Se tem uma novela que os volta-redondenses estão cansados de acompanhar é a da Rodovia do Contorno – ou do Transtorno, como ironicamente é conhecida. O pior é que na quinta, 4, mais um triste capítulo dessa trama provocou a morte de Thamires Horta Alves, 27. Ela estava em um carro envolvido em uma colisão no trecho próximo ao Condomínio Jardim Mariana. Estava indo levar o filho, de apenas três anos, para a escola. No acidente, o menino sofreu uma fratura na clavícula e foi encaminhado para o Hospital São João Batista, assim como o marido de Thamires, Felipe Barbosa Duarte, 31. Ambos não correm risco de vida. Além dos três, ficaram ainda feridas no acidente outras duas pessoas, cujas identidades ainda eram desconhecidas até o fechamento desta edição. Elas estavam no veículo que colidiu com o da família de Thamires. A dinâmica do acidente ainda é desconhecida, mas vale registrar que a morte da jovem, infelizmente, não é novidade. Somente em 2023, já ocorreram pelo menos oito mortes na Rodovia do Contorno em decorrência de colisões e capotamentos. “Tem que chamar um padre pra benzer esta via. Chamar os políticos não adianta”, comentou um motorista ao passar pela via logo depois de mais um trágico acidente no local.
Ele pode ter razão. É que, coincidência ou não, a morte de Thamires ocorreu na mesma semana em que obras emergenciais começaram a ser feitas pelo Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) na Rodovia do Contorno. O órgão do governo Federal, que jurava nada ter a ver com a manutenção da pista, teria contratado por R$ 2,7 milhões uma empresa (a LCM Engenharia) para atuar de forma emergencial nos piores trechos da pista. As máquinas, inclusive, começaram a trabalhar na terça, 2 – dois dias antes da morte de Thamires.
O deputado estadual Jari de Oliveira (PSB), responsável por conseguir a liberação dos recursos do Dnit, estava desolado com as notícias do acidente da manhã de quinta, 4. E, em conversa com o aQui, deu uma notícia ruim: as intervenções do Dnit não serão suficientes. “É uma obra emergencial (do Dnit) para resolver os problemas mais urgentes, mas será preciso muito mais recursos. Esse valor que conseguimos junto ao órgão será para resolver problemas urgentes”, explicou o parlamentar, ressaltando que os serviços incluem a retirada do asfalto – de má qualidade – e a colocação de um novo pavimento nos locais de maior gravidade, além da realização de uma operação tapa-buracos, roçada e capina. “Já sabemos que esse contrato não será suficiente para realizar tudo o que é preciso ser feito na Rodovia do Contorno”, destacou Jari, ressaltando que a obra foi inaugurada em 2017 e, desde então, ninguém assumiu a responsabilidade da sua manutenção. “Filho feio não tem pai”, ironizou o deputado. “A obra demorou décadas para ficar pronta e, desde que foi inaugurada, não passou por manutenção. Tem muita coisa para se fazer. Mas as autoridades só começaram a t o m a r providências após as mortes que aconteceram em janeiro deste ano”, sentenciou.
ENTENDA O CASO
Jari está coberto de razão quando cobra responsabilidades. E isso só ficou claro no final de janeiro, quando um acidente trágico, como o que matou Thamires, vitimou quatro pessoas de uma mesma família – entre elas, um bebê de apenas um ano. Na época, DER (Departamento de Estradas e Rodagens), Dnit e prefeitura de Volta Redonda sentaram à mesa para debater a novela da Contorno. E deixaram claro, cada um a seu tempo, que o filho – ops, a rodovia – não era deles. Mas prometeram atuar com medidas provisórias para evitar mais acidentes.
A Justiça Federal chegou a definir que a tutela da pista seria de responsabilidade do Dnit, por ser uma rodovia federal. O Dnit chiou. E, quase 90 dias depois da choradeira, decidiu promover algumas intervenções, após encontro do deputado Jari, em Brasília, com a direção geral do órgão.
Um estudo da consultoria Dynatest feito em dezembro de 2022 – divulgado pelo aQui com exclusividade – apontou diversos problemas na via e mostrou a necessidade de se melhorar a sinalização da via, principalmente
próximo ao trecho urbano. A consultoria mostrou ainda que os caminhões, nos trechos em declive, passavam da velocidade máxima permitida da pista. E sugeria a necessidade de reduzir para 50 km/h a velocidade máxima permitida. O estudo também apontava problemas de escoamento de água da rodovia e terraplenos, que ocorreriam pela péssima condição e falta de dispositivos de drenagem no local.
O que será feito para que todos os problemas da Rodovia do Contorno sejam resolvidos, ninguém sabe. Jari, entretanto, aponta uma direção. “Deve ser feita a caducidade do contrato de concessão da BR-393, hoje operada pela K-Infra. O ideal, e foi o que defendi junto à Agência Nacional de Transporte Terrestres (ANTT), é que na próxima concessão da via seja incluída a Rodovia do Contorno junto. Ou seja, a empresa que operar a BR- 393 também teria que ficar responsável pela Contorno”, opinou.
Enquanto isso não acontece, a responsabilidade da pista continuará sendo do Dnit, e, até prova em contrário, as mortes continuarão ocorrendo. A não ser que chamem o padre. Ou o bispo, se for o caso

