Balada da Covid

Festas clandestinas acontecem nas barbas das autoridades de Volta Redonda e Barra do Piraí

Vinicius de Oliveira

Na manhã de segunda, 7, às 6 horas, o professor Carlos Almeida saía de casa para assumir sua turma em uma escola da rede municipal de Barra Mansa, que retomou suas atividades presenciais mesmo antes da vacinação. Usando máscara, parou em uma padaria no Santo Agostinho para tomar um café. Para sua surpresa, na fila do pão estavam quatro jovens vestidos com roupa de festa. “Achei curioso o horário e a vestimenta deles. Me lembrou dos tempos que eu virava a noite na balada. Mas, devido à Covid, não me toquei de onde estavam vindo. Só depois parei para pensar. Era nítido que tinham virado a noite em algum baile. Alguns deles usavam máscara, outros não. Todos tinham uns 20 anos. Se achavam acima do bem e do mal, super-homens contaminando os demais”, relatou.
Cenas como esta estão se repetindo cada vez mais nas cidades da região. Em Volta Redonda, apesar da força-tarefa nas ruas, as festas clandestinas acontecem todo final de semana. E quem organiza começou a abusar. Já há três semanas, por exemplo, a Polícia Militar e a Guarda Municipal desmantelaram uma rave que ‘rolava’ em um sítio no Açude I. O local, claro, não tinha alvará para realizar qualquer tipo de evento. O organizador da festa, que não teve o nome divulgado, foi apenas autuado. Permanece na ‘moita’, preparando, talvez, uma nova superfesta para os jovens de Volta Redonda e cidades vizinhas.
Detalhe importante: os organizadores das raves estão cada vez mais ousados, e decidiram diversificar os locais dos eventos a fim de driblar a fraca fiscalização da força-tarefa. Para se ter uma ideia, recentemente, ao menos duas megafestas foram flagradas. Uma aconteceu na quarta, 9, na estrada de acesso à Fundação Beatriz Gama. A outra, mais badalada, ocorreu na Califórnia, em Barra do Piraí.
Conhecida como Baile da Balsa, os infratores passam por trás do Chalé Motel e precisam atravessar o Rio Paraíba. “O bagulho é doido. Sobe um monte de gente numa balsa para atravessar o rio. Se virar, já era. É aglomeração em cima de aglomeração e rola de tudo”, contou uma fonte do aQui que costuma frequentar o polêmico e arriscado evento.
O que muitos não sabem é que muitas das festas estariam sendo financiadas pelo tráfico carioca, e são batizadas com nomes de países para confundir a fiscalização. “Dependendo de onde está o bairro, a festa tem um nome de um país diferente; por exemplo, em Três Poços, foi baile da Síria, pois a região lá é conhecida por esse nome. No Cruzeiro, é tropa da Argentina. Fazendinha e Marina Torres são Paris, por serem próximos da torre de transmissão. Toda semana tem eventos nesses lugares e dificilmente a PM sobe para acabar com os bailes; e olha que os moradores se cansam de ligar”, confidenciou a fonte.
A ousadia não tem limites. Conforme o aQui apurou, representantes do tráfico local importam uma famosa festa itinerante que acontece no Rio, o tradicional baile da VJ. Sem o mínimo pudor, responsáveis pelo empreendimento ostentam no Facebook um perfil com quase um milhão de seguidores. Na ‘timeline’ deles, inúmeros cards anunciam eventos grandiosos, com a presença de DJs e funkeiros famosos. Um deles é o MC TH, conhecido nacionalmente por ser o artista do gênero com o maior cachê no país no ano de 2017. “Ele já fez baile em Volta Redonda. Sempre que vem é um sucesso”, revelou a fonte festeira do jornal.
Tem mais. MC TH está sendo esperado na cidade do aço na noite deste sábado, 12, para mais um show clandestino. Nas redes sociais, a organização do evento ainda não diz o lugar em que ele será realizado, mas alerta para o uso obrigatório de máscaras, como se o acessório deixasse todos imunes ao vírus e impedisse completamente sua transmissão.
A rave de MC TH nem deve ser o maior evento da noite deste sábado em Volta Redonda. Outro, batizado de ‘After dos Crias Fantasy’, promete ao menos dez atrações, pessoas fantasiadas, muita bebida e Covid para dar e vender. “Não dá para saber onde será. Só divulgam no dia do evento, horas antes”, explicou a fonte. “É tudo muito organizado. Quem quiser comprar o ingresso pode pagar até via PIX e tem direito a desconto se comprar com antecedência”, avisou o festeiro, cheio de expectativas.
De acordo com um dos cards de divulgação da ‘After dos Crias’ que já circulam nas redes sociais, os organizadores planejam mais “uma mega estrutura de som e luz inédita fazendo a sua noite inesquecível”. Isso tudo debaixo do nariz dos órgãos de fiscalização.
As autoridades
Sobre a festa na Califórnia, a prefeitura de Barra do Piraí soltou a seguinte nota: “A Prefeitura de Barra do Piraí, por meio da Guarda Municipal, tem promovido fiscalização nestes tipos de festividades, que vão de encontro com o que determinam os decretos. Nos documentos, existem regras e, por conta do atual momento, festas – mesmo que particulares – estão proibidas. No entanto, muitas pessoas acabam promovendo eventos desta natureza. Para que a GM fique por dentro, e possa fiscalizar, é preciso entrar em contato com a corporação, pelo telefone da GM (2443-1723)”.
A comandante do 28o Batalhão da PM, Andréia Campos, também foi procurada para esclarecer como vem fiscalizando as festas clandestinas e como tem trabalhado para evitá-las. Não respondeu, limitando-se a dizer que um porta-voz da PM entraria em contato com o jornal, o que não ocorreu.
A prefeitura de Volta Redonda também foi contactada, mas não deu informações de como atua a força-tarefa do município para combater as festas clandestinas, especialmente as que ocorrem na estrada de acesso à Fundação Beatriz Gama, entidade que abriga centenas de jovens e crianças.

Monitoramento por câmeras

Na tarde de quarta, 9, o prefeito Neto se reuniu com a comandante do Batalhão de Aço, tenente-coronel Andreia Campos. Não foi para tratar das festas clandestinas, mas pode ter a ver. Discutiram a reativação do sistema de monitoramento por câmeras das vias públicas de Volta Redonda. A ideia é reativar as cabines da PM, sem uso há muito tempo, em três regiões da cidade: nos bairros Vila Rica, Santa Cruz e Santo Agostinho, onde vivem umas 70 mil pessoas.
A ideia, que não é nova, passa por instalar, em pontos estratégicos destes três bairros, cerca de 175 câmeras de alta definição com filmagem em 360 graus e fixas, que também serão controladas e integradas ao Ciosp. Para custear a compra dos equipamentos, o prefeito informou que vai buscar apoio federal e estadual, oferecendo uma contrapartida da prefeitura. Se der certo, Neto diz que, em pouco tempo, vai levar a experiência para mais dois bairros: Conforto e Belmonte.
O ‘VR mais Segura’, segundo o prefeito, será levado a toda a cidade. “Precisamos da PM e da Guarda Municipal na cabine para monitorar as imagens e ajudar a coibir os delitos. Teremos um número de telefone exclusivo para cada cabine, para que a população ligue e o atendimento seja o mais rápido possível”, crê Neto.
A comandante da PM, Andreia Campos, que não goza de muito prestígio no meio político, garantiu que dará apoio ao projeto. “Será muito importante para a gente também. Pois, hoje, não temos um PM lá na cabine o tempo todo, pela falta de efetivo, mas com a chegada deste reforço, o trabalho será mais eficiente. Teremos com este projeto a PM dentro da cabine 24 horas e a equipe de ronda. Seremos parceiros e reconheço que teremos resultados com esta primeira etapa”, disse a comandante, acreditando que Neto vai conseguir aumentar o efetivo do Batalhão do Aço. “Pedi o reforço de 33 PMs que trabalham no Rio e são de Volta Redonda”, contou o prefeito.

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