reestruturei a maternidade do Hospital São João Batista. Como deputada, criei a Lei de Notificação Compulsória de Violência Contra a Mulher, institui o prêmio “Leila Diniz: Pré-Natal e Parto Seguro e Saudável. Lutei para que mulheres que são chefes de família tivessem prioridade no financiamento da casa própria, além de outros projetos.

Juliana Teixeira


aQui – Através da religiosidade, muitas mulheres passam para a militância política. Você se identifica com esse perfil?
Juliana – Eu não me identifico com esse perfil. Eu sou esse perfil! A negritude não está só na minha pele preta, mas no meu sangue e na minha essência. Eu sou movida pela minha ancestralidade. Tenho extremo orgulho da minha origem e é a ela que me volto sempre que preciso reestabelecer minhas forças para me manter lutando. Essa forma de viver é um ato político (..).

aQui -Você disse que Volta Redonda é uma cidade que a luta de classes sempre esteve na ordem do dia. Como pretende recuperar essa história?
Juliana – Ao ser eleita, esse será o primeiro gesto de poder para o povo, mudaremos a lógica atual onde todas as opressões foram espremidas e engavetadas. Criaremos uma coordenadoria de direitos humanos, ligada diretamente ao gabinete, onde todas as outras pastas se submeterão. Não adianta pensar saúde, educação, transporte, geração de emprego e renda sem considerar a mulher (…)

aQui -Em termos de políticas públicas, o que pretende propor às mulheres?
Juliana – Temos cinco dezenas de propostas. É importante que o leitor entre nas nossas redes sociais para conhecê-las. Precisamos reduzir a desigualdade de gênero no mundo do trabalho ao garantir renda mínima (…), o acesso a unidade de saúde, assegurar tratamento adequado e respeitoso às mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais.

aQui – Você é a mais jovem a concorrer à prefeitura. Como pretende convencer o eleitorado masculino de que representa a melhor opção?
J.T – Não me lembro do Samuca ter sido questionado pela idade dele quando estava em campanha. Estou na militância do Psol desde 2007. Sou professora da rede estadual há 13 anos. Acumulei experiência suficiente para administrar uma cidade do porte de Volta Redonda. A idade não pode ser fator determinante para o voto do eleitor. Homens mais velhos transformaram Volta Redonda numa cidade injusta para a maioria. Nossas principais armas para o convencimento estão contidas no nosso plano de governo, na minha militância e no fato de o Psol ser um partido de reputação ilibada, sem rabo preso com empresários ou velhas raposas da política. Somos os únicos com autonomia suficiente, preparo intelectual e boa vontade para dar a Volta Redonda o que ela realmente precisa.

Deixe uma resposta