Por Pollyanna Xavier
Nas duas últimas décadas, a Companhia Siderúrgica Nacional deixou de ser apenas ‘siderúrgica’ e passou a integrar, em um só arcabouço, cinco ativos altamente rentáveis: mineração, cimento, energia, logística e, claro, seu produto primário – o aço. E é neste conglomerado que a maior siderúrgica das Américas chegou na casa dos 80, operacionalmente ativa. Na terça, 9 de abril, a CSN completará 83 anos de fundação, com o mérito de ter participado da construção industrial do país. Octogenária, a empresa está listada na bolsa de valores, emprega mais de 30 mil funcionários, está presente em 17 estados brasileiros e também em dois países (Portugal e Alemanha), mantém forte seu braço social e no ano passado lucrou mais de R$ 1,2 bilhão.
A história da CSN começou em Volta Redonda e hoje se espalha pelo mundo. Seus números operacionais são sólidos, e a empresa tem conseguido apresentar resultados cada vez melhores. No início de março, o presidente do grupo, Benjamin Steinbruch, reuniu, em São Paulo, seu corpo executivo para apresentar a investidores e analistas de mercado mais um balanço financeiro da companhia. Os resultados surpreenderam: a CSN apresentou um lucro líquido de R$ 851,1 milhões no quarto trimestre de 2023 (4T23), indicando uma alta inacreditável de 332,5% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
A receita líquida da empresa também cresceu, dando um salto de 7,9%, tanto no comparativo anual quanto no trimestral, chegando ao patamar de R$ 12 bilhões. No acumulado de todo o ano de 2023, o apurado foi de R$ 22,7 bilhões. Esse resultado positivo tem nome e endereço: as atividades das minas da CSN nas Gerais (Arcos e Casa de Pedra). Segundo o próprio Steinbruch, o resultado da receita líquida foi impulsionado pela produção e comercialização de minério de ferro, alcançando 11,1 mil toneladas vendidas só no último trimestre de 2023. No ano inteiro foram 42,6 mil toneladas – muito superior às vendas de placas de aço, que fecharam o ano com 4,1 mil/t vendidas.
Um dos ativos mais rentáveis da CSN em 2023, atrás, claro, da mineração, foi o de cimentos. Para se ter uma ideia, o volume de vendas no ano passado, em relação a 2022, cresceu 75,8%, pulando de 7.243 toneladas comercializadas no mercado interno para 12.770 toneladas. A performance só não foi melhor porque, quando comparados os dois últimos trimestres de 2023, nota-se uma queda de 4,1% nas vendas, devido à sazonalidade do mercado. Em compensação, no acumulado do ano, houve aumento de 7% em relação a 2022. Aliás, o cimento é o próximo ativo da CSN a ser listado na bolsa. A abertura do seu capital foi anunciada antes da pandemia, mas ainda não aconteceu. A empresa não deu previsão.
A dívida líquida da CSN é um capítulo à parte. É que, assim como a maioria dos indicadores financeiros cresce, a dívida também. A empresa fechou os três últimos meses de 2023 devendo R$ 30,69 bilhões ante R$ 24,3 bilhões em 2022. A alavancagem tem feito com que a CSN busque o alongamento de prazos de amortização, com foco em operações de longo prazo e ainda no mercado local de capitais. Uma das estratégias adotada em 2023 foi a emissão de títulos de renda fixa, negociados no exterior (chamados de bonds), com recompra parcial. A transação permite a captação de recursos a curto e médio prazo.
Ainda sobre a dívida líquida, a CSN comemorou a queda, digamos bastante tímida (algo em torno de 2%), no índice de alavancagem entre um trimestre e outro. Em 2022, no CSN Day, Benjamin Steinbruch reconheceu que cometeu erros no passado, “na emergência de aproveitar oportunidades usando de forma abrupta o capital de giro”, justificou. O resultado impactou diretamente no endividamento da CSN. Tanto que uma das saídas seria diluir os cinco ativos e transformá-los em empresas independentes, com CNPJ próprio, listadas na bolsa. A promessa, divulgada com exclusividade pelo aQui, segundo o próprio Steinbruch, não foi engavetada. “Estamos avançando para conquistar aquilo que falamos desde lá de trás, que é ter os ativos separados, independentes e listados. Nós vamos fazer isto. E depois seguiremos com a nossa segunda maior prioridade, que é a desalavancagem”, anunciou.

Benjamin Steinbruch é só sorrisos com desempenho da CSN
Outro indicador citado no balanço financeiro foi o Ebitda ajustado (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que fechou o quarto tri/23 a R$ 3,6 bilhões. O resultado representa um avanço de 16% na comparação anual, ou 26% se comparado com o terceiro tri/23. Vale lembrar que o Ebitda é um dos indicadores financeiros mais importantes na hora de medir os resultados de uma empresa. É ele que vai dizer a quantidade de recursos que a empresa gerou com suas atividades principais, num determinado período, sem considerar a rentabilidade ou o pagamento de impostos. Não à toa, o Sindicato dos Metalúrgicos o colocou na pauta do acordo coletivo deste ano e exige 5% do Ebitda para todos os trabalhadores.
Volta Redonda
Na divulgação dos resultados, Benjamin e seus executivos não anunciaram novos negócios para a cidade do aço. Mal citaram a Usina Presidente Vargas e nem comentaram a reforma do Alto Forno 2 (AF-2), que passou por uma manutenção em 2023 e deve sair do papel em março de 2025. Luiz Fernando Martinez, diretor executivo da CSN, disse apenas que, ao contrário do que se comenta por aí, os equipamentos da UPV passam, sim, por manutenção constante, visando sempre a qualidade do aço. “Eu acredito muito no trabalho técnico e bastante ‘engenheirado’ que está sendo feito na nossa usina de Volta Redonda. A gente nunca trabalhou tanto, nunca investiu tanto neste quesito”, justificou.
A fala foi dita em resposta a um analista de mercado, que participou da divulgação dos resultados como convidado e quis saber do nível de excelência operacional da UPV. A pergunta fez muito sentido. Afinal, a performance da siderurgia no último trimestre de 2023 ficou aquém dos demais ativos. Apesar dos resultados extraordinários apurados de uma maneira geral, é visível que a siderurgia perdeu destaque para a mineração, cimentos e até para a energia. Mesmo assim, não usaram o AF- 2 para justificar o enfraquecimento do aço. O forno teria sido arrefecido no final do segundo trimestre de 2023 e retomado às atividades em fevereiro deste ano. Benjamin, Martinez e demais diretores nada falaram sobre o assunto. A depender da idade da CSN, a gente deixa passar.

