Lugar de Santo: Corpo de Guido foi transferido do cemitério de Botafogo para a tradicional Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, no Rio de Janeiro
Por Vinícius Oliveira
Há quem diga que João Paulo II, papa até 2005, teria escrito aos jovens católicos do mundo inteiro que a Igreja precisava de santos que usassem calça jeans, fossem ao cinema, à praia e comessem pizza com os amigos. Apesar do Vaticano nunca ter reconhecido que o texto seria mesmo de Karol Wojtyla, não seria má ideia ter uma figura popular, que atraía fiéis mais novos para uma religião que, em tese, não envelheceu muito bem. E esse tal Santo tem tudo para ser o seminarista Guido Schäffer, natural de Volta Redonda, que acaba de receber da Santa Sé o título de “venerável”, designação concedida a quem seja reconhecida a prática de virtudes heroicas em nome de Deus.
Nascido na cidade doaçoem1974e batizado na Igreja de Santa Cecília, Guido foi criado em Copacabana, no Rio de Janeiro. Surfista por paixão e médico por profissão, dedicou os breves anos de sua vida (morreu em 2009) à religiosidade. Seus familiares contam que vivia a caridade, servindo aos pobres, sobretudo aqueles em situação de rua, até o dia em que uma prancha solta acertou sua nuca, tirando-lhe a vida. “Ele começou esse trabalho com as Missionárias da Caridade. Víamos um gosto muito grande pela Palavra de Deus e um dom para transmitir. Era uma alegria ter um irmão assim. Passei a consultá-lo para uma oração e pedir
conselhos. O interessante é que ele era quatro anos mais novo do que eu, mas já era tão mergulhado na fé. Passamos a pedir conselhos a ele, oração nos momentos difíceis. Antes, fazia como médico, pois tinha o dom da cura, e as pessoas percebiam”, contou Ângela Schäffer Isnard, irmã de Guido, em um vídeo publicado no YouTube em 2020.
No vídeo, Ângela conta que Guido cresceu gostando de ouvir o que a mãe tinha a dizer sobre Deus. “E ela tinha muito para falar, porque era dona de casa e se dedicava à igreja, aos trabalhos voluntários. Ela participava do Grupo de Oração Bom Pastor, que é uma comunidade na Paróquia Nossa Senhora de Copacabana, e esse grupo tinha várias obras de voluntariado. Minha mãe era responsável por uma que evangelizava nas escolas públicas. E Guido já pequeno, adolescente, escutava essas histórias, e eu percebia nele uma acolhida às palavras de minha mãe e confiança no que ela falava sobre a fé, que ele partilhava com os amigos com quem pegava onda. Era um ótimo irmão. Até tínhamos alguns desentendimentos normais. Naquele tempo, tínhamos uma televisão e brigávamos por qual canal assistir. Conversávamos muito sobre a fé, e fui acompanhando e vendo- o progredindo nela”, contou.
Em seu depoimento, Ângela diz que, além do mar, Guido amava quando tirava férias em Volta Redonda e ficava na casa da avó materna. “As lembranças dele em família é que gostava de praia. Fomos criados em Copacabana, e a minha mãe costumava levar a gente à praia na infância para tomar sol, se exercitar. Ele gostava muito do mar desde pequeno, e tenho essa lembrança, das brincadeiras ao ar livre. Nas férias na casa dos nossos avós, em Volta Redonda, havia um quintal grande e brincávamos de pique. Ele gostava de subir em árvores e coisas bem aventureiras. Jogava bola e, se ela caísse no telhado, ele subia lá, todo prosa, para pegar a bola. Se caísse na casa do vizinho, pulava o muro. Era essa figura”, relembra Ângela.
A história de Guido emociona, mas só isso não garante que alguém vire santo. Ainda há um
longo caminho que seus fiéis seguidores e familiares precisam percorrer se quiserem que Guido seja beatificado e entre para a história da Igreja Católica eternamente. Em uma entrevista concedida ao aQui, a Cúria local garante que as chances de Guido virar santo são promissoras. “O fato de a Igreja declarar Guido como Venerável demonstra a existência de fortes indícios que sustentam seu reconhecimento e eventual canonização. Estamos imensamente felizes e orgulhosos por ele ter nascido e feito o batismo em Volta Redonda, como filho da nossa Diocese”, relataram.
Ciente de que Guido era muito mais conhecido no Rio, a Cúria pretende promover ações que divulgarão a história do seminarista aos volta-redondenses, aumentando, assim, o coro de orações em favor da canonização. O primeiro grande evento em homenagem a Guido será no dia 18 de julho, com a presença de D. Orani João Tempesta, cardeal Arce-bispo do estado do Rio. “Temos a intenção de registrar o momento especial aproveitando a vinda do Dom Orani, que irá presidir uma missa na Igreja Matriz de Santa Cecília por ocasião do Renasem (Retiro para seminaristas do Estado do Rio de Janeiro) e inaugurar uma placa indicativa, um memorial onde se encontra a pia batismal na qual Guido foi batizado”.
Se o Vaticano precisar de provas milagrosas para se convencer de que Guido é de fato santo, não será difícil encontrá- las. Nas redes sociais, muitos seguidores do jovem de Volta Redonda contam das bênçãos que receberam, afirmando que foram dadas por ele. @viniseixas, por exemplo, conta no Instagram que já foi atendido duas vezes após rezar para Guido. “Chorei de emoção quando vi a notícia do título de venerável. Por duas vezes pedi a intercessão do Guido. A primeira quando minha mãe foi diagnosticada com câncer. A segunda, quando ela teve AVC. Em ambas, fui atendido. E hoje minha mãe está bem, com poucas sequelas. Isso sem contar a vez que, em um momento de angústia, vi Guido sorrindo entre várias fotos de papas, como quem dizia que aquilo ia passar. Hoje sei que tenho um amigo lá no céu”, revelou.
Também apareceu nas redes sociais de Guido @leandro_carioca, alegando ser o salva-vidas
que socorreu o seminarista após seu afogamento. “Esse foi um dos dias mais marcantes como salva-vidas. Centenas de pessoas rezando em volta enquanto eu fazia os proce- dimentos de primeiros socorros. Nesse dia eu era o guarda-vidas no posto 11. Me lembro como se fosse ontem. Feriado de 1o de maio. A ambulância demorou mais do que o costume. Só lembro do Pai-Nosso que todos rezavam e de alguém rezando em latim ao meu lado. Pela história, era um menino de Deus”, escreveu.
Para os religiosos da região que se empolgaram com a ideia de ter um santo de origem volta-redondense, Guido não é o único do Sul Fluminense com chances reais de fazer parte da legião de santos católicos. Há pelo menos mais dois no páreo. Franz de Castro Holzwarth é um desses. Natural de Barra do Piraí, leigo e advogado, Franz foi morto em uma rebelião na cadeia de Jacareí, em São Paulo, onde mantinha um serviço social. “Em um ato de coragem, Franz se ofereceu como refém, fazendo jus à dedicação aos mais necessitados”. O processo rumo à canonização de Franz é acompanhado pela Diocese de São José dos Campos.
Nas bandas de Pinheiral, correm rumores de que D. Martinho, padre beneditino que se dedicou à Paróquia até a sua morte seria um santo e anda promovendo milagres. “Todos falam de forma alegre de sua humildade e despojamento. Quem sabe pode ser um candidato à honra dos altares. Rezemos por essa intenção”, diz a Cúria.

