Rodrigo Drable fala da CSN e do polo automotivo das Agulhas Negras, para cobrar posição do Estado sobre futuro da indústria regional e manutenção dos empregos
O ex-prefeito de Barra Mansa e atual candidato a deputado estadual Rodrigo Drable colocou o dedo em duas feridas que pouca gente parece estar interessada em cutucar. A primeira, talvez a mais difícil de cicatrizar, está em Volta Redonda e atende pelo nome de CSN. A outra está na região das Agulhas Negras, entre Porto Real e Itatiaia, onde funciona o segundo maior polo automotivo do país. Em comum, as duas têm a mesma pergunta: o que o Estado do Rio está fazendo para ‘curar’ essas feridas e, sem eufemismos, evitar a perda dos empregos que ainda sustentam boa parte da economia do Sul Fluminense?
Em entrevista a Júlio Esteves, do podcast ‘Tá no Palanque’, na segunda, 24, Drable fez essa pergunta em tom bastante reativo. Em pouco mais de 40 minutos de conversa, o candidato a uma cadeira na Alerj parecia cumprir um protocolo político-eleitoral impecável ao falar de saúde, educação, trabalho, renda e assistência social. Mas, entre esses assuntos, um chamou a atenção: a CSN e a dívida que a empresa tem com o Estado. “A CSN tem uma dívida bilionária com o Estado do Rio, e, como ela pode estar sendo negociada, é necessária (a manutenção da Usina Presidente Vargas, grifo nosso) para a manutenção do nosso modo de vida”, avaliou.
Mencionar a CSN não foi acaso. Drable quis provocar seus adversários a olhar para os problemas da região, sem ignorar que a maior siderúrgica do país anunciou um programa de desinvestimento no início deste ano, com possíveis impactos na economia regional e na empregabilidade. No mesmo raciocínio, fez um alerta em relação ao setor automotivo de Porto Real, Resende e Itatiaia, diante do avanço dos veículos eletrificados e da chegada de novas tecnologias à indústria. “Eu vejo as fábricas chinesas indo para outros estados e outros estados investindo na qualificação de mão de obra para montagem de bateria, recuperação de bateria. O que o estado do Rio tem feito?”, indagou.
No caso da CSN, Rodrigo provocou o Estado, justamente por entender que ele tem dois interesses simultâneos na venda de ativos: o primeiro é a dívida tributária da CSN. Em relatório da Procuradoria-Geral do Estado, com posição de setembro de 2024, a empresa aparece entre os maiores devedores da Dívida Ativa Estadual, com cerca de R$ 2,59 bilhões inscritos em 41 certidões diferentes. A maioria, de ICMS. O segundo interesse está no peso econômico da companhia: apesar da dívida, a UPV emprega milhares de trabalhadores direta e indiretamente e ajuda o estado do Rio a responder por 26,9% da produção nacional de aço bruto conforme dados do primeiro semestre de 2026.
Drable foi além. Disse que a CSN movimenta a economia de Volta Redonda e que, apesar de todos os problemas que gera (incluindo os ambientais), a empresa não pode ser ignorada. “O dinheiro que circula no Sul Fluminense vem do coração que pulsa em Volta Redonda. A gente tem que entender que a CSN não é algo desprezível que pode ser substituído (se fechar, grifo nosso)”, alertou. “A tendência é de que quem comprar a CSN só olhe para Minas, para explorar o minério, e não processá-lo aqui (em Volta Redonda). Se isso ocorrer, nós não teremos mais os empregos”, avaliou. “Não estou vendo ninguém debater isso”, cutucou.
A preocupação de Drable faz sentido. Em fevereiro, Benjamin Steinbruch anunciou a venda do controle da CSN Cimentos, além de uma participação em ativos de infraestrutura. O objetivo é levantar entre R$ 15 bilhões a R$ 18 bilhões e reduzir o endividamento e alavancar o grupo. No início de agosto, a empresa confirmou que recebeu propostas vinculantes pela CSN Cimentos, mas a negociação ainda não foi concluída. A verdade é que ninguém sabe como o mercado regional vai se comportar com uma possível venda da cimenteira e como vão ficar os empregos e o plano de crescimento da UPV a partir da operação. A incerteza vem justamente porque a venda de ativos não mira uma nova rodada de investimentos, mas o pagamento de dívidas.
No caso do polo automotivo, Drable também mexeu na ferida, mas dessa vez apresentou um dado impreciso no podcast com Júlio Esteves. Ele demonstrou preocupação pelo fato de o Brasil ter vendido, em julho, mais carros elétricos do que a combustão. A informação não está totalmente errada, mas apresenta uma falha importante. Os dados da Associação Brasileira de Veículo Elétrico (ABVE) mostram que, em julho, o segmento de veículos eletrificados alcançou 21,1% das vendas do mercado, considerado o maior percentual da série histórica. Ainda assim, os eletrificados não ultrapassaram o quinhão de vendas dos carros a combustão.
Apesar do tom político, a preocupação de Drable não é inventada. É que, enquanto o segmento cresce e a indústria automotiva mundial acelera a transição para veículos híbridos e elétricos, o Estado do Rio precisa disputar investimentos e, principalmente, preparar mão de obra para um mercado que está mudando rapidamente. “Eu não vejo nenhum deputado debatendo isso. Eu estou falando do segundo maior gerador de empregos da região”, reforçou.
Para Drable, a questão não é saber se o carro a combustão vai desaparecer amanhã ou se a CSN vai trocar de dono. A discussão é outra: que papel o Estado do Rio pretende ocupar diante dessas mudanças. E isso não é sobre trocar o curativo, mas garantir que a ferida feche antes que sangre no colo da população.

