Por Mateus Gusmão
Quem passar pela Avenida Lucas Evangelista, no Aterrado, pode sentir uma atmosfera pe- sada, digna de velório. Talvez até veja nuvens negras sobre o prédio da Câmara de Volta Redonda.É que o clima por lá anda pra lá de ruim. Por vários motivos: partem de intrigas, discussões, acusações, vazamento de informações e investigações por parte do Ministério Público do Rio. Que, aliás, pôs fogo na cidade ao enviar release à imprensa, na manhã de quinta, 1o, dando conta que o Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado, com o apoio da Coordenadoria de Segurança e Inteligência, estaria investi- gando a contratação de funcionários fantasmas para o gabinete de vereadores (no plural, como consta do e-mail, grifo nosso).
O presidente da Casa, Paulo Conrado, não gostou do título da postagem do aQui nas redes sociais. “Vocês colocaram ‘vereadores’ na manchete, mas pode ser que seja só um”, reclamou. Foi informado, é claro, que a informação tinha partido do próprio MP, que no release escreveu: “A operação tem como objetivos investigar e coibir ilegalidades praticadas no âmbito da Câmara Municipal relativas à contratação de funcionários fantasmas para o gabinete de vereadores”.
Foi em cima da nota oficial do MP que os volta-redondenses tomaram ciência da operação, que ganhou o nome de ‘Prática Nefasta’, tendo como alvo parlamentares de Volta Redonda, cujos nomes o MP não forneceu. Um deles – se existirem mais, é claro – surgiu quando os agentes foram ao gabinete de Antônio Régio Gonçalves Dias, o Lela (PSC), à procura de evidências. A casa do parlamentar também teria sido visitada, assim como a de Jorge Amado Oliveira Cunha, o Baianinho, assessor parlamentar de Lela.
As investigações preliminares mostram que Jorge Amado, o “Baianinho do Salão”, embora nomeado como assessor comunitário, não estaria comparecendo à Câmara e trabalharia, no horário do expediente parlamentar, como cabeleireiro. Na ação, foram apreendidos celulares, documentos e dispositivos eletrônicos, cujo conteúdo ainda será analisado.
Apesar do estardalhaço que gerou, ninguém foi preso, e o vereador Lela, obviamente, se
defendeu. “Todas as informações e documentações já foram entregues ao Ministério Público, e estamos tranquilos quanto à nossa idoneidade”, disse em nota, ressaltando que a denúncia se refere à atuação de um funcionário fantasma. “O que não procede, pois o cargo de assessoria comunitária existe, e o assessor citado (Baianinho) desempenha um excelente serviço junto às comunidades da nossa cidade”, completou
A presença dos agentes do MP gerou vários boatos acerca da participação de outros vereadores, agitando ainda mais os bastidores da Câmara. A desarmonia entre eles está longe de acabar. Prova é que na quarta, 31, Vander Temponi e Raone
Ferreira protagonizaram mais uma discussão acalorada em público. Foi durante a audiência de prestação de contas da secretaria de Saúde relativa aos primeiros quatro meses de 2023.
Temponi, como líder do governo Neto, criticou a fala de Raone sobre os recursos que o governo Federal teria depositado para as prefeituras pagarem o novo Piso Nacional de Enfermagem, o que chegou a ser negado por Conceição Souza. “A gente precisa ter responsabilidade para dar notícias, dá impressão de que o município já recebeu o dinheiro, e isso cria uma expectativa que é ruim para essa Casa e para vocês. Tem que ter responsabilidade. Isso muito me preocupa. Dá impressão de que o município de Volta Redonda não quer pagar (o piso), e isso não existe”, disparou Temponi.
Ele aproveitou para cutucar Raone sobre a divulgação da criação da CPI do Transporte, que foi abortada na Câmara, antes mesmo de nascer. “Não teve (pedido) CPI nenhuma aqui pra assinar. Nada. E aí toda a população tá dizendo que os vereadores não querem a CPI dos Ônibus”, disse Temponi, dando a entender que a divulgação feita por Raone nas redes sociais – de que não teve apoio para abrir a CPI do Transporte Público – seria mentirosa.
Raone não gostou e disparou contra o líder do governo Neto. “Vereador Temponi, quando o senhor fala que não houve apresentação de CPI, o senhor está mentindo. Eu que escrevi o requerimento (de abertura). Conversei com todos os vereadores, até com o senhor. Eu precisava de sete assinaturas, e o senhor
não assinou. É mentira o que você disse”, retrucou. Temponi revidou e os ânimos se acirraram. “Eu não falei em requerimento. Quem está mentindo é você. O que não teve foi abertura de CPI, isso não teve. O único mentiroso aqui é você. O que você fez foi requerimento, não teve CPI instaurada, não. Mentiroso aqui é você”, acusou Temponi, de forma áspera. Vale ressaltar que, conforme registrado pelo aQui na edição anterior, Temponi chegou a admitir que pediu, como líder de governo, para que os parlamentares não dessem apoio à criação da CPI. Não é só o clima entre Raone e Temponi que está ruim na Câmara. Em maio, Dinho e ‘Nós do Povo’ quase saíram no tapa com um chamando o outro de ‘mau-caráter’. Na quinta, 25, o quiproquó foi resolvido. Dinho e ‘Nós do Povo’ só faltaram se abraçar, e a paz voltou a reinar entre
eles. Por enquanto…
BOATE
Outra polêmica na Câmara envolve a casa noturna Cyrela, que funcionava na São João, e que foi fechada porque estaria funcionando como boate, quando tinha alvará apenas para funcionar como bar, com música ao vivo. Insatisfeito e querendo reabrir a casa, um dos sócios da empresa teria entrado na Justiça exigindo que a prefeitura liberasse o alvará para o funcionamento da boate. Ao recorrer, o empresário teria dito que o filho de um vereador teria pedido, em nome do pai, a quantia de R$ 20 mil para a liberação de toda a documentação necessária ao funcionamento do empreendimento. O processo segue na 3a Vara Cível de Volta Redonda.
FOFOCAS
O clima azedo entre os parlamentares aumentou, como o aQui revelou na edição passada, com exclusividade, quando os vereadores se reuniram na quinta, 25, de portas fechadas, para lavar a roupa suja entre eles por conta dos vazamentos de informações que têm sido frequentes a respeito da atuação dos parlamentares. O mais cobrado foi Raone Ferreira (PSB), da oposição. Ele foi acusado de estar vazando até o nome dos vereadores que se recusaram a assinar o pedido de abertura da CPI dos Ônibus, proposta por ele, Raone.
Um dos mais exaltados contra Raone era Neném. “Eu não quero ser seu amigo, e não gosto do seu jeito de fazer política. Mas sempre vou te tratar com educação, que minha mãe me deu. Mas eu quero dizer que já cansei de ver aqui vereador tentar fazer esse tipo de política suja que você faz, e normalmente não dá certo”, justificou.
O ‘xis da questão’ é que os detalhes da reunião acabaram vazando para o aQui, e foram publicados. Raone, ao ler o jornal, não gostou do vazamento. E enviou uma imagem da nota no grupo de WhatsApp dos vereadores, utilizado para debates entre eles. Escreveu que era incoerência eles (vereadores) fazerem uma reunião para acusá-lo de vazar informações, sendo que os próprios parlamentares vazaram o que aconteceu ao aQui.
O bate-boca aumentou quando ninguém, é claro, se identificou como a fonte do jornal. Raone, por sua vez, enviou uma nota ao aQui para se posicionar sobre a reunião secreta – que não foi secreta. “Meu mandato é responsável pelas pautas que defendemos e colocamos em debate. A abertura de uma CPI do transporte coletivo foi solicitada em Audiência Pública no dia 8 de maio pela população. Eu me comprometi com os mais de 200 cidadãos que participaram. Propus a Comissão Especial de Inquérito, mas não consegui as assinaturas suficientes, visto que segundo o Regimento Interno são necessários 1/3 dos vereadores para que a Mesa Diretora faça o Projeto de Resolução instaurando a CEI. Meu mandato continuará fiscalizando o transporte e não é meu perfil levantar críticas a nenhum parlamentar. Cada parlamentar é responsável pelo que diz, vota e assina. Eu sou responsável pelo meu mandato”, escreveu Raone.

