terça-feira, maio 24, 2022
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Chuva de ferro derretido

Acidente mais violento da CSN completa 60 anos

Eram quase cinco da manhã, quando um pote com 70 toneladas de ferro gusa, a 1.200 graus, se soltou do munhão de elevação de uma ponte rolante atingindo cerca de 50 metalúrgicos que trabalhavam no chão da Aciaria. Dezesseis operários tiveram morte imediata, quatro foram socorridos gravemente no Hospital da Companhia e morreram poucos dias depois, e o restante ficou sequelado: perdeu dedos das mãos, partes das orelhas, do couro cabeludo, ou sofreu queimaduras tão violentas que lhes deformaram o rosto. O acidente, considerado um dos mais graves da história da CSN, completou 60 anos na quinta, 27 de janeiro.
Quase uma lenda, o episódio é pouco conhecido das novas gerações de metalúrgicos da CSN. Na internet, há um único registro: uma reportagem com fotos de péssima qualidade, estampada numa página amarelada do Jornal A Noite – um dos mais populares do Rio, na época.  Não há registros no acervo do Arquivo Nacional e os sobreviventes daquele acidente, que ainda poderiam contar os detalhes da tragédia, já faleceram. Exceto por um: Clóvis Gonçalves, um aposentado de 90 anos, morador do Laranjal. Ele e um cunhado chamado Azarias Machado, podem ser os únicos trabalhadores da área, daquela época, que ainda estão vivos.
Clóvis trabalhava no setor de serviço pessoal – uma espécie de Recursos Humanos da CSN – que ficava ao lado da Aciaria. Naquela manhã, ele estava de oito às quatro e chegou pra trabalhar poucas horas depois da queda do pote. A área estava interditada e os corpos ainda estavam no local. “Não derreteram, como muita gente acredita até hoje. Estava tudo torrado, porém, intacto. Eu vi quando um funcionário, com um carrinho de mão, tirou os corpos de lá e levou para o lado de fora da Aciaria. Havia gusa pra todo lado, até nas paredes. Um dos operadores da ponte morreu na própria cabine com o calor que subiu do chão. A cena era de horror”, lembra.
A identificação dos corpos foi feita pela arcada dentária, mas muita gente ainda acredita que só foi possível contabilizar e identificar os mortos, pelos cartões de ponto que, abertos, nunca foram fechados. “Não existiu isto. O engenheiro responsável pela área (Mario Hasek – chefe da Aciaria) recolheu os cartões depois que os corpos já estavam identificados. A perícia interditou a área, somente aquela área. O restante da Usina, não. E o serviço seguiu normalmente nos outros departamentos. O pessoal estava triste, abalado, mas continuou trabalhando”, contou.
Os feridos foram levados para o Hospital da Companhia: alguns mais graves, outros nem tanto. No meio, havia aqueles que nada sofreram fisicamente, mas entraram em estado de choque e também precisaram de atendimento médico. “O pessoal que sobreviveu e que não chegou a ficar internado, não conseguiu voltar a trabalhar na Companhia. Ficaram perturbados. Então, a CSN colocou eles para trabalharem num escritório que ela tinha na Rua 33, na antiga Telerj. Ali funcionava o DSC, que era o Departamento de Serviços da Cidade e quem ficava lá, cuidava das coisas referentes à cidade. Então eles foram pra lá, batiam o ponto, mas não conseguiam trabalhar e ficavam andando sem rumo pela Vila. Iam ao Molicas, no Recreio”, recorda.
Esses trabalhadores nunca mais conseguiram voltar à usina. Após um ano no Departamento de Serviços da Cidade, a CSN levou-os de volta à Aciaria, mas a recondução não foi positiva. “Foi numa dessa que a empresa aposentou todos eles por invalidez. Eles realmente não tinham condições de continuarem trabalhando. Eles ficaram zuretas, completamente desorientados. Não podiam ver fogo ou panelas que passavam mal. Ficaram traumatizados”, disse.
O acidente
Dois funcionários operavam a ponte rolante naquele início de manhã. Porém, um deles deitou para descansar, na própria cabine, enquanto o outro permanecia guiando o equipamento. Ao retirar o gusa do misturador para despejá-lo no forno, o pote – carregado com 70 toneladas – não encaixou corretamente nos ganchos da ponte, fazendo com que, no momento em que foi içado – a uma altura de aproximadamente 20 metros – ele virasse derramando todo o líquido no chão.
“Eram dois ganchos, um de cada lado. Só que ao pegar o pote, o operador da ponte só conseguia ver o encaixe de um lado dos ganchos. O outro não. Então ele encaixou de um lado e içou a ponte, acreditando que o outro lado tinha encaixado também. O pote, que estava preso apenas por um dos munhões, virou, derramando tudo. Quando o gusa atingiu o chão úmido, ocorreu uma explosão que foi ouvida em toda a usina e até fora dela. Trabalhadores de outras áreas correram para ver o que tinha acontecido, mas o calor que subiu do chão fez com que voltassem. Esse calor matou o operador que dormia na cabine há oito metros de altura, o outro conseguiu descer e sair, mas ficou todo queimado. Ele morreu um tempo depois no hospital”, recordou.
Quando a perícia descobriu as causas do acidente (a falta de encaixe dos munhões) a CSN foi obrigada a colocar um funcionário embaixo da ponte para conferir o encaixe dos dois ganchos nas alças. “O mestre da aciaria descia e conferia o encaixe dos munhões. Se estava tudo certo, ele avisava o operador e só então o pote era levantado”, relatou Clóvis, acrescentando que os potes de ferro gusa tinham capacidade para 70 toneladas cada, ao contrário da panela, que comportava 10 vezes o volume do pote. “Se fosse a panela que tivesse virado, não teria sobrado nada”, acredita.
O operador da ponte – identificado como Antônio Batista Alves – foi responsabilizado pelo acidente. Ele foi socorrido com vida no hospital, mas morreu um tempo depois, devido à gravidade das queimaduras. Ele teve mais de 70% do corpo queimado. No local morreram ainda Jair de Oliveira Guimarães, Vicente Martins Coelho, Sebastião Santana da Silva, Jorge dos Santos, Benedito Francisco de Medeiros, Severino Alves Pimentel, Cândido Ferreira Barroso, Carlos Alberto Pulling Neves, Paulino Alves da Silva. Dois dias depois, faleceram no hospital Miguel Arcanjo de Oliveira e Aníbal Antônio de Melo. Não há registros disponíveis com o nome dos demais mortos.
O bispo da época, Dom Agnelo Rossi, realizou uma missa de corpo presente no pátio do Hospital da Companhia e em seguida o cortejo seguiu para o Cemitério do Retiro, local de sepultamento dos corpos. Houve grande comoção. Segundo a única publicação ainda disponível na internet, as famílias dos metalúrgicos mortos foram indenizadas e os filhos menores receberam habilitação, para quando atingissem a maioridade, trabalhassem na CSN. Durante o sepultamento, a usina chegou a parar suas atividades por um minuto e um alarme foi disparado para que os trabalhadores interrompessem o trabalho em memória dos companheiros mortos.
O acidente teve grande repercussão na imprensa da época, porque foi considerado o maior e mais grave até então. “Naquele tempo, a CSN era considerada uma empresa segura para trabalhar e como era estatal, os jornais ficavam atentos a qualquer evento. Eu lembro que a Aciaria ficou interditada por apenas uma semana, mas por um bom tempo ainda tinham repórteres dentro da usina acompanhando as investigações. Eles entravam e saíam a todo tempo”, contou Clóvis.
Com o passar do tempo, a aciaria velha – local do acidente  – foi desativada e a área transformada em depósito. Segundo Clóvis, pouco tempo depois, a CSN soube que os EUA dispunham de uma nova tecnologia para a corrida contínua do aço e resolveu modernizar a UPV, importando a parafernália. Hoje, o maquinário da época é considerado obsoleto e a Aciaria já passou por outras modernizações, inclusive para garantir mais segurança no trabalho. Sobre o acidente, infelizmente ele foi o primeiro de muitos que aconteceram no interior da UPV, mas mesmo após 60 anos, continua figurando como o mais grave e com maior número de metalúrgicos mortos. Uma fatalidade!

 

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