Barreira para elas

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Futebol continua sendo ‘coisa de menino’ entre os principais times da região

Walter Barros

O futebol feminino continua longe dos gramados dos principais times do Sul Fluminense. O assunto é ignorado pelo Resende, enquanto o Barra Mansa se queixa de dificuldades financeiras. O Volta Redonda é outro que fica em silêncio sobre o assunto, contrastando com o estardalhaço feito em um auditório lotado em 2023, quando o tricolor de aço anunciou a realização de peneiras só de meninas para compor as categorias de base. O que seria uma parceria ‘autossustentável’ com a New Star Soccer, empresa do ex-jogador Rozenir, e o aporte de um ‘investidor-anjo’ de Barra do Piraí não foi adiante. Levou cartão vermelho assim que começou a atuar. Enquanto isso, o prefeito Neto, que já ajudou a alavancar o Voltaço feminino no passado, não descarta entrar em campo, desde que o clube ‘saia da retranca’.

“Nós tivemos uma equipe feminina em 2016 e outra em 2021. Jogamos o Campeonato Carioca, mas não tivemos como manter, uma vez que os valores para ter uma comissão técnica e as taxas de campeonato são muito altas. Os desafios são financeiros, e também conseguir mulheres para fazer parte da comissão técnica, pois hoje ainda temos poucas profissionais no futebol de campo. No futsal até temos um pouco mais”, ressaltou o Leão, em nota.

Ex-vice-presidente do Barra Mansa, o radialista Walter Cardoso enfrentou as dificuldades para criar uma Leoa em 2016. “O time foi formado para a disputa do Campeonato Carioca e perdeu todos os jogos. Não disputou as competições de 2017 e 2018. Em 2019, uma nova equipe foi criada, com duas vitórias e duas derrotas. De lá pra cá, nenhuma equipe foi montada”, conta, acrescentando que o Barra Mansa atravessa um período de grandes desafios financeiros e revela que, “sem o apoio direto do poder público e sem um patrocinador que atualmente arque com os custos do elenco profissional, o clube tem buscado investidores para viabilizar suas atividades em 2026”.

Cardoso defende, como alternativa, “a formação de parcerias, permitindo que outra equipe represente o Barra Mansa nas competições femininas, preservando a tradição e a presença do clube na modalidade enquanto não há condições financeiras para sustentar um projeto independente”. O caminho de ‘alugar a camisa do Leão’ enquanto o dinheiro não chega é semelhante ao que o Voltaço tentou ao estruturar as categorias de base femininas três anos atrás. “Foi retirado o patrocínio, e a gente também ficou na rua da amargura”, diz Sabino Cunha, 70, ex-coordenador do Voltaço feminino.

Cunha também esteve à frente das ‘Guerreiras de Aço’, que conquistaram o Campeonato Carioca de 2009, junto ao técnico Almir Guedes, falecido em março deste ano. “Almir era um cara batalhador dentro e fora dos campos, um técnico de cobrança forte e de quem todas as meninas gostavam. O Sabino é grande no tamanho e no coração. Eles abraçaram o futebol feminino, vimos de perto o sufoco que eles passaram para manter a equipe. Só tenho a agradecer a eles pelo que fizeram por nós”, lembra Mariana Cabral, 43, professora de educação física.

A volante desembarcou no Voltaço depois de passar cinco anos no Vasco, onde chegou a jogar com a multicampeã Marta. “Nesta época, joguei no Vasco até o rompimento do ligamento cruzado no joelho esquerdo, aí parei por um tempo, até a criação do Volta Redonda, quando fui convidada a jogar, após me recuperar”, detalha. A campeã de 2009 permaneceria até o encerramento do time, no final de 2012. “Foi muita tristeza, porém, foi uma equipe que criou nome e respeito no futebol feminino, e gostaríamos de dar continuidade”, lamenta.

A ascensão e o declínio têm a ver com a participação da prefeitura, mas também com a não adesão de novos parceiros para sustentar o crescimento do projeto. “A Prefeitura com o prefeito Neto nos apoiou junto ao clube, e contratamos jogadoras de ponta. Nós tivemos aqui nove jogadoras com passagem pela seleção brasileira, trouxemos mulheres que jogavam em clubes como Milan, da Itália, Internacional, São José, Santos, Atlético Mineiro; formamos uma equipe fortíssima, que foi campeã carioca. O único título do Volta Redonda FC de campeão estadual da Ferj é das meninas, das mulheres”, dispara Sabino.

As meninas do Voltaço alcançariam outras façanhas, como a Copa Coca-Cola sub-15 de 2011, sem saber que o projeto seria ‘derrotado’, com a retirada dos investimentos da Prefeitura. Neto, no entanto, alega que o Voltaço assistia de camarote ao crescimento do futebol feminino sem novos parceiros e com a Prefeitura arcando com a maior fatia dos investimentos. “A Prefeitura contribuiu para que o projeto do futebol feminino pudesse se desenvolver e alcançar importantes resultados. Com o passar dos anos, no entanto, houve mudanças no cenário financeiro e no próprio projeto, exigindo uma readequação dos investimentos municipais”, explica.

Neto vai além. Lembra que a Prefeitura apoia competições de futebol feminino e revela que o Raulino de Oliveira estará à disposição da CBF e da Fifa para a Copa do Mundo de 2027. Neto também não descarta novas parcerias para viabilizar o ‘Voltaço de saias’, mas salienta que “qualquer iniciativa depende da apresentação de um projeto consistente, da viabilidade financeira, dos aspectos legais e da possibilidade de construção de parcerias, inclusive com a iniciativa privada”. O que Sabino garante já ter proposto para a diretoria do clube, que, segundo ele, concorda em ‘alugar a camisa e o nome do clube’, desde que haja patrocínio para custear o time, incluindo a comissão técnica.

Com o encerramento do Voltaço feminino, diversas atletas foram brilhar em outros gramados, no Brasil e no exterior. “Temos a Maitê, que até pouco tempo estava na Seleção Brasileira, joga no Internacional. A Diana, que está no Palmeiras; a Carol, que está no Barcelona; a Dani, que joga no Roma, na Itália. Nós temos a Rodriguinha, que está na Grécia”, relata Sabino.

Após outra lesão, desta vez no joelho direito, Mariana decidiu pendurar as chuteiras profissionalmente, mas disputa competições universitárias e municipais. Atualmente, ela é técnica da equipe de Vassouras de futsal, que está jogando o estadual de futsal adulto feminino. Apesar da determinação, ela reconhece que investimento para o futebol feminino é muito difícil, ainda mais para o interior: “Não ter bases aqui no interior é ruim para a menina que queira se tornar profissional. Dificulta muito até para os clubes maiores saberem que há meninas, no interior, boas de bola”.

Mãe do jovem Piettro, uma das promessas do masculino sub-15 do Resende, Mariana ainda carrega um pouco da menina que chegou a São Januário, aos 13 anos, com fome de bola e o sonho de brilhar nas quatro linhas. “Peço que as meninas não desistam nunca. São elas que vão continuar esse legado e, quem sabe, o futebol feminino, com mais uma Copa, principalmente no Brasil, tenha mais apoio e incentivo a mulheres jogando bola”.