O que era para ser um momento de fé e comunhão acabou gerando um quiproquó entre autoridades da cidade do aço e do meio evangélico. Trata-se do 27o Congresso de Missões do Sul Fluminense, evento da Assembleia de Deus, que aconteceu no último final de semana, na Ilha São João. O motivo da briga seria a arrecadação de alimentos não perecíveis na entrada do evento, conforme manda a legislação municipal em eventos em espaços públicos de Volta Redonda.
A briga foi protagonizada pelo ex-vereador Fernando Martins, um dos líderes da Assembleia de Deus, e por William Ferreira de Carvalho, que é presidente do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável. Em carta aberta enviada à imprensa, William acusa Fernando Martins de atrapalhar a arrecadação de alimentos durante o evento e até de ameaçá-lo de prisão. O ex-vereador, por sua vez, diz que a confusão foi por conta do pedido de doação em dinheiro, em forma de vale- alimentação.
Na carta aberta feita pelo presidente do Conselho de Segurança Alimentar, ele destaca que no termo de autorização de uso dado pela prefeitura à Assembleia de Deus é obrigatório no evento que utiliza espaço público acontecer a arrecadação de alimentos. William ainda disse que protocolou um ofício para tratar do assunto junto à Igreja e não obteve retorno. “Considerando que fomos desrespeitados, enquanto pessoas e instituições, afinal somos um Conselho de Direitos e de Controle Social, passamos a seguir a discorrer sobre fatos lamentáveis”, diz a carta.
Segundo William, na sexta, 14 (segundo dia do Congresso de Missões, grifo nosso), os representantes voluntários das instituições foram abordados de forma desrespeitosa, afrontosa e inclusive ameaçados de prisão, caso continuassem abordando as pessoas nos seus veículos nas portarias do evento. “O fato mais agravante foi o de ameaçar de prisão este presidente do Conselho de Segurança Alimentar, pois estávamos utilizando uma caixa de som solicitando que as pessoas fizessem um ato de amor doando um quilo de alimento não perecível”, disparou William, ressaltando que os alimentos arrecadados seriam levados ao Banco Municipal de Alimentos da PMVR, gerenciado pela SMAS. “Os alimentos arrecadados, depois de recebidos, são avaliados pela nutricionista, quantificados, higienizados e separados, para posterior doação às instituições cadastradas neste Conselho de Segurança Alimentar para serem distribuídas às famílias carentes do nosso município”, completou, ressaltando que o conselho teria tentado tratar do assunto da ‘melhor forma possível’ e sem citar nomes dos envolvidos no imbróglio. “Entretanto, não se obteve sucesso em apaziguar os ânimos, desta forma, entendemos por bem que deva-se dar nomes aos envolvidos, dado o descontrole e a forma muito desrespeitosa dos atos acima descritos, portanto informamos se tratar do senhor Fernando Martins (ex-vereador)”, disparou William de Carvalho.
Ainda segundo a carta, onde chama Fernando Martins de agressor, ele não teria apresentado nenhum documento dando a prerrogativa de ser representante do evento. “Dada a intempestiva ação do referido, após esse ter danificado o cartaz do Conselho, e de parceiros, que estavam afixados no portão da entrada principal da Ilha São João, nós voluntários, achamos por bem, para evitar conflito, desligar a caixa de som, afinal estávamos ali para um propósito maior: ajudar o próximo e cumprir a lei. Esperamos que outros entendam também que a lei é para ser cumprida”, completou William.
“NÃO FOI ASSIM”
Como não poderia deixar de ser, o aQui procurou o ex-vereador Fernando Martins para saber sua versão da história. De acordo com ele, William de Carvalho foi recebido pela Igreja para tratar de como seria a arrecadação de alimentos. “Ele esteve com o pastor Alex, no pavilhão da Ilha, para tratarem disso”, comentou, ressaltando que a própria igreja, em seu material de divulgação do Congresso de Missões, pedia para que os fiéis levassem um quilo de alimento para doação. “Mas não é obrigatório, nem todo mundo pode contribuir, é uma doação voluntária”, disparou Fernando.
Segundo ele, na noite de sexta, 14, os membros do Conselho de Segurança Alimentar estavam utilizando uma caixa de som para pedir doações. “Isso gerou incômodo nos fiéis, ali era um ambiente de catedral, de igreja. A doação não era obrigatória, é facultativa. As pessoas doam se, por acaso, puderem doar. Nem todos podem”, comentou Fernando, ressaltando que ele, junto com o jurídico da Igreja, teria ido aos voluntários pedir para que desligassem a caixa de som.
Tem mais. Segundo Fernando , que enviou fotos para a reportagem, os membros do Conselho de Segurança esticaram uma faixa na entrada da Ilha São João vendendo ‘tickets’ de alimentos nos valores de R$5, R$8 e R$10, em parceria com um supermercado da cidade. “Isso não é permitido. O que está na lei é a arrecadação de alimentos, não de dinheiro”, disparou, ressaltando que não teria rasgado nenhuma faixa, conforme relatado por membros do Conselho de Segurança Alimentar. “A gente, junto com o jurídico, pediu para retirar. E caso não fosse, iria ligar para a polícia, pois isso não está na legislação”, completou.
Fernando destacou que o quiproquó aconteceu apenas na sexta, 14, e que nos outros quatro dias de Congresso de Missões a arrecadação de alimentos aconteceu sem qualquer intercorrência. “Eu não havia tomado conhecimento dessa carta do presidente do conselho. Fiquei sabendo por vocês (aQui). Vou analisar e, se necessário, tomar as medidas judiciais cabíveis”, concluiu. Então tá!
Volta Redonda quer garantir alimentação às famílias carentes
Por falar em alimentação, a prefeitura de Volta Redonda lançou na quarta, 19, um projeto para garantir alimentação às famílias em vulnerabilidade socioeconômica e insegurança alimentar e nutricional. O ‘Comida de Verdade’ irá doar uma cesta de alimentos contendo verduras, legumes e frutas para grupos familiares que estejam sendo acompanhados pelos equipamentos de proteção social básica da secretaria de Ação Comunitária, com crianças de 0 a 6 anos, e que recebem o cartão-alimentação.
A previsão é de que cerca de 400 crianças e suas famílias sejam atendidas nesta primeira etapa, que irá até março de 2024. As doações serão entregues pelo Banco Municipal de Alimentos nos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), com dia e horário definidos pelas equipes da segurança alimentar e nutricional da Smac, conforme disponibilidade do Ceasa/RJ (Centrais de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro), podendo ser mensal ou bimestral. A cesta terá cinco quilos para famílias de até cinco pessoas e sete quilos para as com mais de seis pessoas.
A diretora do Departamento de Vigilância Socioassistencial, Thaís Alexandre, ressaltou que a prioridade do projeto será auxiliar usuários do Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família (PAIF) nos Cras. “A situação de insegurança alimentar e nutricional cresceu de forma mais intensa após a pandemia de Covid-19, quando agravou o quadro de desigualdades sociais que já estavam instaladas no país. Cientes disso, e almejando o cumprimento do direito humano à alimentação adequada e a diminuição do número de pessoas em situação de insegurança alimentar no município, criamos o projeto ‘Comida de Verdade’”, explicou a diretora.

