Jovem escritor de Valença chega à Bienal de SP com as aventuras de ‘O Homem-Pneu’
Walter Barros
Miguel tinha oito anos e já rabiscava seus primeiros quadrinhos no papel. Ainda que pouco compreendidos pelos parentes, que desembolsavam R$ 1 pelos livretos, os traços forjaram uma chave que abriria a porta de um novo mundo para ele: a Literatura. Hoje, aos 14 anos, o escritor mirim de Valença é uma das atrações da Bienal de São Paulo, que acontecerá em setembro, com o livro ‘O Homem-Pneu’, da editora Uiclap. Mas a trajetória de Miguel também se confunde com a do herói improvável da obra, já que o escritor mirim foi diagnosticado com autismo nível 2 quando tinha apenas 3 anos.
“Eu gostava muito de desenhar quadrinhos, só que os meus desenhos não eram tão bons, mas eu sempre gostei de escrever. Aí eu peguei os personagens que fazia nos quadrinhos e coloquei no livro. Eu leio muitas histórias em quadrinhos, do Batman, do Homem-Aranha, do One Piece. Eu meio que juntei essas ideias e nasceu O Homem-Pneu. É um herói que salva pessoas, enfrenta vilões, e tem seus heróis aliados também”, conta.
Miguel revelou ao aQui que o livro foi como asas para uma nova maneira de lidar com o autismo, que hoje é de nível 1: “Abriu um novo mundo de possibilidades para mim através da escrita, me ajudou a lidar melhor com as coisas. Toda vez que eu me sinto meio triste, escrevo, e aí me acalmo, como se o problema não existisse. A escrita me ajuda a expressar como estou”, pontua.
As aventuras de John Caster, ‘O Homem-Pneu’, em sua missão de salvar a cidade de Rules Vill das garras do vilão Hand-Maker, começaram a se materializar em outubro do ano passado, quando o escritor de Valença lançou o primeiro livro da série. “Foi bem legal, porque eu vi a minha ideia ali na minha frente, o que eu tinha escrito meses atrás estava ali em papel, físico”, diz, emocionado.

As portas da Literatura começaram a se abrir para Miguel meses antes, na Bienal do Livro do Rio Janeiro, da qual a mãe dele, Alessandra Carvalho, participou como coautora de uma coletânea de histórias. “Quando chegou lá, vendo aquele monte de gente tirando foto e fazendo entrevista, ele me abraçou e falou assim: ‘Mãe, eu quero participar de uma Bienal’. Eu falei: ‘Mas você está participando dela’. ‘Não, eu quero participar com o meu livro’. Eu até me arrepio, até me emociono falando disso. Então eu disse assim para ele: ‘Miguel, mas para participar de uma Bienal você tem que ter o livro’. E ele falou para mim: ‘Mas eu tenho o livro escrito’”, lembra a professora, que não se contém: “Vê-lo escrevendo é um orgulho para mim”.
Alessandra e o marido, Leonardo Esteves, contrataram a design Maitê Francini para fazer a ilustração e a diagramação do livro, enquanto promoviam uma vaquinha on-line para arcar com os custos da produção da obra. Mas ela também serviria como inspiração para Miguel, que rabiscava quadrinhos e jogava videogame enquanto espreitava a mãe teclando no computador a história que faria parte da coletânea. “Em 2020, eu fiz mestrado. Minha professora do mestrado, que era a nossa orientadora, pediu para que escrevêssemos um capítulo da nossa vida contando por que chegamos ao mestrado. Eu contei a história do Miguel, desde o início do tratamento. Um dia, ela me ligou e falou: ‘Alessandra, transforma a sua história num livro’. Eu falei que não tinha pretensão em transformar isso em livro. Ela compartilhou minha história com um colega do Rio de Janeiro, que ia fazer parte de um livro chamado ‘Coletânea de Coletânea’”, revela.
‘O Homem-Pneu’ também diz muito sobre o autismo do escritor. “O Miguel é meu único filho e foi diagnosticado aos 3 anos como autista nível 2 de suporte, que é aquele autista que vai ter uma vida mais ou menos igual à nossa. Aí, nós conseguimos, com terapias, escola e muito trabalho trazer o Miguel do nível 2 para o nível 1 de suporte. A inclusão não acontece igual para todo mundo. Por exemplo, o que dá certo para o meu filho pode não dar certo para o seu. Então, a inclusão é algo bem peculiar”, explica a professora.
Protagonista de sua própria história, Miguel acrescenta que já escolheu o terno para a Bienal, deixando escapar que o segundo livro da série ‘O Homem-Pneu’ deve ser lançado em outubro. “Muitas pessoas que convivem com autismo dentro delas podem fazer mais coisas ainda, é bastante legal mostrar isso”, diz o autor de ‘O Homem-Pneu’. Que tem muito a nos ensinar!

